EM DEFESA DE MERIDA ou PORQUE “VALENTE” É UMA OBRA AINDA INCOMPREENDIDA

Valente

Valente, de Mark Andrews e Brenda Chapman, ganhou o Oscar de melhor animação em 2013. Muitos acharam injusto (mesmo eu, já que Detona Ralph ou Paranorman, sob muitos aspectos, deveriam ter levado a estatueta), porque, para uma certa quantidade de críticos, Valente foi “depois de Carros e Carros 2 o mais fraco trabalho da Pixar”. Bem, há claras (e políticas) razões de Valente ter ganho (como seu tema ser clara e tradicionalmente “família”, enquanto o envolvimento de Ralph e Venelope chega às vias de uma “estranha” e “lolita”, mas velada, paixão e Paranorman possuir temas e representações vistas não com bons olhos pelos críticos infantis hollywoodianos – duvido muito que eles dessem um Oscar a uma animação onde um dos “bonecos” expõe sua homossexualidade abertamente), no entanto, também acredito que o público não percebeu que há algo de diferente e genial na animação, possivelmente porque tais detalhes (tão relevantes, como são relevantes) não ficam tão claros assim e, quando ficam, são ruidosos e estranhos ao que estamos acostumados. Por isso, decidi listar 5 boas razões para ver filme com outros olhos:

1. A QUEBRA DO PARADIGMA DA PRINCESA APRISIONADA

Ela decide os limites, ninguém mais.

Princesas (Disney, mas não somente) costumam viver em lugares e ambientes limitados, seja por regras, ordens familiares, maldições e uma série de outros infortúnios, e só são retiradas de lá por forças externas (comumente masculinas). Branca de Neve vivia presa no próprio castelo até necessitar fugir para não morrer e mesmo assim teria perecido não fosse pelo caçador, os anões e por fim o príncipe. Mesmo Pocahontas, talvez a mais liberta princesa até agora, era limitada a seu ambiente natural, devendo Smith chegar para tirá-la daquele mundo. Merida não é assim, pelo contrário, as regras (ou os prendedores de cabelo) não a contêm e é ela quem traz notícias do mundo lá fora para a família, o que, por sinal, define/destina a personagem, colocando-a acima, inclusive, do próprio rei, mostrando que seu direito de nascença (a vida de princesa/rainha de um outro rei) é menor do que seu próprio destino, de seu espírito livre. Essa importância de grandeza espiritual fica bem marcada na fala de seu pai: após ela contar que alcançou a cachoeira no topo da montanha, ele responde “Dizem que somente os reis antigos eram valentes o bastante para beber do fogo [água das cachoeiras]”, ou seja, ela é comparada aos maiores. Aspecto que já diz muito da história e da protagonista, imbuindo-a de uma poderosa e conquistadora força e dando a personagem um aspecto guerreiro e irreprimível por si só, informando que nada que surja será maior que ela mesma (não à toa, sua origem nórdica contribui muito para fixação desse significado).

2. DECISÃO, CERTEZA E SEGURANÇA

A simbologia do arco e flecha demonstra segurança e certeza em suas decisões.

Enquanto a maioria das princesas são inseguras ou ficam rodeando seus filmes na descoberta de quem são e qual o lugar delas no mundo (puro reflexo de uma sociedade onde a mulher não é vista como segura de si, mas deve esperar até que, novamente, uma força externa – masculina ou fálica? – diga o que realmente ela é, quer e pra onde vai), algo que nem mesmo a “revolucionária” Fiona conseguiu escapar, Merida é desde o começo certa do que quer fazer, do que quer negar e do que quer alcançar – pilar em sua discussão com a mãe e pedra fundamental na plot do filme. Engraçado, por sinal, é como isso é demonstrado durante a animação. É comum que em contos de princesas, a personagem principal cante uma linda canção falando do que quer e das dificuldades que a impedem (muitas vezes, prenúncio para a chegada da força [masculina] que a tirará daquele estado, pois ela pode sofrer muito ao fazer isso sozinha, vide o caso Pequena Sereia), em The Brave a única canção interpretada indica as certezas de Merida pra si mesma, em como ela voará e tocará os céus com as próprias forças, quase uma sátira para a passividade das princesas regulares. Muito moderninha essa nórdica.

3. NÃO NECESSIDADE DE UM PRÍNCIPE OU ROMANCE QUE A “SALVE”

O filme não transformou nenhum deles em bom partido dando a certeza absoluta ao público de que não, não haveria romance no filme. A redenção de Merida só poderá ser alcançada por ela.

