NOVIDADES NA CASA

Depois de um período de testes e muito “fazer, refazer, organizar e corrigir”, a semana que vai do dia 17 a 23 de março será uma grande semana para o Cultura de Quadrinhos. Primeiro porque estrearemos uma série nova, anunciada desde nosso início, Monga – personagem de Cristiano Lopes que foi originalmente lançado no premiado fanzine Manicomics e que agora ganha cores pelo grande profissional Dijjo Lima, colorista de vários trabalhos internacionais e hoje contratado do Ed Benes Estúdio -, segundo porque parcerias há muito trabalhadas serão consolidadas.

Monga, por Cristiano Lopes e Dijjo Lima

Monga, por Cristiano Lopes e Dijjo Lima

Importante lembrar que Monga aparece em um bom momento, já que NovaHope terminou seu primeiro capítulo e se prepara para entrar no segundo a partir de 3 de abril, permitindo que os leitores comecem a apreciar o bom bárbaro – que sempre terá histórias curtas e completas e publicações quinzenais – enquanto NovaHope não retorna. Assim, continuamos com Demonaldo e Somos bichos, nossas tiras regulares e Monga durante toda a semana. Além disso, até o final do ano estrearemos séries novas. Conheçam o que vocês ainda verão esse ano em Cultura de Quadrinhos:

1. Lola – de Nathália Garcia e Luís Carlos Sousa

Criada por Nathália Garcia e com roteiros de Luís Carlos Sousa, Lola é uma menina às voltas com um dos mais importantes e confusos momentos da adolescência: a escolha da carreira. Começando com sua prova no Enem e escolha do curso superior – equivocado ou não? – indo até a descoberta dos romances mais significativos e daquilo que realmente ela quer fazer da vida, acompanharemos Lola em alguns momentos engraçados e outros tantos emocionantes, descobrindo na jornada dela onde está a nossa própria, sempre com a fineza e qualidade do traço de Nathália Garcia. As tiras serão semanais e já estão sendo produzidas, com data de lançamento ainda este ano.

Lola, por Nathália Garcia e Luís Carlos Sousa

Lola, por Nathália Garcia e Luís Carlos Sousa

2. Amigos, amigos… – de Luís Carlos Sousa e Ronaldo Mendes

Beto e Carlos são dois amigos do tempo de faculdade que há muito não se falavam. Depois de uma separação difícil de sua esposa, Beto procura pela ajuda do antigo colega e o que deveria ser alguns dias de abrigo acaba se tornando a renovação de uma verdadeira amizade e o começo de uma rotina regada a desastres amorosos, tentativas frustradas de emprego, desgraças culinárias e noites de ressaca. A tira já existe há pelo menos 2 anos, mas só agora toma forma com a adição do fenomenal Ronaldo Mendes nos desenhos. Assim como Lola, será uma tira semanal e dessa vez com previsão de lançamento em junho.

Estudos de Ronaldo Mendes para Carlos e Beto.

Estudos de Ronaldo Mendes para Carlos e Beto.

Por enquanto essas são as novidades que irão aparecer no site, mas acompanhe também nossos artistas, pois uma série de trabalhos deles logo estará despontando na internet e em livrarias, como o aguardado álbum Quem Matou João Ninguém do nosso autor e editor Zé Wellignton.

Fiquem de olho para mais novidades logo logo.

A TRILOGIA VALENTE

Valente por Opção: Vitor Cafaggi

Valente por Opção: Vitor Cafaggi

Recentemente acabei de ler o último (talvez não realmente o último) volume da trilogia Valente, do autor mineiro Vitor Cafaggi. Revendo mental e fisicamente os outros volumes fui tomado pela catártica pergunta: o que foi tudo isso? Valente – para aqueles presos em cápsulas durante os últimos 10 anos – é um garoto (cão) que vive sua hormonal fase da adolescência se apaixonando a cada belo sorriso ou toque inesperado de mãos. Valente Para Sempre, Valente Para Todas e Valente Por Opção é o retrato em quadrinhos de qualquer cara em seu último ano de colégio e primeiro de faculdade. Mais que isso, é um retrato de suas decepções amorosas e da confusa cabeça dos meninos, às voltas com seu gostar e o que fazer, precisando ser “treinados” e “doutrinados” o tempo todo na magnífica arte dos relacionamentos – não raro por ícones do cinema que na vida real não são lá grandes exemplos -, mesmo que seus corações sejam puros e verdadeiros.

