O PODER DE UMA PERSONAGEM FEMININA (ou mil questões ainda sem respostas)

O PARADOXO NARRATIVO

Gosto não somente de contar e ler histórias, gosto de saber o que as pessoas que leem, produzem, analisam histórias querem saber sobre estas, quais ideias elas têm, enfim… o que são histórias na vida das pessoas. Recentemente assisti um interessante vídeo do educador Colin Stokes intitulado Como Filmes Ensinam Masculinidade (How Movies teaches Manhood) e dentre as muitas coisas sensatas que ele falou, uma em especial me chamou a atenção: “ensinar aos nossos filhos a se identificarem com essas heroínas [mulheres, de uma forma geral] e dizerem: ‘Eu quero estar no time delas“. O vídeo inteiro vocês podem ver aqui: Como Filmes Ensinam Masculinidade

Um dos conceitos mais básicos da produção de narrativas é a identificação. Os personagens devem ser humanos porque nós só nos identificamos com humanos, ou seja, os personagens devem carregar nossas qualidades, defeitos, sonhos, desejos, fúrias, lamentos, enfim, eles devem ser “nós enquanto humanos”. Sendo assim, qualquer ser (mulheres, homens, bichos, coisas etc) ‘humanizado’ tem um potencial enorme de se tornar o personagem marcante de uma história e, por sua vez, inspirar seus leitores/expectadores/jogadores/consumidores, ensinando-os com exemplos positivos a como encarar a vida ou simplesmente fazendo com que se reconheçam frente a desafios comuns a seus mundos culturais, tendo vitória nisso ou não. No entanto, o número de personagens femininos inspiradores é terrivelmente limitado – pra não dizer quase nulo (e acredito que não é necessário nenhuma pesquisa de grandes universidades para comprovar a veracidade disso). Elas, mulheres, costumam ser a acompanhante, o back up, a tutora, o instrumento, o fetiche, enfim, “a coisa ao lado”, o degrau ou prêmio para o crescimento/amadurecimento/vitória de um personagem principal masculino (muitas vezes, homem, caucasiano, heterossexual, mas não entrarei nesse assunto agora; uma batalha por vez). Quando possui algum protagonismo, não raro elas são masculinizadas e fetichizadas, tornando-se algum tipo de ideário feminino PARA homens e, assim, deixam novamente de ser exemplos, pessoas reais com quem você se identifica, e passam a ser “coisas”, seres tão incomuns e fantásticos (e inferiores) que nem homens nem mulheres se veem naqueles personagens.

Objetivo. Segurança. Certeza. Qual sua desculpa pra não querer ser Mérida?

DESCONSTRUINDO A REALIDADE

Tomando o rumo e os exemplos de Colins na palestra, trago algumas experiências pessoais: a primeira vez que assisti Star Wars: Uma Nova Esperança foi impactante pra mim, como deve ter sido pra vários moleques nos anos de 1970 e 1980 (e ainda é), e a personagem que logo de cara gostei foi a princesa Leia. Ela era a líder dos rebeldes e ela encarava a figura de Darth Vader enquanto todo mundo se borrava de medo dele (até eu). Naquele momento, a postura da Leia me fez querer segui-la, me fez querer ser parte de um grupo no qual a líder era ela. Luke, mesmo em sua evolução final, nunca foi tão forte pra mim quanto a figura inicial de Leia. Imaginem então a decepção que foi quando, durante os outros filmes, ela se tornou “o prêmio” do chato (ao menos pra mim) Han Solo? Decepção pior ainda (anos depois, com uma mente mais madura) quando, na chance de ela ter alguma importância não passiva na trama, eu a vi sendo transformada em um fetiche a la Red Sonja? E isso piora: descobrir que Darth Vader, o cara que matou mundos e mundos que ela tentava salvar, que bateu na porta do planeta dela com uma tropa e uma Estrela da Morte e a aprisionou, é seu pai e… qual foi o impacto disso pra ela? Como essa nova realidade foi explorada no interior da personagem? Alguém lembra da reação ou semblante de Leia ao saber disso? Enfim, uma história de meninos pra meninos sobre seus pais (masculino mesmo, não a “coletivização” do termo).

Até hoje a forma como tratam Leia em SW ainda não me faz um fã completo e sincero da série. Pergunto: qual o problema ou necessidade de manter personagens tão “atuantes” e complexos quanto Luke ou Han ou Chew ou os amalucados Droides R2D2 e C3PO (que várias vezes têm mais função e falas que Leia) e perder a oportunidade de explorar uma história rica como a de uma princesa criada por outra família que quando se viu tendo de liderar um grupo de rebeldes contra um ditador fascista não pensou duas vezes? Por que Leia não pode ter sido, desde o início, uma figura que instruía e guiava Luke, no mínimo? Por que ela não poderia ter sido uma líder muito mais atuante que uma princesinha presa? Por que ela não poderia, quem sabe, ser a real mestre Jedi ali? É uma ideia tão subversiva assim só porque ela é… bem, mulher? Pensemos.

