A TRILOGIA VALENTE

Valente por Opção: Vitor Cafaggi

Valente por Opção: Vitor Cafaggi

Recentemente acabei de ler o último (talvez não realmente o último) volume da trilogia Valente, do autor mineiro Vitor Cafaggi. Revendo mental e fisicamente os outros volumes fui tomado pela catártica pergunta: o que foi tudo isso? Valente – para aqueles presos em cápsulas durante os últimos 10 anos – é um garoto (cão) que vive sua hormonal fase da adolescência se apaixonando a cada belo sorriso ou toque inesperado de mãos. Valente Para Sempre, Valente Para Todas e Valente Por Opção é o retrato em quadrinhos de qualquer cara em seu último ano de colégio e primeiro de faculdade. Mais que isso, é um retrato de suas decepções amorosas e da confusa cabeça dos meninos, às voltas com seu gostar e o que fazer, precisando ser “treinados” e “doutrinados” o tempo todo na magnífica arte dos relacionamentos – não raro por ícones do cinema que na vida real não são lá grandes exemplos -, mesmo que seus corações sejam puros e verdadeiros.

Essa sinceridade com que Cafaggi trata seu personagem – na riqueza simples de quem já viveu e aprendeu com a maioria das situações da narrativa – faz a identificação com Valente ser imediata e a transposição da vida do leitor para a do cãozinho adolescente (e vice-versa) é perfeita, completamente sincrônica com a nostalgia revelada em cada página amarelada dos livrinhos. Jogando um olhar mais acurado sob essa sinceridade, há aí uma chance única de conhecer a alma masculina em seu momento mais confuso, mais caótico – o de envolver-se com uma garota. A apreensão em entender os olhares e gestos, o medo do contato visual, o nervosismo durante a troca das primeiras palavras, as ações que deveriam significar uma coisa, mas acabam significando outra, a confusão nas escolhas do primeiro encontro, o “onde por as mãos” ou “afinal, o que fazer com elas”. Tudo isso revela um tipo de “desastramento” dos garotos com seus sentimentos, em como lidar com eles: se revelá-los ou não, como fazer isso, quando fazer isso e principalmente como lidar com erros de julgamento e decisões… é incrível como os homens sofrem com essas dúvidas, e Vitor consegue fazer dessa desastrosa (por que não dizer trágica até?) etapa uma charmosa e delicada comédia onde cada movimento de calda quer dizer mais do que parece.

Esse certamente é um dos grandes trunfos de Vitor: não temer desnudar seus sentimentos, falhas e dúvidas para Valente e, com isso, para seus leitores, transcendendo seu personagem para uma realidade muito mais ampla, bem mais global, revelando detalhes engraçados e desastrosos de caras apaixonados, suas opiniões absurdas e atitudes mais ainda. Talvez nisso esteja a real lição de Vitor e seu Valente: não ter medo, encarar os sentimentos, desnudar-se. Afinal, uma vida (ou uma carreira que inclui alguns prêmios HQ Mix e duas Graphic MSP, uma lançada e outra anunciada) não pode ser feita escondendo-se o tempo todo, né?

Confira a entrevista exclusiva na edição 9 da REVISTA ZINEXT!

CADA UM A SEU MODO de Júlio Belo

Sempre penso que as melhores obras podem ser definidas em poucas palavras. Apesar do título longo, “Cada um a seu modo“, de Júlio Belo, um dos integrantes do bem sucedido The Comics Café, pode ser definido em uma: ‘poesia’. É essa a sensação que o livro causa de suas primeiras páginas até as últimas. Ele possui a leveza de um livro de poesias, sem se preocupar se segue a jornada do herói ou não, sem ligar se está ajustado a alguma cartilha ou manual de “como fazer quadrinhos” e, por isso, acerta maravilhosamente em seu produto final.

Em formato grande, o livro possui três histórias: ‘Sofia’, ’50 por hora’ e ‘A frase riscada’, em cada uma delas os personagens principais são pessoas incrivelmente comuns em narrativas mais normais ainda. Este “despretensiosismo” é a grande sacada do álbum, pois a identificação com as situações e pessoas das histórias – magnificamente bem feitas em um traço limpo e belo, com seus detalhes harmônicos bem encaixados em um desenho que nunca cansa e que merece ser revisitado sempre – é imediata, tornando a obra completamente atemporal e com idade indefinida, servindo a todo e qualquer público.