Essa sinceridade com que Cafaggi trata seu personagem – na riqueza simples de quem já viveu e aprendeu com a maioria das situações da narrativa – faz a identificação com Valente ser imediata e a transposição da vida do leitor para a do cãozinho adolescente (e vice-versa) é perfeita, completamente sincrônica com a nostalgia revelada em cada página amarelada dos livrinhos. Jogando um olhar mais acurado sob essa sinceridade, há aí uma chance única de conhecer a alma masculina em seu momento mais confuso, mais caótico – o de envolver-se com uma garota. A apreensão em entender os olhares e gestos, o medo do contato visual, o nervosismo durante a troca das primeiras palavras, as ações que deveriam significar uma coisa, mas acabam significando outra, a confusão nas escolhas do primeiro encontro, o “onde por as mãos” ou “afinal, o que fazer com elas”. Tudo isso revela um tipo de “desastramento” dos garotos com seus sentimentos, em como lidar com eles: se revelá-los ou não, como fazer isso, quando fazer isso e principalmente como lidar com erros de julgamento e decisões… é incrível como os homens sofrem com essas dúvidas, e Vitor consegue fazer dessa desastrosa (por que não dizer trágica até?) etapa uma charmosa e delicada comédia onde cada movimento de calda quer dizer mais do que parece.

Esse certamente é um dos grandes trunfos de Vitor: não temer desnudar seus sentimentos, falhas e dúvidas para Valente e, com isso, para seus leitores, transcendendo seu personagem para uma realidade muito mais ampla, bem mais global, revelando detalhes engraçados e desastrosos de caras apaixonados, suas opiniões absurdas e atitudes mais ainda. Talvez nisso esteja a real lição de Vitor e seu Valente: não ter medo, encarar os sentimentos, desnudar-se. Afinal, uma vida (ou uma carreira que inclui alguns prêmios HQ Mix e duas Graphic MSP, uma lançada e outra anunciada) não pode ser feita escondendo-se o tempo todo, né?

Confira a entrevista exclusiva na edição 9 da REVISTA ZINEXT!

DIA DO QUADRINHO NACIONAL VEM AÍ! O QUE FAZER PRA APROVEITAR AO MÁXIMO?

O Fórum de Quadrinhos do Ceará já anunciou o seu principal (e mais esperado) evento do ano: O DIA DO QUADRINHO NACIONAL. Comemorado desde 2010, o evento é uma forma de conhecer o que de melhor está sendo produzido no estado, além, logicamente, de dar espaço para artistas, leitores e entusiastas conversarem, trocarem experiências e dividirem um ano inteiro de aprendizado. O Cultura de Quadrinhos decidiu lembrar porque o DQN-CE é tão legal e dar algumas dicas de como aproveitar melhor o evento.

1. Apareça de alguma forma

Se você é autor e gostaria que outros vissem seu trabalho, comece a pensar em maneiras de viabilizá-lo. Se você publica seu trabalho somente pela internet, talvez seja momento de pensar em um impresso. Apesar dos fanzines feitos em gráfica rápida serem sempre uma óbvia pedida, não deixe de pensar em algo menor, mais barato e criativo que tenha a chance de alcançar o maior número de pessoas possíveis, como um panfleto, marcador de livros, botton com seu site, o que seja. Lembre que o importante é que as pessoas tenham um registro de onde encontrar seu trabalho e não confie em risquinhos em papel ou coisas faladas. Tenha um cartão de visita bonito, atrativo e com o máximo de informações possíveis. Lembre de inscrever suas obras na Banca do Brasil pra você poder conversar com a galera, enquanto a Banca vende as paradas pra você 🙂

2. Faça sua programação

Apesar do #DQN na Gibiteca ser bem direcionado e com atividades que quase nunca entram em conflito ou choques de horários, conhecer a programação e estar preparado para ela é uma grande vantagem, principalmente se você espera ver um artista específico e conversar com ele além das palestras ou mesas redondas que ele vá participar. Outra coisa importante sobre conhecer a programação é saber que atividades devem ser curtidas com filhos, amigos ou namorad@s, o que nos leva ao próximo item…

Programação DQN 2014

Programação DQN 2014

3. Não vá sozinho

Como muitos eventos, o #DQN é um dia para se curtir em grupo: sejam eles aficionados por HQs ou entusiasmados que querem fazer algo realmente interessante e divertido no sábado. Apesar de seu direcionamento sério e de caráter formador, o #DQN é bastante lúdico, com seus organizadores/participantes bem alegres em seus papos, propostas e trabalhos, isso torna o evento meio “ecumênico” (hehehe), ou melhor, aberto a qualquer pessoa de qualquer idade, o que está relacionado a…

4. Um evento para toda a família

Diferentes idades e pessoas estão presentes no #DQN e isso é bacana porque podemos ter mães e pais levando seus filh@s ou filh@s levando suas mães e pais e avós e avôs. A coisa sempre fica interessante porque os mais jovens podem entrar em contato com a vanguarda dos quadrinhos cearenses e os adultos conhecerem uma parte muitas vezes marginalizada de arte e que é parte importante de nossa história. Enfim, fala de fã, mas se deixe levar por ela, e sim, leve sua família. Eles vão adorar.