Beatrix Kido, uma personagem feminina forte ou uma figura feminina que foi revestida de símbolos masculinos pra se tornar uma protagonista mais aceitável ao "público"?

Beatrix Kido, uma personagem feminina forte ou uma figura feminina que foi revestida de símbolos masculinos pra se tornar uma protagonista mais aceitável ao “público”?

MAS… QUEM FAZ AS HISTÓRIAS?

Ainda falando do TED e seguindo o raciocínio da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie (no vídeo que vc pode ver acima, mas veja depois, sei que você passou por ele e pensou ‘como é longo’…) eu penso muito naqueles que escrevem as histórias. Bem, quem escreve histórias é quem primeiro consumiu histórias que, por sua vez, foi feita por… homens (ao menos em sua grande maioria). Assim, são homens (héteros, brancos, dominantes etc etc etc) que colocam na cabeça de crianças (sim, as histórias influenciam muito mais nossas crianças que as milhares de horas semanais nas escolas) que meninos são protagonistas de jornadas épicas e meninas são troféus sensuais a serem recebidos – e sim, esse pensamento é ridiculamente simplista assim… e real. São ELES que vivem as jornadas, são ELES os escolhidos, são ELES os líderes, são ELES os que começam frágeis e no final se tornam fortes (saindo da seara da ficção, pensemos em âmbito social: seguindo essa lógica, atores e escritores recebem os melhores papéis, as melhores ideias, as melhores falas, os maiores cachês e se ficam nus ou seminus não são taxados por isso; a atriz Olivia Wilde tem uma entrevista interessante conversando sobre o assunto, mas, novamente, deixemos pra outro momento) e ELAS são… o resto. Às vezes menos que isso. Por que há tanto medo em manter mulheres como protagonistas? Por que um homem (nesse caso, uma criança) não pode se ver numa protagonista feminina? Isso é tão errado assim? Tão irracional? E colocar mulheres pra escreverem suas próprias histórias? Do jeito delas, da forma delas, com a cara delas… por que não? Isso seria tão absurdo assim? Iria tão contrário à realidade de nos vermos como humanos se nos vermos no lugar de mulheres? Se for, acho que temos um problema aí, porque estamos considerando que as mulheres, essa parte tão preciosa da humanidade, não são humanas, porque a existência e história delas são incapazes de criar identificação com quem quer que seja, e a isso me refiro a outras mulheres também. Parece tão paradoxal, pra não dizer absurda, tal ideia.

Isso me lembra um grupo de RPG que jogo. Havia uma jogadorA que durante uma de nossas longas aventuras foi a líder de nosso grupo. Confiávamos cegamente nela porque era a mais sensata do grupo, fato incontestável. O próprio mestre tinha mais confiança em nós porque ela era quem ditava as regras. A segurança de sua personalidade na época era tão forte, que mesmo fora de mesa, nós ainda a víamos como líder, como alguém a quem poderíamos recorrer. No entanto, seu personagem era… homem. Retirando a possibilidade de que ela via interpretar um homem como um desafio, será que a personagem dela teria tido a mesma sorte conosco se fosse mulher? E nós, homens jogadores, arriscaríamos jogar com personagens femininas? Nos colocaríamos no lugar delas? E que tipo de figuras femininas seríamos, ou seja, estaríamos prontos para ficar no lugar delas e SER elas? E se ela decidisse interpretar uma personagem feminina, nós a seguiríamos tão seguramente também?

COLOCANDO AS COISAS NOS SEUS DEVIDOS LUGARES (OU NÃO)