Falando rapidamente sobre cada um dos “poemas”. Em ‘Sofia’, somos levados a compartilhar um dia da vida da garota do título, uma criança que espera pela chegada do pai. Aqui, o passar do tempo e o caminhar da história são completamente imersivos, onde a proximidade com a personagem é tão forte que a “câmera” mantém-se quase sempre à altura da garota e cada um de seus movimentos são seguidos, numa verdade rotineira tão segura que o desfecho, apesar do impacto “sonoro” que ele gera, chega a ser pouco importante. O caminhar das pequenas coisas, tendo nisso a protagonista como condutora desse detalhe, é realmente o mais relevante.

Melhor texto ilustrado do álbum, ’50 por hora’ é um conto agradável de final deveras impactante – ao menos foi pra mim – nele há mais sons – e até esse momento é interessante ver como o autor se usa desse detalhe em seus quadrinhos, a sinestesia das onomatopeias (ou a falta delas) é uma daqueles caracterísitcas relevantes que ajudam a levar a história pra frente e abrem precedentes interessantes nas possibilidades das abordagens mais tradicionais da 9ª Arte. Este não deveria ser muito comentado. Deve ser lido pra ser sentido.

‘A frase riscada’, conto que fecha o trabalho, talvez seja o que mais gere “ruídos” – seria isso possível num material tão curto? – Em resumo, conta a história de um escritor que volta a sua cidade natal e como relembrar o passado muda os rumos de seu futuro. De todos é o que mais segue a cartilha de “como uma história deve ser contada” (por mais que eu odeie o termo), mesmo assim, Júlio o faz com o mesmo espírito dos outros e isso sim é o grande diferencial desse conto e de todo o quadrinho.

Uma coisa mais deve ser lembrada sobre o álbum: a riqueza e precisão com que o cenário é feito. Muitos autores inserem o cenário em suas histórias e esse parece plástico, um detalhe irrelevante em meio a milhares de outros rabiscos que em nada acrescentam, mas Júlio Belo consegue, com a maestria dos grandes, dar integridade e força ao cenário, colocando-o como um coadjuvante agradável que dá um diferencial a cada história, seja na ida de Sofia do universo micro de suas coisas ao macro de seu bairro e de seu ambiente final, seja no macro do mundo social em que começa ’50 por hora’ até o micro de sua conclusão, chegando enfim a ‘aldeia do planeta’ em ‘A frase riscada’, onde um ambiente específico se torna qualquer lugar do mundo, o autor eleva o ambiente, enriquecendo em muito suas histórias.

‘Cada um a seu modo’ pra mim teve um significado único, pois foi a primeira vez que vi lugares comuns a mim, que pertencem às coisas que vivo (e arrisco dizer, amo), impressas com a delicadeza e carinho que merecem. Esse comentário me fez ser suspeito, pois acabei de elevar um grupo o qual adoro pertencer: o de fortalezenses. Mas acho que o quadrinho de Júlio Belo serviu realmente pra isso: pra que cada um de nós, muitas vezes ‘autodiminuídos’ pelas desigualdades e mazelas que vivemos, olharmos pra nós mesmos e nossa cidade, diminuirmos os passos e vermos que não há nada mais belo que as pessoas e o lugar que agregamos no significado da palavra ‘lar’.