5. Curta as novidades, aprenda com quem já faz

Acima de tudo o #DQN é um evento onde compartilha-se experiências, de sucessos a fracassos. Então é igualmente importante estar pronto para apresentar algo e ouvir críticas (nem sempre esperadas) de quem já faz. Pensando nisso, o Fórum de Quadrinhos do Ceará e o Estúdio Daniel Brandão estão organizando uma sessão especial de análise de roteiros e portfolios de desenhos, o que, para novatos, é muito importante, por isso vale à pena organizar as notas e ir até lá mostrar o trabalho e ouvir alguns direcionamentos. A análise de desenhos fica a cargo do veterano Daniel Brandão (Liz, MSP 50) e de roteiros por Luís Carlos Sousa (Comando 5 Aventura, Capitão Rapadura) e Zé Wellington (Imaginários em Quadrinhos). É o momento bem único e particularmente importante porque estamos acostumados com os profissionais de fora do estado e quase nunca lembramos da qualidade e experiência de artistas mais próximos.

Talvez o mais importante estúdio de HQs da cidade e sua boa participação no DQN.

Talvez o mais importante estúdio de HQs da cidade e sua boa participação no DQN.

6. Produções originais

Esse #DQN é especial porque tem a Banca do Brasil, um espaço criado para venda de gibis de artistas cearenses. Basta cadastrar seu trabalho no site do FQCE e mandar bala. Esse ano a Banca inova trazendo uma mesinha de troca (onde vai rolar de tudo: quadrinhos, livros, revistas, filme, magazines etc.). Fora isso, o #DQN não terá só quadrinhos. Tanto a animação As Desventuras de Davi, de Valdeci Carvalho, como o elogiado BRANDÃO de Ronaldo Barreto serão exibidos e isso é um momento histórico único para as HQs cearenses, afinal são produções locais sobre quadrinhos e completamente originais. Impressionante, não? E tudo pela módica quantia de…

7. Gratuito

Exceto pelos itens da Banca, todas as atividades, painéis, acessos… enfim, tudo, é completamente gratuito e aberto ao público. Então, não há desculpas, vá para o #DQN 2014 na Gibiteca de Fortaleza (av. da Universidade, 2572, Benfica) dia 25, das 8h às 18h. Temos certeza que vocês adorarão.

ENTREVISTA COM PAULO CORRÊA, CRIADOR DO QUADRINHO MIRAGE WATER CHAOS

Logo MWC

Criar um projeto e apresentá-lo ao Financiamento Coletivo tem sido uma alternativa cada vez mais comum (e viável) para os produtores de quadrinhos independentes. Nessa onda, Paulo Corrêa, de Belo Horizonte, juntou-se aos amigos Welberson Lopes e Eduardo Pansica (e logo depois a outros grandes artistas: Geraldo Borges, José Luís, Alzir Alves e Luís Carlos Sousa) para juntos darem corpo a Mirage Water Chaos, obra em quadrinhos sobre um mundo distópico onde água vale mais que ouro, e que procura seu financiamento através do Catarse.

Paulo cedeu um pouco de seu tempo para levar um papo com o Cultura de Quadrinhos. Confiram!

CQ. Fale-nos sobre a história de MIRAGE WATER CHAOS.

PC. Mirage Water Chaos é uma ficção pós-apocalíptica que descreve uma sociedade distópica conhecida como a Era Water Chaos. Essa era surge após um conflito devastador conhecido como a “grande Mirage”, dando lugar a uma era de selvageria e escassez de recursos. Nesse universo, a água é a nova moeda de troca: aqueles que a possuírem, ditarão as regras e serão os senhores desse mundo caótico.

CQ. De onde surgiu a ideia de MIRAGE WATER CHAOS?

Eu concebi a ideia original para o que viria a ser a Mirage no longínquo ano de 1996. Em 2001, mostrei alguns rascunhos de textos e desenhos para um grupo de colegas que fazia o curso de roteiro comigo, no extinto Emcomum Estúdio Livre (com “m” mesmo).

Welberson Lopes (um dos estudantes que viria a se tornar meu grande amigo e parceiro) logo se interessou pelo projeto e começou a me ajudar na concepção dos textos, estruturação da trama e criação dos concept arts dos personagens.