Longe de mim, com esse texto, começar uma cruzada feminista ou machista, não por outra razão, mas porque, no final das contas eu acabaria me contradizendo. Afinal, eu sou homem (branco, hétero, de classe dominante – ao menos em parte) e, como gosto de metaforizar pra dizer que nunca poderei entender como as mulheres sentem ou pensam ou desejam: “não menstruo, nem sinto cólicas”. Fora isso, eu escrevo histórias sobre homens, porque, afinal, essas são as histórias dentro de mim. Meu amadurecimento como escritor tem me levado a tornar essas histórias mais universais, até mesmo me ajudado a contar histórias de mulheres, mas ainda me pego relendo coisas que fiz e dizendo: “hummmm… ‘macho’ demais”. Resumindo, não vou levantar uma bandeira porque posso falhar naturalmente nisso, mas gosto de manter o pensamento de Colins: por que não contar uma história sobre uma mulher a qual eu quero seguir? Que lidere um time o qual eu queira fazer parte? Que seja ainda uma inspiração e que crie em mim o desejo de ser como ela, ter as qualidades que ela tem e ainda assim ela ser uma MULHER, não um homem travestido em fetiche para outros homens? Enfim, eu tenho muito a aprender, mas acho que há aí um ponto interessante de aprendizado pra qualquer um que ainda se veja como um estudante de narrativa (o que, na minha opinião, é qualquer autor, experiente ou não). Até lá, que tal deixarmos as mulheres contarem suas histórias? Que tal abandonarmos a triste máscara da ignorância e nos envolvermos com ELAS e as histórias DELAS e fazermos nossas crianças também se envolverem com isso e também quererem se ver como essas mulheres? Quem sabe assim a questão do respeito pelas mulheres  tão obrigatória e necessária, mas tão pouco lembrada – não precise nunca mais ser ensinada, pois estará já dentro de nós (homens) e de nossos filhos, e netos, e bisnetos…

BÔNUS TRACK

Aos que se perguntam onde encontrar boas fontes pra tentar desenvolver essa visão, eu vou tentar apelar aos clássicos (mesmo que esses ainda sejam muito machistas, então adaptações são necessárias): nas lendas gregas, Atenas (esqueçam a visão Cavaleiros do Zodíaco, por favor) é a deusa da guerra juntamente com seu irmão, Ares, mas este se curvava a ela – também deusa da razão, um dos grandes ideários gregos, em contraposição à selvageria e ao caos – e ter a bênção do senhor da guerra poderia garantir prontidão pra batalha, mas a bênção da divindade feminina era segurança de vitória. Fora isso, Atenas, independente de seu nascimento ou mesmo de sua função, é uma deusa pacifista que recorre às armas quando necessário, mas prefere vencer uma contenda da maneira mais funcional e eficiente possível. Ela é, por si só, uma líder. É uma divindade que, num mundo pagão, eu seguiria, principalmente porque me identifico no etos dela. Acredito piamente que muitos homens se identificariam com ela, na verdade, muitas pessoas. Então, fazendo as devidas adaptações, por que não?

O que você prefere: razão ou destruição? Já parou pra entender as razões da sua resposta pra essa pergunta?

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EM DEFESA DE MERIDA ou PORQUE “VALENTE” É UMA OBRA AINDA INCOMPREENDIDA

Valente

Valente, de Mark Andrews e Brenda Chapman, ganhou o Oscar de melhor animação em 2013. Muitos acharam injusto (mesmo eu, já que Detona Ralph ou Paranorman, sob muitos aspectos, deveriam ter levado a estatueta), porque, para uma certa quantidade de críticos, Valente foi “depois de Carros e Carros 2 o mais fraco trabalho da Pixar”. Bem, há claras (e políticas) razões de Valente ter ganho (como seu tema ser clara e tradicionalmente “família”, enquanto o envolvimento de Ralph e Venelope chega às vias de uma “estranha” e “lolita”, mas velada, paixão e Paranorman possuir temas e representações vistas não com bons olhos pelos críticos infantis hollywoodianos – duvido muito que eles dessem um Oscar a uma animação onde um dos “bonecos” expõe sua homossexualidade abertamente), no entanto, também acredito que o público não percebeu que há algo de diferente e genial na animação, possivelmente porque tais detalhes (tão relevantes, como são relevantes) não ficam tão claros assim e, quando ficam, são ruidosos e estranhos ao que estamos acostumados. Por isso, decidi listar 5 boas razões para ver filme com outros olhos:

1. A QUEBRA DO PARADIGMA DA PRINCESA APRISIONADA

Ela decide os limites, ninguém mais.