SELO 80’s

VALENTE por Rute Aquino

Quando o Luís me pediu pra escrever no blog dele, eu fiquei pasma. Alguns podem ter pensado que isso aconteceria um dia porque somos namorados, mas eu não.
Aprendi a entender e respeitar o trabalho dele. Não leio tudo que ele escreve, confesso, mas sei como ele pensa sobre várias coisas e conviver com ele faz com que eu possa aprender/compreender coisas sobre esse mundo dos quadrinhos que não estão no blog.
Pra mim foi como se ele tivesse me pedido em casamento. Por mais que isso pareça exagero.
Veja, ele pediu pra eu trabalhar ao lado dele falando sobre coisas pertinentes a ele desde muito tempo. Eu não sou nerd, que eu saiba. Não li e nem leio incontáveis histórias em quadrinhos, não sei nome de autores, roteiristas, desenhistas. Aprendi muitas coisas através dele, perguntando, observando, participando.
E então ele me deu mais um espaço pra conviver ainda mais nesse universo.
Então pensei “O que diabos eu vou falar aqui?” e ele me deu uma resposta tão óbvia do que ele queria que eu escrevesse que eu aceitei. Então veio a outra dúvida: eu vou falar de qual obra? Não quis começar falando de Persépolis, nem quis falar de Sandman… ia parecer continuação do Quadrinhos emDebate do qual participei…
Então me lembrei de um quadrinho que eu li e adorei desde a primeira tira. Valente.
Pra quem não sabe: Vitor Cafaggi é o criador desse adorável cão que se apaixona por uma gata chamada Dama. Essa história chegou em minha vida através do Luís, que leu e pensou que eu ia gostar. Ele não estava enganado. Ele baixava as tirinhas semanais que saíam no blog do Cafaggi e eu ficava doida esperando por mais.
Eu não tenho internet em casa (acreditem!) e esperar por cada nova tira contando uma nova parte da história desse cachorro tão cativante era uma forma de lidar com minha ansiedade. Então ganhei do Luís a compilação das tiras autografadas pelo próprio Cafaggi (valeu, Amor!) e li o resto da história… Maravilhosa história! Tão simples, tão óbvia, tão a cara de muita gente…
Não adianta, não vou contar muito da história, vá lá na Gibiteca no Dia do QuadrinhoNacional e compre seu exemplar; você não vai se arrepender. Uma das coisas que me cativou foi que é o cachorro que fica “viajando” apaixonadão pela gata. Mostra que os meninos também são sonhadores, também viajam, também se iludem, assim como nós meninas. Adoro o fato de ele desmistificar essa conversa que só as mulheres sofrem, se desesperam, se apaixonam e se afundam e flutuam no amor.
Vocês homens podem até dizer “É claro que nos apaixonamos! Claro que sofremos!”, mas isso não é permitido ser conversado a não ser em mesa de bar, não é permitido ser comentado a não ser pra mostrar o quão cruel são as mulheres… na maioria dos casos.
Amor é isso mesmo, dói, arrasa, faz um céu e inferno em cada um, homem ou mulher. Aí vem o Cafaggi e mostra isso com bichos de nomes perfeitos para cada personagem. Menino eu sou sua fã!
Também gosto muito do cotidiano que ele mostra. É um saco ter aulas de educação física, ainda mais quando se é um desastre ambulante. E lá vai o Valente passar por isso…
As tiras da história de Valente são pedaços de histórias de todos nós, contadas de um modo engraçado, cativante, brilhante. E tudo isso numa simplicidade repleta de desenhos espetaculares.
Sou suspeita pra falar porque eu adoro cachorros, aprendi a gostar de gatos, não suporto zoológico porque bicho pra mim não é pra estar enjaulado.
Mas acredito que se ele contasse a mesma história com pessoas aí que iríamos nos identificar! Quem não sorri com cara-de-cachorro-feliz-quando-vê-o-dono quando vê a pessoa amada? E o Valente como tem rabo ainda o abana quando a vê! Putz! Sensacional!
Eu já li as tiras todas umas três vezes ou mais. Não vejo a hora de novidades nessa história, mas até lá repito a dose do que já vi e recomendo a quem não leu que leia. Acredito que vá fazer um bem danado aos olhos (pois os desenhos são belos) e ao coração (preciso dizer mesmo os motivos?).
Veja mais de Rute Aquino em: conscienciafeminina.wordpress.com 

REVIEWS FIQ 2011 – PARTE 2

Continuando a incrível missão de comentar minhas impressões sobre todos os quadrinhos que adquiri no FIQ, segue duas obras de uma galera muito gente boa do Rio de Janeiro. A partir dessa edição começarei a dar selos (uma maneira simples de se visualizar a resenha, além dos meus comentários). Funcionará assim:

SELO 90’s: belo de se ver, conteúdo descartável
SELO 80’s: divertido, marcante e com um visual agradável aos olhos, sem precisar ser profundo
SELO 70’s: grande texto, arte conceitual, mas visionária
SELO 60’s: ainda em seu embrião com muito a melhorar, mas com algum potencial

Os selos acima sempre estarão ao final do texto indicando como esse quadrinho foi interpretado. Algumas obras, no entanto, podem apresentar também os seguintes selos especiais:

SELOS ESPECIAIS
SELO MILLER: inteligente e bem narrado, mas de futuro duvidoso…
SELO MOORE: rico em informações com frases e ideias afiadas, mas pendendo à aparente loucura
SELO MILLAR: diversão e ação à toda prova, blockbuster na certa, mas com grande chance de ser somente pop
SELO EISNER: obras-primas. Indiscutível.