Dessa forma, juntos, passamos os 12 anos seguintes nos aperfeiçoando e tentando viabilizar o projeto através de leis de incentivo e editoras, mas não obtivemos sucesso.

CQ. Por que contar essa história agora e como ela se comunica com a História da humanidade? Além disso, qual a abordagem ecológica presente na obra?

PC. Por que agora? Bom, passei os últimos 17 anos tentando fazer essa história chegar às mãos dos leitores. A cada dia que passa, ficamos mais próximos do futuro descrito através do Universo Water Chaos. Isso torna nossa publicação cada vez mais urgente!
A história e o pós-apocalíptico estão ligados desde sempre! Meu primeiro contato com o gênero foi no início dos anos 1990, quando assisti os filmes da série MAD MAX pela primeira vez e logo me apaixonei pelo universo punk de wasteland (terra devastada). Num rápido passeio pela sinopse de Mad Max 2: The Road Warrior, a referência e homenagem que fiz ficam explícitas:

“A disputa pelo petróleo acabou gerando uma guerra entre as potências mundiais de proporções catastróficas. As cidades entraram em colapso. O planeta se torna uma terra deserta e sem lei. Os remanescentes, desordeiros motorizados viajam sem controle em uma terra árida, buscando o mais escasso bem, a gasolina. Quem a possui tem o controle dessa terra devastada…”

Mas, dos anos de 1970 – década das duas crises do petróleo, inspiração para a franquia – pra cá, muita coisa mudou! Embora ainda sejamos muito dependentes dos combustíveis fósseis, já existem muitos combustíveis alternativos, como o etanol, capazes de fazer frente ao ouro negro. Agora, a história recente nos dá outros foreshadowing (antecipação) do que virá a ser a Terceira Guerra Mundial. Em nossa opinião, o manejo do ouro azul será sua principal causa. Por isso, nossa trama se desenvolve a partir da busca incessante por uma solução para a escassez de água. Em torno desta história giram várias subtramas que exploram a natureza humana e as diferentes interpretações de cada personagem diante de conflitos ideológicos.

A responsabilidade ecológica é um tema em destaque na obra, que questiona o posicionamento das civilizações atuais e como deveriam repensar a política de gestão de seus recursos hídricos, objetivando assim, minimizar os impactos da sociedade contemporânea, cada vez mais ávida por recursos naturais.

CQ. Como se deu a escolha e administração da equipe? Fale-nos um pouco sobre cada um dos envolvidos.

No final de 2012, eu percebi que se não desse o “pontapé” inicial, investindo meu próprio dinheiro no projeto, a Mirage Water Chaos se resumiria a apenas uma boa ideia, nada mais. Foi então que saí à procura de artistas capazes de trabalhar em alto padrão (nosso objetivo). Para minha surpresa, eis que surge Eduardo Pansica na parada. Sensibilizado com nossa inciativa, ele aceitou ilustrar a publicação, mesmo por um valor abaixo do que o mercado paga a talentos como ele (e aos outros membros da equipe).

Mas havia um porém: o prazo! Com um título mensal da DC em mãos, ficava difícil ilustrar tudo o que precisávamos. Aí resolvemos procurar o desenhista Geraldo Borges para ajudá-lo, que acabou enfrentando o mesmo problema. A salvação veio com a entrada do gigante José Luís, que embora seja tão requisitado pelo mercado internacional quanto os outros dois titãs, nos cedeu uma janela em seu precioso tempo para terminar de ilustrar nosso portfólio. Ainda contamos com Alzir Alves, um verdadeiro mago com uma Cintiq nas mãos (mesa digitalizadora), e Luís Carlos Sousa, nosso balonista. O responsável por dar voz ao magnífico trabalho de todos.

CQ. Apesar do crowdfunding ser uma realidade contumaz atualmente, a possibilidade de não arrecadação ainda é uma grande dúvida nos projetos que se utilizam desse serviço, e ponto de desistência de muitos artistas. Sendo assim, por que vocês escolheram essa forma de financiamento?

PC. O financiamento coletivo representa a evolução do sistema de produção artística no país. Há pouco mais de 20 anos, com o surgimento das Leis de Incentivo à Cultura, a cena independente passou a se valer desse mecanismo e publicar muita coisa bacana assim. Mas havia um grande problema: a captação de recursos! Mesmo com o projeto aprovado pelo MinC (ou outras instâncias), o proponente era “obrigado” a buscar empresas que acreditassem em seu trabalho para que ele fosse financiado. Porém, muitas empresas estavam de olho apenas no retorno comercial que seu apoio geraria. Por isso, muitos projetos maravilhosos acabaram engavetados por falta de patrocínio (inclusive o nosso).