Princesas (Disney, mas não somente) costumam viver em lugares e ambientes limitados, seja por regras, ordens familiares, maldições e uma série de outros infortúnios, e só são retiradas de lá por forças externas (comumente masculinas). Branca de Neve vivia presa no próprio castelo até necessitar fugir para não morrer e mesmo assim teria perecido não fosse pelo caçador, os anões e por fim o príncipe. Mesmo Pocahontas, talvez a mais liberta princesa até agora, era limitada a seu ambiente natural, devendo Smith chegar para tirá-la daquele mundo. Merida não é assim, pelo contrário, as regras (ou os prendedores de cabelo) não a contêm e é ela quem traz notícias do mundo lá fora para a família, o que, por sinal, define/destina a personagem, colocando-a acima, inclusive, do próprio rei, mostrando que seu direito de nascença (a vida de princesa/rainha de um outro rei) é menor do que seu próprio destino, de seu espírito livre. Essa importância de grandeza espiritual fica bem marcada na fala de seu pai: após ela contar que alcançou a cachoeira no topo da montanha, ele responde “Dizem que somente os reis antigos eram valentes o bastante para beber do fogo [água das cachoeiras]”, ou seja, ela é comparada aos maiores. Aspecto que já diz muito da história e da protagonista, imbuindo-a de uma poderosa e conquistadora força e dando a personagem um aspecto guerreiro e irreprimível por si só, informando que nada que surja será maior que ela mesma (não à toa, sua origem nórdica contribui muito para fixação desse significado).

2. DECISÃO, CERTEZA E SEGURANÇA

A simbologia do arco e flecha demonstra segurança e certeza em suas decisões.

Enquanto a maioria das princesas são inseguras ou ficam rodeando seus filmes na descoberta de quem são e qual o lugar delas no mundo (puro reflexo de uma sociedade onde a mulher não é vista como segura de si, mas deve esperar até que, novamente, uma força externa – masculina ou fálica? – diga o que realmente ela é, quer e pra onde vai), algo que nem mesmo a “revolucionária” Fiona conseguiu escapar, Merida é desde o começo certa do que quer fazer, do que quer negar e do que quer alcançar – pilar em sua discussão com a mãe e pedra fundamental na plot do filme. Engraçado, por sinal, é como isso é demonstrado durante a animação. É comum que em contos de princesas, a personagem principal cante uma linda canção falando do que quer e das dificuldades que a impedem (muitas vezes, prenúncio para a chegada da força [masculina] que a tirará daquele estado, pois ela pode sofrer muito ao fazer isso sozinha, vide o caso Pequena Sereia), em The Brave a única canção interpretada indica as certezas de Merida pra si mesma, em como ela voará e tocará os céus com as próprias forças, quase uma sátira para a passividade das princesas regulares. Muito moderninha essa nórdica.

3. NÃO NECESSIDADE DE UM PRÍNCIPE OU ROMANCE QUE A “SALVE”

O filme não transformou nenhum deles em bom partido dando a certeza absoluta ao público de que não, não haveria romance no filme. A redenção de Merida só poderá ser alcançada por ela.

Esse tópico me faz lembrar de dois casos bem simples: Rose, personagem de Kate Winslet em Titanic, e Bela, de A Bela e a Fera. No primeiro, a “princesa da era de ouro” tinha tudo, mas era infeliz e incapaz de sair da posição que estava, no segundo, a “princesa campestre”, era feliz com o pai, mas sua pobreza trazia dificuldades, pois a impedia de cuidar do velho, assim, estava “estacionada” em sua posição social. Para Rose, Jack apareceu mostrando um mundo novo através de sua liberdade e, com isso, “salvando” a jovem de sua própria vida. Já Bela, ao entrar em contato com a Fera, possui o romance que desenvolve pelo monstro como libertador deste e, por consequência, dela própria, tendo em vista que o príncipe, uma vez saído da casca de besta, deu-a uma vida de riquezas que a “salvaram”. Duas maneiras clássicas e bem distintas (e eternamente repetidas) sobre o mesmo tema: a alienígena, poderosa e “selvagem” força masculina sendo a responsável pela salvação feminina, comumente usando o “amor” como instrumento de ligação entre os dois. Merida, revolucionariamente, é dona do próprio destino, como já dito antes, e dispensa qualquer romance “salvador”, encontrando ela mesma as resoluções para suas questões – tendo sido gerada por ela ou não e mesmo de outrem – fazendo com que sua própria pessoa mude a maneira de pensar de sua mãe, sem que ela mesma tenha de abandonar suas decisões e convicções. E quem precisa de um príncipe chechelento se sabe usar arco e flecha?

4. TROCA DA SIMBOLOGIA DA FADA/MADRINHA PELA DA BRUXA/MAGA/VELHA SÁBIA OU “A NOVA BELEZA”

E ela faz ursos de madeira. Nunca esqueça.