COMIC COW de Denis Mello

Inicialmente Denis Mello imaginou sua Comic Cow como forma de participar do evento Cow Parade, assim, ele fez uma vaquinha ornada por uma história em quadrinhos – onde a própria vaquinha havia ganhado superpoderes após um meteoro atingir seu pasto, matando suas amigas. Sendo bem sucedido nesse intento, Mello pegou a história DA vaca NA vaca e colocou NO papel, daí nascendo o impresso COMIC COW, onde a mesma história pode ser apreciada pelo passar das páginas.

Infelizmente, aí se encontra o grande erro. Por simplesmente ter “colocado” o trabalho para o Cow Parade e transformado em páginas, você sente um roteiro descartável, onde os personagens e as situações são tão apressadas que não há momento para se familiarizar ou mesmo simpatizar com a Vaquinha. Uma pena, pois Denis Mello possui um desenho cartum bem estilizado, com artes bacanas e uma composição atraente, fora o fato que há um incrível potencial cômico na situação (vide o caso de Lene Chaves durante o Manicomics) que não foi corretamente aproveitado. A Supervaca funcionava melhor quando era uma arte plástica, enfeitando sua musa numa exposição. Nas palavras de Yoda: “Pensar em adaptação, você deve”.

SELO 90’s

COLETÂNEA 23,5 de Daniel Bicho, Giba, Igor Chaves Jeanne Göpfert, Lucas Santoro, Luisa Pires, Marília Bruno e Renato da Matta

Coletâneas sempre são complicadas, principalmente quando surgem no ambiente independente, pois correm o risco de cada um fazer do seu jeito e a coisa toda parecer uma loucura só, sem identidade alguma e que causam uma grande estranheza pela “liberdade criativa”. 23,5 não sofre esse problema, com todas os autores tendo a liberdade necessária para produzir o que querem dentro de uma temática que é comum ao ambiente proposto ali. Com uma capa inspirada, um design profissional e um acabamento de primeira (em folha amarela, vejam só) a impressão que se tem é de uma HQ bancada por editora, com trabalho e tratamento especial. Impressionante logo nas primeiras páginas descobrir que não é nada disso.

Sem a necessidade de ter de fazer uma resenha pra cada história, acho que merecem destaque os trabalhos Psycholic (de Marilia Bruno), Tim Punk (de Giba) e Bull Black Nova (de Igor Chaves), os dois últimos por suas histórias diretas e concisas e uma arte competente e o primeiro por seus interessantes experimentalismos que ajudam a dar um tom ao mesmo tempo cômico e único pro quadrinho. Os outros trabalhos, por sua vez, são de uma qualidade puramente artística e devo confessar que um tanto incompreensivas ao primeiro olhar. Em meio a essas destaco Tirinhas (de Luísa Pontes) que mereciam um acabamento fora dos papeis em bloco: uma pintura em cores em uma galeria de arte caberia bem ao caso.

SELO 60’s

FIQ 2011 – REVIEWS E OUTROS DETALHES

Para quem esteve preso em uma redoma capsular em algum lugar de Plutão ou simplesmente não dá a mínima para coisas como quadrinhos e eventos ligados ao gênero, de 9 a 13 desse mês aconteceu a 7º Feira Internacional de Quadrinhos, o FIQ! O Fórum de Quadrinhos do Ceará, na forma deste que vos escreve e outros amigos e colegas, marcou presença lá. As novidades e comentários sobre tudo o que vimos e vivemos vocês poderão ler no blog do FQCE.