Com a chegada do crowdfunding ao Brasil, a cena independente encontrou uma válvula de escape, que se materializa através de sites como o Catarse (melhor nome, impossível) e outros do gênero. Para quem não conhece o sistema de financiamento coletivo, o conceito é muito simples: você compra antes de ficar pronto, com esse dinheiro nós produzimos, e você recebe em casa exatamente o que comprou. Caso o projeto não alcance a meta estipulada, todos que contribuíram recebem o dinheiro de volta. Simplesmente revolucionário!

CQ. Outra decisão da equipe foi incluir o quadrinho em plataformas digitais e torná-lo bilíngue. Muitos dos projetos de quadrinhos no Brasil não apresentam essa proposta, por que vocês acreditam que MWC se adequa ao perfil bilíngue?

PC. Os digitais são a evolução natural dos livros e HQs. Em um futuro próximo, sairá impresso só o que for realmente muito bom. Hoje, através da comiXology e outras lojas virtuais, grandes editoras como a Marvel e a DC Comics publicam suas HQs mundialmente, dispensando outros tipos de intermediadores, como distribuidoras e revendedores locais. Eu não tenho dados sobre isso, mas acredito que nem tudo que sai digital tem sua versão impressa (achismo meu). Mas uma coisa é certa, nem tudo que sai nos Estados Unidos chega a Terra Brasilis. Contudo, o digital rompe essa barreira!

Com o objetivo de atingir o público internacional e nos valendo do caráter cosmopolita das publicações digitais, foi que resolvemos criar um app bilíngue. Não há fronteiras para o digital, logo, nada mais natural do que utilizarmos a língua franca não oficial em nossa HQ. Queremos que o maior número de leitores tenha acesso à nossa revista. Para isso, precisamos quebrar a barreira linguística imposta pela língua portuguesa.

Caos!

Contribua com o projeto AQUI.

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CAPITÃO RAPADURA 40 ANOS – OU COMO AS COISAS PODEM MUDAR A GENTE.

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Eu pensei muito antes de escrever esse texto. Mesmo agora, quando as letras (em sua mordaz brevidade) surgem na tela, eu ainda tenho dúvidas se ele deveria ser escrito. Eu me privei de muitos comentários sobre a obra Capitão Rapadura 40 anos, a qual, com muito zelo e às vezes temperança e um pouco de desistência, dediquei quase dois anos da minha vida (e argumentação) pra ver acontecer, porque sempre acreditei que não fosse minha (na verdade, ainda acho isso), afinal, o personagem foi criado pelo Mino e minha história é uma das mais curtas, somente 4 páginas, e salta mais aos olhos o trabalho do impressionante Cristiano Lopes que o meu texto. No entanto, olhando agora o trabalho terminado, a edição concluída, a beleza de como está, é impossível eu não me furtar a algumas palavras.

Antes de tudo é preciso que eu agradeça a todos os autores que participaram, e eles não são poucos. São 25 artistas cearenses, todos com alguns anos de experiência na área e que poderiam, educadamente ou não, negar terem participado do projeto. Simplesmente porque tomaria seu tempo, muitas vezes tão curto, e porque do primeiro momento até um pouco antes dos três últimos meses do projeto, não havia perspectiva nenhuma de que o álbum seria editado, por isso, recebi muitos “nãos” antes de receber os “sims”.

Por um instante cheguei a não acreditar – mesmo com toda a empolgação de vários autores que me pediram guias de personagem, material de pesquisa, dicas e opiniões – até receber os primeiros layouts. Mesmo naquele momento eu duvidava um pouco,  com aquela sensação de: “será que tem mais além daqui?”. Teve: páginas. Pessoas que fizeram o trabalho em aquarela, mantiveram o preto em branco, usaram técnicas de computador, retículas, montaram equipes… Foi tanta coisa e tudo tão lindo que meu desejo em ver aquilo pronto logo se exasperou. Revi contatos, procurei pessoas, fiz ligações, analisei editais. Apesar do belo trabalho em mãos, ainda havia dúvidas e dúvidas costumam ser respondidas com negativas.

Nesse ínterim, recebi o trabalho de outros autores e, pela primeira vez, vivi o teste de negar artes ou mandar voltar trabalhos. É um momento bem delicado do editor fazer isso, mas é preciso. Quem cuida do projeto sabe o rumo que ele está tomando, por isso é preciso evitar “ruídos” ou trabalhos que não se adequam ao escopo final pretendido. Alguns receberam com profissionalismo, outros nem tanto, mas o pior é quando a informação passa por terceiros e a correção chega como uma negativa e bons trabalhos são deixados de lado porque uma comunicação clara não foi mantida. Isso é uma grande pena mesmo.