Outro ponto interessante em Valente é a forma como a beleza é utilizada. Princesas como Branca de Neve, Cinderela, Bela Adormecida e Bela são ideais de nobreza: bem vestidas, educadas, gentis, “garbosas”, charmosas etc. e outras, como Ariel, Jasmine e Pocahontas, carregam essas mesmas características, mas com certa sensualidade, às vezes reduzida por sua inocência e meninisse. Merida, apesar de ainda bonita, possui uma beleza diferente, revolta (tão bem elogiada em seus loucos e vermelhos cachos, mas também evidente em seu rosto arredondado), descuidada até – uma contraparte perfeita para sua mãe, a verdadeira figura da princesa clássica ali. A cena em que ela rasga o vestido enquanto empunha o arco, assinando com sangue na flecha sua independência, é impressionantemente emblemática nesse sentido. Ali é Merida “arrancando” a figura clássica das princesas que tentaram impor nela.

Nesse mesmo barco, a bruxa que a ajuda é a inversão das fadas madrinhas: sem beleza ou glamour, egoísta, esquisita, amalucada. Em uma história clássica, poderia ser a face da vilã, mas pelas graças de seu padroeiro e influenciador Miyazaki (a personagem é uma clara homenagem ao cineasta japonês), ela é a estranha guia da protagonista em sua jornada.

5. EVOLUÇÃO DO DILEMA PAIS vs FILHOS

Em termos metafóricos, ao confrontar a mãe, Merida está desafiando todas as princesas tradicionais e o que representam, ou seja, a figura idealizada (e equivocada) da mulher.

Esse tema não é realmente novo. O dilema PAI vs FILHO ou MÃE vs FILHA é recorrente na história do cinema, mesmo no de animação (o curta que abre Valente, La Luna, é um bom exemplo). No entanto, eu acredito que em Valente ele toma uma proporção maior. Primeiro, por tratar com maestria o lado feminino dessa relação e com veracidade não agressiva a qualquer idade; segundo, pela mudança e amadurecimento da personagem principal, além de sua mãe, não significar a destruição ou superação dos pontos de vista de ambas (costumeiramente, no lado masculino, um costuma “tomar” o lugar do outro, mesmo que amigavelmente), por último, pelas duas resolverem a questão entre si, corroborando para aquilo que havia discutido no tópico 4, não é preciso ter um príncipe ou outro homem qualquer pra dar jeito nas próprias querelas. Fora que, e aí talvez seja o estranhamento do grande público para esse filme, as duas mulheres do filme são figuras muito mais maduras que os homens – velhotes turrões que a tudo resolvem numa pancadaria digna de moleques num parquinho – e ainda sim envolventes e interessantes.

Não sou um grande leitor e pesquisador do movimento feminino, mas arrisco dizer que Valente da Pixar/Disney é o filme mais feminista já feito para um público livre e por isso tenha (artística e politicamente) caído nas boas graças da Academia, mas, por conta de toda uma história de machismo social incutido na mente de “meninos e meninas” desde 1953/1937 (e bem antes), fosse difícil criar empatia por uma menina independente e dona do próprio nariz que tudo que quer é ter a liberdade de dizer não, ao invés de dizer sim de alguma maneira.

O ETERNO E A ETERNIDADE

Dia 10 de março, Moebius morreu. Ele foi um dos maiores artistas que existiu. Em uma semana, isso já tinha virado notícia velha. Agora então, nem sei. Antes dele, ainda esse ano, outros tantos também partiram. Artistas de importância ímpar, pioneiros e geniais dentro de suas searas. Mas a verdade é que muitos não vão mais lembrá-los.

Talvez nem devam. Mesmo que essa seja uma afirmação ridícula por parecer generalizada demais.

A verdade é que o mundo pede por renovação de suas artes. Quando o assunto é quadrinhos, que possuem uma “fase de vida” muito curta, estritamente ligada às mudanças sociais, aí sim a coisa se torna evidente: mestres do passado são superados pelo mercado “narrativo” ditado pela tecnologia e novas formas de entretenimento. Boas fórmulas são repetidas exaustivamente em tão pouco tempo que é impossível não se desejar uma mudança.

No entanto, que mudança seria essa?

Houve uma época que os quadrinhos não passavam de desenhos lado a lado em piadinhas forçadas. Will Eisner, Winsor McCay e vários outros trouxeram iluminação, narrativa, design de página, histórias e personagens mais complexos e elementos que elevaram essa mídia a um ponto em que ela pode realmente ser reconhecida como ARTE. Anos depois, quando essas mesmas fórmulas precisavam de renovação, Frank Miller, Neil Gaiman, Allan Moore e outros malucos deram um novo salto, consolidando temas adultos e amadurecendo as HQs. Desde então nada foi como antes. Ou melhor, nada mais é de outro jeito…

Na verdade e na mentira, no bem e no mal, [Will Eisner, Moebius, Al Rio, John Buscema etc.] representam uma época [ou, no caso, várias]… que agora se encerra! Novos heróis surgirão, mas não serão melhores homens!