Como já é de costume, muitos quadrinhos que estavam por lá foram adquiridos pelo editor/redator deste blog. Assim, decidi abrir uma sessão especial que sairá aqui todas as semanas onde faço reviews de tudo que comprei por lá. A ordem é aleatória: conforme eu vou lendo eu vou postando. E para a estreia nada mais que especial do que a obra de artista que já esteve por aqui: Valente Para Sempre de Vitor Cafaggi.

Em 2010, Vitor Cafaggi foi convidado pelo jornal O Globo a ter um espaço no periódico com uma tira própria. O autor apresentou então Valente, as desventuras de um cachorro e sua paixão por uma gatinha em sua rotina de idas a aulas e amigos. Assim, o autor juntou em uma copilação especial as 70 primeiras tiras publicadas no jornal e lançou no FIQ em um livro especial com capa bacana e papel de primeira 
(e lombada quadrada) para os fãs que não tiveram a chance de acompanhar as tiras pel’O Globo.


Logo de cara percebemos que Cafaggi é um quadrinista mais que competente. Muito mesmo. Ele sabe se utilizar da linguagem dos quadrinhos de maneira clara e objetiva – desde a escolha da colocação do texto até a adaptação e caminhar dos balões pelos quadros, além de um timing emocionantemente perfeito -, encontrando saídas simples e básicas que ajudam a sua narrativa e dão ao seu trabalho um ar de obra acabada, redonda, completa. Tudo isso logicamente em desenhos lindos, inquestionavelmente lindos. Um dos melhores exemplos da união ideal de texto e imagem que formam a arte sequencial. Como tirista ele deixa a ousadia de lado e apresenta um quadrinho tecnicamente linear, sem ser piegas ou datado. Suas influências são tão óbvias que o fato de ele as dizer é meio irrelevante (a quem ainda não sabe: Watterson e Schulz). O melhor é que ele as utiliza como real prova de “aprendizagem”, não como “cópia”.

No entanto, técnica sem conteúdo é um poema parnasiano e Valente Para Sempre está longe de ser um mero “jarro vazio”. Pelo contrário. A tira é riquíssima e verdadeira, real prova do que há de melhor na vanguarda dos quadrinhos hoje em dia. Cafaggi acerta por fazer uma HQ para todas as idades, abordando o tema da paixão e do “procurar pela pessoa” de forma tão sincera e leve que é quase impossível não se identificar com as histórias do cãozinho do título. Afinal, essa é a palavra de ordem de toda a HQ: sinceridade. Os sentimentos que conduzem as narrativas curtas – algo que vai se aprimorando a cada página – da coletânea são tão verdadeiros que não cabem mentiras nas sarjetas e tudo é abordado com a linguagem de uma criança e a nostalgia de um adulto. Seu desenho é um condutor ideal desses sentimentos, das emoções em cada levantar de orelhas de Valente ou não balançar do rabo. Impossível não se emocionar em alguns momentos somente pelas imagens (vejam as páginas 60 e 78, se você não se sentir movido por aquilo…). Essa sinceridade é tão patente que Valente é simpático e íntimo como seu melhor amigo e confidente e suas histórias são tão agradáveis quanto reuniões das pessoas que você mais gosta numa tarde bonita. 
Características que vêm muito bem expressas desde a inspirada introdução feita por Bu Cafaggi, personagem e irmã de Vitor/Valente, até a interpretação do personagem por outros artistas nas páginas finais.


Não há exageros em dizer que foi o melhor trabalho em tiras editado no Brasil desde o fim de Calvin e Haroldo, personagens que, por sinal, acompanhavam o mesmo jornal que hoje lança a tira do cãozinho. Melhor sucessor impossível. Desconfio que Bill Watterson ficaria orgulhoso.



Aos que não tiveram a chance de adquirir a coletânea (bem como a revista DUO.TONE do mesmo autor) no FIQ 2011, acessem: punyparker.blogspot.com e descubram como pedir a suas.

REVIEW: BATMAN ANO UM: QUADRINHO + FILME


Dentre todas as coisas que acredito serem verdades no mundo dos quadrinhos, a genialidade de Frank Miller no início de sua carreira é uma delas. E incontestável. Inserido na minha visão e gosto pessoal do que é uma boa história, BATMAN ANO UM é o seu melhor trabalho, como história de super-herói, policial e um conto seguro, forte em suas simbologias e acessível a qualquer um, seja fã de quadrinhos ou não. Além disso, se levarmos em conta a época em que foi escrito, consegue um feito único, trazer realidade a um herói de fantasia spandex sem deturpar sua dignidade heroica e sem destruir seu espírito e honra que é o faz o morcego ser o mito que é. Em resumo, ele consegue ser real sem apelar para a destruição da figura do herói.