Enfim, entrando 2013 – o ano em que a edição deveria ser lançada – novo fôlego foi erguido, influenciado pela boa recepção do público à apresentação da obra no dia do quadrinho nacional, mas depois veio fevereiro e as coisas parecem ter sido deixadas de lado e o desejo amornou de novo. Projetos pessoais tomaram a cena e o Capitão Rapadura sofreu nova derrota, compreensível em certos pontos, mas não menos frustrante.

A partir desse ponto eu estava desesperançado. Os artistas, não quero nem pensar. Tenho certeza que pra eles a coisa toda soava como um deja vu: mais um projeto que não dava certo, mais tempo perdido, mais uma aposta vencida. Comecei a sentir pena de mim mesmo por ter acreditado tanto e, pessoalmente, sentia minha credibilidade abalada. Minha esposa me olhava e dizia: “vai dar certo. Tenha fé” e tudo o que eu pensava era “a fé me trouxe aqui, nesse deserto. E aí? De que adiantou?”, mas guardei o pensamento comigo, na bobagem machista de guardar os problemas pra si e não dividir.

Então, da fonte mais inesperada, da pessoa que eu menos imaginava, veio um convite (ou devo dizer um ultimato?). Ronaldo Barreto estava envolvido com outras coisas, preocupado com tantas coisas que quando ele me ligou afirmando que tinha marcado uma reunião pra mim no Armazém da Cultura eu não acreditei. A lição de humildade dele foi maior ainda porque eu sabia que Ronaldo tinha projetos próprios e eu sei sua qualidade como escritor pra pegar uma oportunidade dessas e fazer um bom trabalho e ganhar uma grana legal pra si mesmo, sem se preocupar com qualquer um. Mas não foi o que ele fez. Ele preferiu lembrar de todos que se empenharam pra fazer essa edição especial e ao invés de pegar a oportunidade pra si, decidiu agarrá-la pra outros. Sem pedir nada, sem exigir nada, sem querer nada. Não há palavras pra agradecer isso. Não há atitudes que se façam pelo outro que paguem isso, porque é um gesto sem preço. O que pude fazer foi convidá-lo a participar com uma introdução e linha do tempo e, novamente, ele mostrou extrema felicidade e humildade ao aceitar o convite como se ele fosse bem menor e mais simples que aquilo tudo. Acho que ele nem desconfia, mas ali ele foi meu herói.

O Armazém da Cultura nos recebeu, viu o material e acreditou em seu potencial. Empregaram todos seus recursos e talentos pra injetar uma qualidade até então impensada por mim e apresentar em pouco tempo uma obra que seria um marco dos quadrinhos cearenses. Foi momento então de mostrar o resultado disso tudo ao Mino, criador do personagem. Um medo inicial, uma dúvida, uma incerteza… no final, lágrimas nos olhos do pai do Rapadura me emocionaram, mas também me aliviaram. Tínhamos acertado. O trabalho de todos não foi em vão. Sorria pr’aquilo tudo com uma coragem vitoriosa, uma alegria contagiante. Mas ainda não era o momento de comemorar, ainda havia o grande teste de público. Sempre o mais assustador.

A obra viajou então para o Festival Internacional de Quadrinhos – FIQ – em Belo Horizonte, mas não recebeu o tratamento esperado pelo público, apesar de agraciada pelos autores presentes. Voltando a terras cearenses, foi lançada na Universidade de Fortaleza, num auditório com pouquíssimas pessoas, a maioria amigos e familiares. Meus medos voltaram, minhas incertezas aumentaram e o Mino somente dizia: “é só o começo”, mas meu coração desacelerava.

Aí veio o dia 30 de novembro de 2013. Auditório da Livraria Cultura em Fortaleza. Casa cheia. Gente sentando no chão. Idosos, jovens, crianças. Eu nunca imaginei em anos que poderia ver algo assim. Dividi o espaço do lançamento com Liz, de Liz e Daniel Brandão, e Brincadeiras de Sol e Mar, do escritor Flávio Paiva. No palanque, esses artistas, Mino e eu. Nervoso como nunca estive antes. Foi tudo mágico. Mino ainda leu uma carta feita pelo Capitão Rapadura. Com louvor, escondi uma lágrima que queria escorrer pelo meu olho. E por mais estranho que fosse, na minha cabeça só tinha uma coisa: “as crianças vão adorar isso aqui”. Coisa de professor, eu acho.