Willy ‘Poe’ Richards – Mágico Vento 100

Essa é uma grande verdade. A Era dos Quadrinhos chegou ao fim. Os tablets e eletrônicos de portabilidade trazem uma nova possibilidade de narração de histórias, mas, infelizmente não têm trazido novas histórias. E os autores regurgitam fórmulas antigas, repetindo-as como referências com fonte 2 tamanhos menor e recuo de 3 centímetros, o que serve como base para um argumento, mas não sustenta ou imortaliza uma história.

Sei que pareço negativo com todas as minhas afirmativas. Mas venho aqui com a função mínima de arauto carregando o aviso de uma verdade que está excessivamente óbvia em nossas caras: os mestres estão partindo. É preciso aceitar isso. É triste e desolador e é ainda pior saber que seu legado pode vir a ser esquecido. E a coisa parece ainda pior porque não existe ninguém para substituí-los, para, enfim, guiar as gerações que cada vez se afastam mais deles.

Falta quem inspire os novos. Simplesmente porque somente nos murmuramos sobre a perda daqueles que nos inspiraram ao invés de aprendermos com eles e darmos o passo seguinte.

Afinal, que autores estamos nos tornando? E pra que leitores? Acho que são questões pertinentes e que tem de começar a ser respondidas por nós mesmos.

A NOVA DC E A MORTE DO SUPERMAN

A DC Comics, editora da Liga da Justiça – pra resumir todas as bandeiras spandex da editora – está de logo novo. Segue abaixo para que vocês vejam.

Se seu cérebro “rebootou” depois disso, relembro a antiga logo:

Eu costumo fazer comentários longos sobre isso, mas dessa vez eu vou tentar não me alongar. Bem, antes de tudo eu preciso dizer: eu achei o logo novo belíssimo. Ele é moderno, visualmente atraente, direto, o lance de ele “mudar de identidade” pra cada linha de trabalho deixou-o dinâmico e até divertido…

MAS… (e sempre que aparece uma adversativa em uma frase as pessoas costumam esquecer o que veio antes)

… Ele não é nada heroico. Não importam quantas luzes verdinhas, sombrinhas, fumacinhas, fios, texturas e o escambal coloquem nesse logo novo em nada ele me passa a energia do anterior. Nada mesmo. Ele é fixo, parado e – até certo ponto – “fofo” (não dá a impressão de que é uma mofada auto-adesiva? Eu acho…). Eu olho pra ele e não consigo identificar que o produto que vou consumir é um comics – e o uso da expressão é esse mesmo: comics, spandex, quadrinhos energizados e bombalizados e cheios de ação de heróis americanos – em nada ele me remete a um quadrinho cheio de fantasia super-heroica.

Não estou aqui pra julgar a DC, mas para constatar um fato: a indústria de quadrinhos americana decretou seu fim – por mais que muitos digam que isso aconteceu (pelo menos intelectualmente) há tempos, acredito que não, que as grandes editoras ainda se mantinham como EDITORAS DE QUADRINHOS SPANDEX.  Mas quando a casa do deus dos super-heróis, O Superman, rende até o significado do que ela é ao mundo dos negócios, bem, então esse sim é o completo fim.

O logo de uma editora não é somente o o símbolo a ser fixado na memória em um instante, mas é a implementação de seus significados, a forma física de suas filosofias, ideias, objetivos e ideais. O logo anterior – já uma evolução de seu primeiro logo, o círculo com estrelas – mostrava a energia da DC, o heroismo de seus personagens, mesmo todos sabendo que sim, ela era uma empresa, ela fazia coisas pensando nas vendas, ela mataria (ou “rebootaria”) qualquer coisa pra abocanhar mais verdinhas (ou azuis e amarelas, dependendo do país), ao olhar aquele logo automaticamente o Superman passava voando em sua mente – uma égide total do superheroismo que gerou a cultura spandex – e você sentia que em algum lugar em meio a negociatas, contratos, brigas por mais ou menos vendas, ainda havia um fã concreto tentando fazer seu trabalho, tentando manter a chama viva, ainda existia algo ali, naquelas linhas angulares e pontas, de que ainda é possível acreditar em algo.

Esse novo logo destrói isso. Ele é um tiro definitivo no Superman. Ele define o fim de uma era que tentou perdurar por mais tempo que o necessário às mudanças…

… ou talvez, EU tenha que decretar minha falência como fã de quadrinhos…

Lady’s Comics ou Quadrinhos para Senhoritas e Senhoras

Há algum tempo tenho andado um pouco ocupado e, por isso, lendo mais do que escrevendo. Isso me concede um tempo para procurar uma coisa ou outra interessante na internet. Um dia, então, meio que sem querer eu encontrei “um” site de “umas” meninas que resolveram falar sobre a 9ª Arte e outros gêneros ligados a esta.