Recentemente, a DC Comics – e em sua onda, a Panini – nos convidou a revisitar a obra, em um encadernado e uma animação para DVD. Assim, decidi adquirir os dois para colocar na minha coleção de itens do Cavaleiro das Trevas.

O encadernado da Panini atrai pela capa dura, papel interno de qualidade e as páginas a mais do Mazzucchelli, mas o letreiramento ficou a desejar, principalmente nas narrações de Bruce Wayne, bem como a revisão, dando a impressão de se pegar um material bonito, mas que parece ter sido feito às pressas em suas últimas etapas do processo – em especial cito a 4ª capa da HQ, informando que há uma introdução de Frank Miller, quando quem faz a introdução é Dennis O’Neal e o texto de Miller – muito meia boca – aparece no final.

Isso, no entanto, não atrapalha a apreciação da obra. O texto de Miller está em sua melhor fase – ele usa elementos de filmes policiais e seu próprio toque pessoal concentrando a narrativa em Bruce Wayne se tornando Batman e em Gordon chegando a Gothan e trabalhando até o posto de comissário, limando arestas e removendo inutilidades, com um polimento excepcional dos desenhos e storytelling de Mazzucchelli, os quais ainda são prodigiosos e melhores que muita coisa atual e moderna. As páginas a mais do desenhista da série também são um carinho muito bem dado aos fãs e curiosos do processo criativo. As cores – mais “lavadas” – não desanimam, apesar de não terem o charme do primeiro impresso – que se bem não me engano foi feito em papel jornal – e estão bonitas e sombrias. Uma obra que com certeza é superior às suas falhas editoriais.

Quanto à adaptação da animação, essa sim é surpreendente. Não por ter “adaptado” algo (como foi o Batman Begins de Chris Nolan que se utilizou de muitos elementos de Ano Um e de sua temática, mas preferiu seguir seu próprio caminho), mas por – assim como Sin City – ter literalmente animado o que já estava feito. Desde o traço de Mazzucchelli, até as cenas e falas são repetidas em detalhes, dando-se a impressão de estar-se lendo um “video-comic” de alto nível. Poucas são as ressalvas quanto ao filme – de repente Bruce e Selina foram colocados no mesmo nível de combate – e as adaptações para um público maior, quando raramente ocorrem, não danificam ou desvirtuam a obra.

A animação em si também é de extrema qualidade. As cenas de luta estão bem coreografadas e a ação possui um “que” de Cowboy Bebop que se adequa perfeitamente ao filme, mesmo que por vezes pareça irreal demais. Afinal, sem pensar muito os realizadores fizeram toda animação como um filme noir. Mais sábio e simples, impossível. Destaque mais que especial ao comissário Gordon, um personagem tão forte, seguro e atraente que em vários momentos eclipsa a figura do morcego, e uma figura que Miller sempre soube trabalhar muito bem.

Há uma série de movimentos na internet pelo novo, o original. Isso com uma certa pressa e criticismo que, na verdade, tem levado as pessoas a fazerem obras razoáveis ou mesmo ruins, sempre preocupadas com arrecadação obtida de alguma forma por aquilo, de maneira que justifique seu tempo e paciência gastos, ao invés de objetivarem a boa história sendo contada, com personagens atraentes e uma trama minimamente inteligente – ou ao menos não pretensiosa. Ao meu ver, esse “erro” em saber lidar com a própria obra vem – também – de um mal estudo do passado, daquilo que foi feito e considerado bom, de qualidade, muitas vezes por pura irresponsabilidade do produtor – ou orgulho ou da já falada pretensão, enfim… – outras vezes por acessibilidade (que soa a desculpa esfarrapada, nesses tempos de rede mundial…). Assim, quando uma obra como BATMAN ANO UM é relançada e apresentada em uma nova mídia, merece uma observação mais apurada, mais detalhista para que se possa aprender com o que é considerado excepcional.