Mesa de autógrafos. Revi amigos, familiares, conheci pessoas novas. Todos estavam felizes. Eu estava cansado. Falando de maneira bem pessoal, fiquei contente ao ver meus avós, que saíram de suas longínquas casas para me ver, me prestigiar. Foi um presente isso. Também revi meu pai. Há um tempo que não nos falamos tanto, mas eu sempre quis que ele visse o que eu fazia. Aquém de qualquer diferença que existe entre nós, ele estava lá e isso significou bastante pra mim. Ele foi o único que recebeu um autógrafo não nas folhas iniciais, mas na minha história. A sempre contagiante alegria de minha mãe encheu o espaço que nos separava. Não dava pra ficar triste com aquilo. Mas, no final das contas, o que mais me comoveu foi o toque no meu braço de minha esposa. Ela  fez um sinal com os olhos, falou ao meu ouvido. Era tudo o que eu precisava. Quando se escolhe uma nova vida, teme-se o que pode vir do outro, as negativas, as exigências, os sacrifícios, os extremos. Ela me mostrou que uma vida se faz juntos e que temer sozinho paralisa, mas temer com outro nos move. Eu sei que os passos que dei não seriam tão seguros se não fossem as certezas dela de que iríamos conseguir. Iríamos, porque uma vida não se faz sozinho, seja em casa, no trabalho ou com os amigos. Por isso que agradeço os elogios dados a mim ao fazer essa edição, mas eles não são somente meus, mas de todos, inclusive daqueles cujos nomes não estão nos livros: nossos professores, amigos e familiares.

Capitão Rapadura 40 anos não é uma obra de um só, mas de várias pessoas, parceiros, amigos, famílias e, por isso, de um estado inteiro, uma nação inteira, porque Rapadura nada mais é que todos nós.

Obrigado, pessoal.

Parafraseado Mino: “é só o começo”.

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NOTA INFORMATIVA: SOBRE CROWDFUNDINGS

Há alguns anos, sites como o Catarse ou o Kickstarter popularizaram um novo conceito de arrecadação de verbas: o crowdfunding, ou financiamento coletivo, que basicamente consiste em arrecadar capital para desenvolvimento de diversos projetos, tornando os interessados em ver aquele projeto realizado como financiadores diretos. O sucesso da iniciativa é tanto que o número de projetos (entre eles, uma grande quantidade de quadrinhos) desde a abertura desses sites em pouquíssimo tempo chegou a números inesperados. O Catarse, por exemplo, relatou uma arrecadação quase 4x maior de seu primeiro ano (2011) pra cá. Esse tipo de plataforma se tornou um incentivo único a produtores e artistas independentes, além de oferecer mais opções de arte, entretenimento e cultura foras do circuito considerado de mercado de massa.
No entanto, será que o financiamento coletivo é amplamente compreendido por todos?
Em uma nota enviada por Milena Azevedo, ela fala sobre essa dificuldade:
Bom dia a todos!
Não sei como os demais membros da equipe estão vivenciando a apresentação do Catarse e do nosso projeto para amigos e familiares. O fato é que comigo tem acontecido situações tragicômicas.
A mais recorrente é de pessoas que estão me dando dinheiro para que eu faça a contribuição. Já expliquei que isso não é legal porque o nome dessas pessoas não vai aparecer e vai ficar chato também pelo fato de que fica parecendo que só eu estou contribuindo.
Mas a situação na qual estamos não me permite negar as quantias. Ontem eu depositei dois mil reais, sendo mil reais doados por vovó (aí tudo bem), mais quinhentos reais do meu bolso e outros quinhentos divididos em cinco pessoas que doaram cem reais. Resultado, meu cartão chegou ao limite mensal que posso gastar.
E assim que acabei de fazer a contribuição gorda, me chegou mais um pedido de contribuição ‘anônima’. 
As pessoas que não estão no nosso meio quadrinístico e que não tem muita afinidade com compra virtual somam um montante dos meus contatos extras.
Já ouvi até isso: ‘se você tivesse o gibi aqui eu comprava na hora!’.
Isso comprova que as pessoas, em sua maioria, não entendem o financiamento colaborativo.
Os amigos(as) de mainha do facebook acham que curtindo o link já estão contribuindo. É sério.
Estou enviando o tutorial abaixo para vocês compartilharem com amigos, colegas e familiares, explicando que não é um bicho de sete cabeças fazer o cadastro no Catarse.
Tutorial de como contribuir com os projetos do Catarse
Estou recebendo o retorno de alguns amigos que querem adquirir um exemplar da coletânea Visualizando Citações (http://provc.blogspot.com.br/) na pré-venda do projeto no Catarse, mas não sabem como fazê-lo.