Lady’s Comics é mais que um site, um blog, uma central de artigos. Ele é uma verdade – até meio incômoda para alguns – que elas realmente estão aí – sim, rapaz, “elas”, as mulheres – e fazendo um trabalho incomparável.
A premissa básica do site é a premissa básica de milhares de outros (inclusive deste que vos escreve): um ambiente eletrônico para se discutir, divulgar e estudar a nona arte, ilustração, animação, etc. No entanto, com um certo viés: Mariamma, Samanta e Luciana são especialistas em figuras femininas deste universo artístico. E fazem o negócio como especialistas.
O primeiro acerto vem no design do site. Limpo e leve, bem diferente de toda a energia caótica, multicolorida e – por que não dizer – poluída de vários sites e blogs do gênero. O tom de cor claro e o desenho de Lu Cafaggi (lembram do irmão dela? Ele já esteve aqui) dão aquela sensação de calmaria e convidam você a ler os textos, naquele bem pensamento bem oriental de “não espere o fim do texto, vá curtindo o ambiente e cada linha escrita”, deixando qualquer um completamente à vontade para se envolver naquele espaço, sem pressa, sem atropelos, sem aperreios.
E se você, “machão”, acha que o que vai ler é um bla bla interminável feminino sobre coisas bobas e impressões superficiais acerca de um assunto que elas pouco entendem, então, meu caro, você errou feio! Os textos das meninas além de sintéticos (qualidade que me falta, mas admiro e respeitosamente invejo quem a tem), são precisos e ricos de informações, referências e imagens. Nada é feito irresponsavelmente, pelo contrário, mesmo quando a opinião pessoal das escritoras é, de alguma forma, expressa no texto, é colocada de maneira discreta, com uma educação que o Criador só concedeu ao sexo feminino. Elas se mostram especialistas, já que é possível perceber que há pesquisa, contato com o material e envolvimento com o que está sendo apresentado.
Apesar de tudo, e na afirmação não há uma crítica negativa, a intenção das meninas é revelar, dentro desse mundo aparentemente tão nerd-masculino, a persona feminina em suas variadas formas: personagens, pessoas, autoras, editoras, contribuintes e simpatizantes. Não importa de onde venham ou como fazem, há mulheres do Oriente e do Ocidente, sem esquecer Europa e Brasil. Proposta que elas realmente seguem com uma precisão jornalística e respeitosa. Pelas palavras das autoras:
A ideia é simples: falar das mulheres que estão presentes (ou que já se foram) no universo da Banda Desenhada. Mostrar que também frequentamos esses lares e que o fazemos em grande estilo! Viemos pra falar das personagens, das autoras, das desenhistas e do que há de novo feito por Ladys’Comics!
E aí há uma pequena revolução que muita falta fazia ao mundo dos quadrinhos. Algo bem maior e significativo do que colocar mulheres fazendo seu padrõezinhos americanóides com personagens altamente masculinizados, não importa o gênero (sim, Marvel, essa foi pra você). Não é conceder um direito, não é abrir um espaço, é realmente aceitar que há uma força feminina que movimenta toda essa indústria e, muitas vezes mais que muitos outros, o faz de maneira integralmente artística, dobrando os tais padrões a uma visão sensível que só pode ser estabelecida com uma porção de feminilidade obviamente inerente a elas. Mais que uma mera atitude ou movimento, o que as senhoritas Fonseca, Coan e Cafaggi fazem no Lady’s Comics é firmar algo que não deveria precisar de afirmação: o lugar de honra que essas mulheres têm, não só no mundo dos quadrinhos, mas em nosso mundo de “nerds-machos-bobões”.
Parabéns pelo trabalho meninas. Não direi “sejam bem vindas” a este universo, mas “vocês demoraram a aparecer“.
Este post é dedicado a minha noiva, uma mulher que luta pelo direito das mulheres, principalmente aquelas que sofrem violência doméstica, e que pra mim é um exemplo de dedicação e forma de pensar acerca dos problemas sociais e abriu meus olhos para o mundo que eu sequer sabia que existia. Valeu, Amor.