Para quem está interessado em assistir a obra e conversar sobre as diferenças entre as duas mídias, o GRUPO DE CINEMA 24 QUADROS, em uma parceria com o FÓRUM DE QUADRINHOS DO CEARÁ, realizará uma exibição GRATUITA do filme no dia 18.11, 18:30, na GIBITECA DE FORTALEZA (Av. da Universidade, 2572). Não deixe de ir!


RESENHA HERÓI Z

Certa vez, Alan Moore, em uma de suas poucas entrevistas, comentou que sob certos aspectos escrever “A Piada Mortal” foi um erro e que se ele pudesse voltar no tempo reescreveria essa história – possivelmente mudando inclusive o título dela – de uma forma em que ele pudesse explorar a inocência que algum dia Batman teve (TUM! SOC! POW!). Possivelmente a maioria dos fãs de quadrinhos modernos não concordariam com isso, mas um número cada vez maior de admiradores da nona arte começam a procurar obras onde a aventura está acima da violência, a justiça realmente prevalece e que juntar dois heróis tem uma simbologia mais de amizade que de tragicismo.
Absorvendo os conceitos dessa época, e tendo influências que vão da Era de Ouro da DC aos heróis Hanna-Barbera, os autores cearenses JJ Marreiro e Fernando Lima lançaram no último final de semana (9 e 10 de abril), no evento 3º +HQ em Sobral, o quadrinho Herói Z, o primeiro número de cinco de sua Série Âmbar através do selo Laboratório Espacial.com. A revista trás 4 histórias com personagens clássicos dos dois autores, Mulher Estupenda e Fantasma Escarlate, e novos, Paladino Veloz e Dragão do Mar. Todas as narrativas são completas e têm de 4 a 5 páginas.
Antes de mais nada, há um aspecto da Herói Z que salta aos olhos do começo ao fim: coerência – habilidade rara no mundo dos quadrinhos hoje em dia. Desde a abordagem clássica, já comentada nesse texto, passando pelos desenhos dos personagens e narrativas, até o trabalho de impressão, que tenta resgatar a nostalgia dos quadrinhos EBAL, JJ e Fernando apresentam uma obra que é apegada ao seu conceito e o mantém o tempo todo, sem enganar o leitor. Uma prova de sensatez que tem faltado à maioria dos autores independentes e que carece um pouco no leitor do mainstream. Assim, logo de início, os autores mostram seu trunfo, sem medo de que ali estejam entregando todo o ouro. Realmente não estão, e é preciso ler toda a revista para sentir que o espírito guardado no “cheiro” do impresso de longe é um ser incorpóreo que logo desaparecerá, mas é uma característica física e consistente da HQ como um todo.
Sendo assim, muitas escolhas felizes favorecem o gibi. Colocar a Mulher Estupenda para abrir as narrativas é uma decisão segura e esperta, tendo em vista que possivelmente é a personagem mais conhecida de Marreiro. O desing limpo e os desenhos caprichados do desenhista/roteirista são um diferencial mais que positivo e em alguns momentos dá pra ter a impressão que o visual de Johnny Quest permeia por aquelas linhas como uma referência amigável. A história, por sua vez, inicia e se desenvolve muito bem, com os personagens sendo apresentados e levados à aventura sem muitas delongas, no entanto, essa tática acaba funcionando como uma faca de dois gumes: o desenvolvimento apressado prejudicou o clímax e o momento do amadurecimento do personagem Hassim acaba sendo tão inferiorizado que perde parte de sua importância. O excesso de quadros por página também pode parecer mais um desagrado para o leitor regular, mas é visível que a pretensão de JJ é resgatar trabalhos que remetam aos primeiros quadrinhos de aventura que saiam em jornais na forma de tiras.
O Fantasma Escarlate de Fernando Lima, por sua vez, já caminha de maneira mais natural. Uma agradável página de explicação no início da história é uma jogada esperta e isso facilitou as coisas dentro do roteiro, onde o autor pode se preocupar mais com a ação e a nomeação de bugigangas tecnológicas, algo obrigatório em histórias de Ficção Científica. A arte de Fernando, por sua vez, tem o estilo dos comics da década de 80, com uma “pegada” pop bem característica. Sua dinâmica e escolha de enquadramentos também é de primeira. No entanto, assim como no caso da Mulher Estupenda, o Fantasma sofreu um pouco com a brevidade da história. Os leitores que já acompanhavam suas aventuras pelo site Armagem.com possivelmente sentiram que aquela foi a história ideal para a mídia impressa, mas imagino que o público que primeiro viu o personagem na Herói Z não se sentiu tão atraído assim, imaginando que ali há ação pela ação e nada mais. Talvez alguns quadros mostrando a interação entre os dois personagens principais não fizesse tanto mal assim à trama.
