Boas Histórias são Eternas

Especial para a RIvista. Saiba como adquirir edições através do e-mail: redacaorivista@gmail.com ToyStoryBanner Existe uma verdade inegável na arte: o que é bom é apreciado, mas o que é excepcional é eterno. As pessoas não estavam preparadas para Toy Story quando ele foi lançado em 1994. Não estavam porque a maioria foi ver um filme de animação com modelos tridimensionais, diferentes da animação clássica desenhada, e se depararam com um filme em que o 3D nada mais era que um detalhe. Toy Story não é simplesmente uma animação utilizando uma técnica moderna, mas realmente um fantástico filme com personagens cativantes e uma história muito bem contada. Não há frames desnecessários ou falas que servem somente pra enfeitar, tudo possui sua função para permitir que a narrativa ganhe fluidez e divirta e encante o espectador. “Um filme sobre amigos”, pelas palavras de John Lasseter, um dos diretores da produção, na época chefe da Pixar e hoje principal diretor de animação da Disney. Até Toy Story, os filmes de animação americanos tinham caído em uma mesmice levada pelo “padrão Disney de animação”: personagens fofinhos, incorruptíveis em sua estrutura psicológica linear, canções que embalavam os momentos chaves dos filmes, e uma narrativa previsível que encantava em sua plasticidade e beleza, mas se tornava muitas vezes vazia depois que se saía do cinema. Dessa época, poucos ficaram na lembrança do público, sendo O Rei Leão o principal – diga-se de passagem, completamente inspirado nas clássicas (e eternas) tragédias de Shakespeare e em Kimba, de Osamu Tezuka, o pai do mangá moderno e um mestre em desenvolver personagens interessantes. Logo em seu começo, o filme dos brinquedos da Pixar mostra que veio derrubar “paradigmas” ao introduzir de um jeito humanamente atraente cada um dos personagens. Para quem não lembra, a história começa com os brinquedos velhos preocupados em qual brinquedo novo seu dono, Andy, ganharia, futuramente os substituindo por causa disso. Woody, o cowboy “líder” da turma, tenta ser racional e, em um discurso motivador, mostra aos companheiros que nada vai acontecer, pois Andy ama todos eles. No entanto, Woody tem toda sua dramaticidade reduzida quando um dos colegas diz que ele só fala isso porque não tem o que se preocupar, pois é o preferido do garoto. Quando o novo brinquedo surge, para a supresa de todos, o único que é realmente deixado de lado é Woody, superado por um charmoso e heroico brinquedo espacial, o astronauta Buzz Lightyear. Assim, em menos de 40 minutos, medo do abandono, frustração, desespero e inveja são os temas mostrados, todos terríveis sentimentos humanos, mas interpretados com magia e sagacidade por brinquedos em um filme para todas as idades. Aí está o grande pulo do gato de Toy Story e a razão por ter elevado os padrões da animação: trazer personagens humanos em histórias fantásticas, mas críveis, em um enredo que permeia temas que vão muito além da simplicidade infantil, mas conseguem atingir até o mais experiente adulto, emocionando o público com a maestria dos grandes contadores de história, como o já citado bardo inglês, sem ter de usar de elementos apelativos, violentos ou piadas de duplo sentido. Mais do que técnica, Toy Story tem o coração dos imortais clássicos. Daqueles que são pedras fundamentais na história da Arte. Apesar deste artigo, o verdadeiro segredo de Toy Story talvez esteja numa das frases iniciais de Woody, a qual reproduzo aqui: “O importante é estarmos disponíveis para o Andy quando ele precisar de nós. É pra isso que a gente existe, não?”. Troque Andy para “público” e a metáfora fará todo sentido: é para ele que as boas histórias do cinema existem, não?

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EM DEFESA DE MERIDA ou PORQUE “VALENTE” É UMA OBRA AINDA INCOMPREENDIDA