Pensando no Presente e Futuro ou Obras Transmidiáticas

Criar é uma caixinha. Sim. Diferente do que muitos pensam o ato de criar é uma pequena caixinha feita de um material específico e único para cada um. Essa caixinha possui as bases para toda a obra. Muitas vezes é só uma frase, como “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades“, ou conceitos, como “Homem de Aço“. Enfim, a base que sustenta toda uma estrutura maior está dentro de uma caixa segura, confortável e forte. O resto é tijolo, madeira, cimento e tinta.
No entanto, ter sua ideia em uma caixa não quer dizer que ela deva ficar o tempo todo NA caixa ou ter o diminuto tamanho desta. Eu realmente não acredito em obras que se limitam a tomar um espaço, um veículo, uma mídia. Talvez no século 17, hoje não. Uma boa história deve conhecer todas as maneiras de ser contada, ela deve alcançar todos os lugares possíveis e impossíveis. Nenhum trabalho deve ser fixo ou restrito a um único público e formato.
Games, vídeo, quadrinhos, cinema, paredes de parques, rolos de papel higiênico (que foi?), todos esses e outros são formas de mídias e todos podem ser utilizados para contar uma história. Fico imaginando se, ao invés dos enormes cartazes da TIM que tomam metade de um prédio no Centro de Fortaleza – ou em qualquer cidade que tenha esse tipo de coisa -, tivesse uma tira de Calvin e Haroldo, especialmente feita para aquele cartaz e com uma genial mensagem de Watterson – talvez até sem texto -, quantas pessoas seriam atingidas pela sabedoria do bom cartunista e que tipo de pessoas poderíamos formar com isso?
Acho que prender uma obra a um único espaço de mídia é colocá-la em um pedestal purista insensato e, por que não dizer, atrasado. Um bom livro sempre será imortal – vejam os casos de A Odisséia, A Divina Comédia ou Memórias Póstuma de Brás Cubas -, mas um filme inspirados nesses livros ou uma série de TV que tenta, o mais fielmente possível, transportar essas obras para o formato gravado, consegue algo tão e talvez até melhor que a imortalidade: popularidade.
Guillermo Del Toro, diretor, entre tantas coisas boas, de O Labirinto do Fauno e os dois Hellboy, recentemente deu uma entrevista dizendo que gostaria de tentar várias formas de narrativas, desde cinema, passando por quadrinhos, jogos e livros. Peter “O Um Anel” Jackson também já houvera comentado o desejo de se envolver com jogos. Acho esses posicionamentos e opiniões uma visão madura e pé no chão dos caminhos que a arte narrativa pode (e deve) chegar. Senhor dos Anéis deixou de ser um livro pra ser uma obra transmidiática – hoje temos de quadrinhos a jogos on-line – até com contas gratuitas! Um dos filmes mais comentados do ano, A Origem, além da película lançou um quadrinho on-line completando espaços deixados na história. Isso para comentar exemplos de cineastas que perceberam a importância de se colocar e até mesmo ligar (ou linkar pra ser mais fresc… cool!) eventos narrativos únicos, mas interligados ou não, de um mesmo universo.
Diferente de uma pura estratégia de mercado, acho que esse tipo de atitude possibilita um maior número de opções e formatos para uma história, um conceito, uma ideia etc e, com isso, mostra que qualquer espaço pode ser um espaço narrativo. Assim, um filme que apresenta aquela ideia da caixinha e amplia essa mesma para tiras on line, quadrinho impresso, livros de contos, podcasts, blogs, só pra falar em mídias mais comuns, consegue atingir uma quantidade muito maior de público e não só imortaliza o conteúdo da caixinha, mas faz com que este seja conhecido por todos.
Sei que uns 20% de pessoas vão dizer “e aqueles que não tem internet ou dinheiro pra lan house?“. Bem, aí eu mesmo proponho uma ideia: se uma editora resolve investir toda sua grana em um outdoor furreca com uma capa sobre um fundo de cor chifrim e o nome do autor bem grande que muitas vezes vende muito mais que a obra em si, tipo “Caulo Poelho“, porque não investir em uma forma de se contar a história – ou parte dela ou um conto no universo dela – naquela mídia? Ou comprar uma parede de um local onde passam muitas pessoas e inserir uma tirinha por lá? Sério? Por que um veículo narrativo deve ser único e imutável? Por que TUDO não pode ser uma “página em branco” e se transformar em um espaço criativo de veiculação de histórias?
Enfim, são ideias e devaneios de um narrador que sempre quer tudo muito além da caixinhas e que não apoia atitudes como as do digníssimo Alan Moore – e que fique bem claro aqui que este redator admira de muitas formas suas obras, mas odeia sua postura e bobagens profissionais – que deveria sim pegar os direitos de Watchmen entre outras coisas que ele fez e mandar ver em outras mídias aproveitando toda sua “genialidade” em espaços muito além dos oferecidos pela sarjeta.
Desculpem o atraso nos posts galera. Até semana que vem.