Esse tópico me faz lembrar de dois casos bem simples: Rose, personagem de Kate Winslet em Titanic, e Bela, de A Bela e a Fera. No primeiro, a “princesa da era de ouro” tinha tudo, mas era infeliz e incapaz de sair da posição que estava, no segundo, a “princesa campestre”, era feliz com o pai, mas sua pobreza trazia dificuldades, pois a impedia de cuidar do velho, assim, estava “estacionada” em sua posição social. Para Rose, Jack apareceu mostrando um mundo novo através de sua liberdade e, com isso, “salvando” a jovem de sua própria vida. Já Bela, ao entrar em contato com a Fera, possui o romance que desenvolve pelo monstro como libertador deste e, por consequência, dela própria, tendo em vista que o príncipe, uma vez saído da casca de besta, deu-a uma vida de riquezas que a “salvaram”. Duas maneiras clássicas e bem distintas (e eternamente repetidas) sobre o mesmo tema: a alienígena, poderosa e “selvagem” força masculina sendo a responsável pela salvação feminina, comumente usando o “amor” como instrumento de ligação entre os dois. Merida, revolucionariamente, é dona do próprio destino, como já dito antes, e dispensa qualquer romance “salvador”, encontrando ela mesma as resoluções para suas questões – tendo sido gerada por ela ou não e mesmo de outrem – fazendo com que sua própria pessoa mude a maneira de pensar de sua mãe, sem que ela mesma tenha de abandonar suas decisões e convicções. E quem precisa de um príncipe chechelento se sabe usar arco e flecha?

4. TROCA DA SIMBOLOGIA DA FADA/MADRINHA PELA DA BRUXA/MAGA/VELHA SÁBIA OU “A NOVA BELEZA”

E ela faz ursos de madeira. Nunca esqueça.

Outro ponto interessante em Valente é a forma como a beleza é utilizada. Princesas como Branca de Neve, Cinderela, Bela Adormecida e Bela são ideais de nobreza: bem vestidas, educadas, gentis, “garbosas”, charmosas etc. e outras, como Ariel, Jasmine e Pocahontas, carregam essas mesmas características, mas com certa sensualidade, às vezes reduzida por sua inocência e meninisse. Merida, apesar de ainda bonita, possui uma beleza diferente, revolta (tão bem elogiada em seus loucos e vermelhos cachos, mas também evidente em seu rosto arredondado), descuidada até – uma contraparte perfeita para sua mãe, a verdadeira figura da princesa clássica ali. A cena em que ela rasga o vestido enquanto empunha o arco, assinando com sangue na flecha sua independência, é impressionantemente emblemática nesse sentido. Ali é Merida “arrancando” a figura clássica das princesas que tentaram impor nela.

Nesse mesmo barco, a bruxa que a ajuda é a inversão das fadas madrinhas: sem beleza ou glamour, egoísta, esquisita, amalucada. Em uma história clássica, poderia ser a face da vilã, mas pelas graças de seu padroeiro e influenciador Miyazaki (a personagem é uma clara homenagem ao cineasta japonês), ela é a estranha guia da protagonista em sua jornada.

5. EVOLUÇÃO DO DILEMA PAIS vs FILHOS

Em termos metafóricos, ao confrontar a mãe, Merida está desafiando todas as princesas tradicionais e o que representam, ou seja, a figura idealizada (e equivocada) da mulher.

Esse tema não é realmente novo. O dilema PAI vs FILHO ou MÃE vs FILHA é recorrente na história do cinema, mesmo no de animação (o curta que abre Valente, La Luna, é um bom exemplo). No entanto, eu acredito que em Valente ele toma uma proporção maior. Primeiro, por tratar com maestria o lado feminino dessa relação e com veracidade não agressiva a qualquer idade; segundo, pela mudança e amadurecimento da personagem principal, além de sua mãe, não significar a destruição ou superação dos pontos de vista de ambas (costumeiramente, no lado masculino, um costuma “tomar” o lugar do outro, mesmo que amigavelmente), por último, pelas duas resolverem a questão entre si, corroborando para aquilo que havia discutido no tópico 4, não é preciso ter um príncipe ou outro homem qualquer pra dar jeito nas próprias querelas. Fora que, e aí talvez seja o estranhamento do grande público para esse filme, as duas mulheres do filme são figuras muito mais maduras que os homens – velhotes turrões que a tudo resolvem numa pancadaria digna de moleques num parquinho – e ainda sim envolventes e interessantes.

Não sou um grande leitor e pesquisador do movimento feminino, mas arrisco dizer que Valente da Pixar/Disney é o filme mais feminista já feito para um público livre e por isso tenha (artística e politicamente) caído nas boas graças da Academia, mas, por conta de toda uma história de machismo social incutido na mente de “meninos e meninas” desde 1953/1937 (e bem antes), fosse difícil criar empatia por uma menina independente e dona do próprio nariz que tudo que quer é ter a liberdade de dizer não, ao invés de dizer sim de alguma maneira.

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