Valente

Valente, de Mark Andrews e Brenda Chapman, ganhou o Oscar de melhor animação em 2013. Muitos acharam injusto (mesmo eu, já que Detona Ralph ou Paranorman, sob muitos aspectos, deveriam ter levado a estatueta), porque, para uma certa quantidade de críticos, Valente foi “depois de Carros e Carros 2 o mais fraco trabalho da Pixar”. Bem, há claras (e políticas) razões de Valente ter ganho (como seu tema ser clara e tradicionalmente “família”, enquanto o envolvimento de Ralph e Venelope chega às vias de uma “estranha” e “lolita”, mas velada, paixão e Paranorman possuir temas e representações vistas não com bons olhos pelos críticos infantis hollywoodianos – duvido muito que eles dessem um Oscar a uma animação onde um dos “bonecos” expõe sua homossexualidade abertamente), no entanto, também acredito que o público não percebeu que há algo de diferente e genial na animação, possivelmente porque tais detalhes (tão relevantes, como são relevantes) não ficam tão claros assim e, quando ficam, são ruidosos e estranhos ao que estamos acostumados. Por isso, decidi listar 5 boas razões para ver filme com outros olhos:

1. A QUEBRA DO PARADIGMA DA PRINCESA APRISIONADA

Ela decide os limites, ninguém mais.

Princesas (Disney, mas não somente) costumam viver em lugares e ambientes limitados, seja por regras, ordens familiares, maldições e uma série de outros infortúnios, e só são retiradas de lá por forças externas (comumente masculinas). Branca de Neve vivia presa no próprio castelo até necessitar fugir para não morrer e mesmo assim teria perecido não fosse pelo caçador, os anões e por fim o príncipe. Mesmo Pocahontas, talvez a mais liberta princesa até agora, era limitada a seu ambiente natural, devendo Smith chegar para tirá-la daquele mundo. Merida não é assim, pelo contrário, as regras (ou os prendedores de cabelo) não a contêm e é ela quem traz notícias do mundo lá fora para a família, o que, por sinal, define/destina a personagem, colocando-a acima, inclusive, do próprio rei, mostrando que seu direito de nascença (a vida de princesa/rainha de um outro rei) é menor do que seu próprio destino, de seu espírito livre. Essa importância de grandeza espiritual fica bem marcada na fala de seu pai: após ela contar que alcançou a cachoeira no topo da montanha, ele responde “Dizem que somente os reis antigos eram valentes o bastante para beber do fogo [água das cachoeiras]”, ou seja, ela é comparada aos maiores. Aspecto que já diz muito da história e da protagonista, imbuindo-a de uma poderosa e conquistadora força e dando a personagem um aspecto guerreiro e irreprimível por si só, informando que nada que surja será maior que ela mesma (não à toa, sua origem nórdica contribui muito para fixação desse significado).

2. DECISÃO, CERTEZA E SEGURANÇA

A simbologia do arco e flecha demonstra segurança e certeza em suas decisões.

Enquanto a maioria das princesas são inseguras ou ficam rodeando seus filmes na descoberta de quem são e qual o lugar delas no mundo (puro reflexo de uma sociedade onde a mulher não é vista como segura de si, mas deve esperar até que, novamente, uma força externa – masculina ou fálica? – diga o que realmente ela é, quer e pra onde vai), algo que nem mesmo a “revolucionária” Fiona conseguiu escapar, Merida é desde o começo certa do que quer fazer, do que quer negar e do que quer alcançar – pilar em sua discussão com a mãe e pedra fundamental na plot do filme. Engraçado, por sinal, é como isso é demonstrado durante a animação. É comum que em contos de princesas, a personagem principal cante uma linda canção falando do que quer e das dificuldades que a impedem (muitas vezes, prenúncio para a chegada da força [masculina] que a tirará daquele estado, pois ela pode sofrer muito ao fazer isso sozinha, vide o caso Pequena Sereia), em The Brave a única canção interpretada indica as certezas de Merida pra si mesma, em como ela voará e tocará os céus com as próprias forças, quase uma sátira para a passividade das princesas regulares. Muito moderninha essa nórdica.

3. NÃO NECESSIDADE DE UM PRÍNCIPE OU ROMANCE QUE A “SALVE”

O filme não transformou nenhum deles em bom partido dando a certeza absoluta ao público de que não, não haveria romance no filme. A redenção de Merida só poderá ser alcançada por ela.