Até esse momento da HQ, o apressado leitor poderia se sentir um pouco tentado a não seguir adiante. Quem tomou essa decisão, temo dizer, infelizmente perdeu uma grande chance, mas quem arriscou continuar a leitura pôde verificar que realmente o melhor fica pro final.
Com designs que fariam Alex Toth se orgulhar, cenários ricos, cenas dinâmicas e cheias de ação e uma narrativa que mantém tudo no lugar, no momento e na velocidade certa, o Paladino Veloz protagoniza uma das melhores histórias da revista. E também é aqui que Marreiro mostra uma de suas grandes qualidades como quadrinista: a capacidade de apresentar um personagem novo de maneira rápida e segura, sem ter de passar milhares de quadros e páginas tendo de convencer o leitor de algo que já estava claro na primeira página e sem ter de diminuir ou suprimir a ação e de quebra fazer com que se sinta empatia pelos personagens dali – destaque especial aos alienígenas cabeçudos. A história é mais uma prova de que JJ é considerado um dos melhores autores de HQs do Brasil não à toa. Há uma segurança nas escolhas narrativas que torna tudo bem mais atraente. Alguns poucos ganchos também foram deixados pelo autor (não vou dizer, leiam e descubram) e se havia algum desejo de fazer o leitor procurar por mais aventuras daquele personagem, considero que foi alcançado com louvor!
O encerramento da edição, no entanto, não poderia ser melhor. O Dragão do Mar de Fernando Lima é o ponto alto da HQ. Os quadros de Fernando são todos sabiamente bem colocados, com os ângulos certos e diferenças entre preto e branco tão bem estabelecidas que a palavra “autoral” tem de ser separada do significado de “amador”. Apesar do desing do personagem não ser um dos melhores – ok, pelo menos é melhor que o de muitos “reis” marinhos por aí – a escolha de seus “equipamentos” – uma característica marcante nas narrativas de Fernando – foi ideal. fora isso a história segue tão bem que a ausência de um vilão mais “pomposo” nem é sentida e o desafio é elevado pelas consequências da derrota, dando ao enredo uma força maior e fazendo clímax emocionante. No entanto, a escolha da temática, ao meu ver, é o grande diferencial, tendo em vista que aqui Lima trabalha a “moral” no final de sua história, apresentando uma consciência ecológica de fácil compreensão para um tipo de público que pra mim deveria ser alvo em algum momento na carreira de qualquer quadrinista: as crianças. Assim como J, ele também deixa vários discretos ganchos o que não prejudica seu final e ainda dá aquele desejo que a segunda edição chegue logo para que mais aventuras tragam mais do personagem.
Fim de resenha, há uma palavra final que deveria ser dita. Grandes autores imortalizaram grandes personagens em vários momentos da história. Muitas vezes elevando-os ao ponto dos deuses, outras vezes tornando-os tão humanos e críveis que as habilidades que os tornam especiais não passa de um detalhe. Assim, de maneira explícita ou não todos começaram a exigir tanto dos que produziam histórias de supers (de que fossem mais reais, mais cabeça, mais políticas, mais opiniosas, mais mais mais) que eles mesmos esqueceram a função inicial para o qual foram criados: divertir de maneira descompromissada ou mesmo ingênua. Não condeno a maneira de pensar moderna, eu mesmo sou um dos que fazem todas as exigências, mas é preciso lembrar que esses heróis estão vivos hoje porque permearam as mentes e sonhos de um grupo específico de público que, infelizmente, parece ter sido esquecido pelo mainstream: as crianças. E os infantes gostam de se divertir. E, sem sombra de dúvida, Herói Z consegue isso, possivelmente porque seus autores se divertiram muito fazendo-a.