Esse tópico me faz lembrar de dois casos bem simples: Rose, personagem de Kate Winslet em Titanic, e Bela, de A Bela e a Fera. No primeiro, a “princesa da era de ouro” tinha tudo, mas era infeliz e incapaz de sair da posição que estava, no segundo, a “princesa campestre”, era feliz com o pai, mas sua pobreza trazia dificuldades, pois a impedia de cuidar do velho, assim, estava “estacionada” em sua posição social. Para Rose, Jack apareceu mostrando um mundo novo através de sua liberdade e, com isso, “salvando” a jovem de sua própria vida. Já Bela, ao entrar em contato com a Fera, possui o romance que desenvolve pelo monstro como libertador deste e, por consequência, dela própria, tendo em vista que o príncipe, uma vez saído da casca de besta, deu-a uma vida de riquezas que a “salvaram”. Duas maneiras clássicas e bem distintas (e eternamente repetidas) sobre o mesmo tema: a alienígena, poderosa e “selvagem” força masculina sendo a responsável pela salvação feminina, comumente usando o “amor” como instrumento de ligação entre os dois. Merida, revolucionariamente, é dona do próprio destino, como já dito antes, e dispensa qualquer romance “salvador”, encontrando ela mesma as resoluções para suas questões – tendo sido gerada por ela ou não e mesmo de outrem – fazendo com que sua própria pessoa mude a maneira de pensar de sua mãe, sem que ela mesma tenha de abandonar suas decisões e convicções. E quem precisa de um príncipe chechelento se sabe usar arco e flecha?

4. TROCA DA SIMBOLOGIA DA FADA/MADRINHA PELA DA BRUXA/MAGA/VELHA SÁBIA OU “A NOVA BELEZA”

E ela faz ursos de madeira. Nunca esqueça.

Outro ponto interessante em Valente é a forma como a beleza é utilizada. Princesas como Branca de Neve, Cinderela, Bela Adormecida e Bela são ideais de nobreza: bem vestidas, educadas, gentis, “garbosas”, charmosas etc. e outras, como Ariel, Jasmine e Pocahontas, carregam essas mesmas características, mas com certa sensualidade, às vezes reduzida por sua inocência e meninisse. Merida, apesar de ainda bonita, possui uma beleza diferente, revolta (tão bem elogiada em seus loucos e vermelhos cachos, mas também evidente em seu rosto arredondado), descuidada até – uma contraparte perfeita para sua mãe, a verdadeira figura da princesa clássica ali. A cena em que ela rasga o vestido enquanto empunha o arco, assinando com sangue na flecha sua independência, é impressionantemente emblemática nesse sentido. Ali é Merida “arrancando” a figura clássica das princesas que tentaram impor nela.

Nesse mesmo barco, a bruxa que a ajuda é a inversão das fadas madrinhas: sem beleza ou glamour, egoísta, esquisita, amalucada. Em uma história clássica, poderia ser a face da vilã, mas pelas graças de seu padroeiro e influenciador Miyazaki (a personagem é uma clara homenagem ao cineasta japonês), ela é a estranha guia da protagonista em sua jornada.

5. EVOLUÇÃO DO DILEMA PAIS vs FILHOS

Em termos metafóricos, ao confrontar a mãe, Merida está desafiando todas as princesas tradicionais e o que representam, ou seja, a figura idealizada (e equivocada) da mulher.

Esse tema não é realmente novo. O dilema PAI vs FILHO ou MÃE vs FILHA é recorrente na história do cinema, mesmo no de animação (o curta que abre Valente, La Luna, é um bom exemplo). No entanto, eu acredito que em Valente ele toma uma proporção maior. Primeiro, por tratar com maestria o lado feminino dessa relação e com veracidade não agressiva a qualquer idade; segundo, pela mudança e amadurecimento da personagem principal, além de sua mãe, não significar a destruição ou superação dos pontos de vista de ambas (costumeiramente, no lado masculino, um costuma “tomar” o lugar do outro, mesmo que amigavelmente), por último, pelas duas resolverem a questão entre si, corroborando para aquilo que havia discutido no tópico 4, não é preciso ter um príncipe ou outro homem qualquer pra dar jeito nas próprias querelas. Fora que, e aí talvez seja o estranhamento do grande público para esse filme, as duas mulheres do filme são figuras muito mais maduras que os homens – velhotes turrões que a tudo resolvem numa pancadaria digna de moleques num parquinho – e ainda sim envolventes e interessantes.

Não sou um grande leitor e pesquisador do movimento feminino, mas arrisco dizer que Valente da Pixar/Disney é o filme mais feminista já feito para um público livre e por isso tenha (artística e politicamente) caído nas boas graças da Academia, mas, por conta de toda uma história de machismo social incutido na mente de “meninos e meninas” desde 1953/1937 (e bem antes), fosse difícil criar empatia por uma menina independente e dona do próprio nariz que tudo que quer é ter a liberdade de dizer não, ao invés de dizer sim de alguma maneira.