É muito simples. Sigam minhas instruções que não tem erro:
1°) Vá até o site do Catarse.me: http://catarse.me/
2°) Na barra superior, clique em CADASTRE-SE. Aqui você tem a opção de digitar Nome, e-mail, senha ou entrar via sua conta do facebook (agora é a única rede social permitida para cadastro);
3°) Com o cadastro feito, você entra na nossa página e escolhe o valor que quer contribuir: http://catarse.me/pt/provc
4°) Depois você é direcionado a fazer o cadastro no Moip (basta preencher seus dados e escolher a forma de pagamento desejada, cartão de crédito ou boleto bancário)
5°) Você recebe uma mensagem dizendo que é um dos apoiadores do projeto Visualizando Citações e vai receber um e-mail do Moip.

Abaixo está o link de um vídeo que mostra esse passo-a-passo, embora algumas coisas da interface do Catarse tenham mudado um pouco, o procedimento é o mesmo:

http://vimeo.com/18998742#

Não se preocupem que o Moip só repassa o valor das contribuições no final da campanha, então o dinheiro de vocês fica lá guardadinho.

Milena
A mensagem de Milena – e possivelmente ela não é a única – demonstra uma realidade sentida há algum tempo para os produtores independentes de quadrinhos: uma parte de seu público ainda está arraigada em antigas formas de consumo e distribuição e isso tem causado algumas confusões na aceitação de novas formas de apreciação de artistas ainda desconhecidos do grande público e, ao invés de ampliar o número de consumidores daquele produto, tem setorizado-o ainda mais, fazendo com que os que não querem ou não tem paciência de se inteirarem das ferramentas digitais acabem excluindo a si mesmos desses novos universos, esperando obras que nunca chegarão em bancas e se sentindo enganados ou desesperançados com isso.
Como sempre, no entanto, isso não é o fim do mundo ou a falha de uma geração inteira ou de um movimento moderno. Comunicação faz-se necessário. O financiamento coletivo é uma realidade patente, uma ponta de presente direcionada a um futuro onde cada dia mais os interessados por algo buscarão esse algo da forma como desejam e utilizando-se de sua fé pessoal, criatividade e recursos próprios, investindo seu tempo, energia e dinheiro naquilo que acreditam, mas é preciso informação. Até agora só vi Milena Azevedo apresentar o problema e preocupar-se em trazer informações sobre como resolvê-lo, mas, como dito antes, acredito que ela não é a única e acho que mais experiências dos que buscam financiamento e das dificuldades que passam deve ser compartilhadas.

CONSTRUINDO MUNDOS, NARRANDO HISTÓRIAS

Uma das grandes razões de existir de uma história é a capacidade de nos levar a outros mundos, nos tirar de nossa muitas vezes tediosa realidade e nos colocar dentro de um universo único – mesmo que este realmente exista em outro canto do planeta ou seja mesmo o nosso, mas sob o ponto de vista particular de um artista – à parte do espaço, tempo e continuun em que estamos. Criar um novo mundo é dar base de sustentação a uma narrativa, entregando um conjunto de regras do que é possível ou não dentro dela. Enfim, é a “gravidade” (em termos de força física) de uma história, ou seja, a lei mais básica de sua existência, e que dá sustentação e segurança aos personagens nela inseridos e aos leitores e espectadores desta.

Clover, do Clamp, é um mundo construído se utilizando da temática do steampunk.

Importante perceber que criar um mundo vai muito além da simples feitura do cenário. Ele está muito mais próximo de uma ambientação psicossocial, dando ao leitor um conjuntos de crenças, regras, posturas, estereótipos, culturas e limitações, do que uma simples reprise ou modificação de coisas reais. Um “universo” eficiente é visualmente explicado nos primeiros segundos de um filme ou nas primeiras 2 páginas de um impresso e compreendido com a mesma velocidade, e ainda é mentalmente marcante mesmo quando abandonamos a obra, bastando um ou dois elementos para nos remetermos imediatamente a ele. Bons exemplos para isso não faltam, desde Senhor dos Anéis a Blade Runner. Ridley Scott, por sinal, é um dos melhores criadores de universos de Hollywood. Uma crônica sobre o significado da força de um novo universo bem feito veio do set de Thor: Anthony Hopkins, um dos mais celebrados atores do cinema, ao ver o elenco (Tom Hiddleston – Loki e Chris Hemsworth – Thor, entre outros) com as indumentárias e bem alocados nos incríveis cenários, olhou para Hemsworth e disse: “Nem precisamos atuar. As roupas já fazem todo o trabalho”.

Jean “Moebius” Giraud foi, possivelmente, o maior criador de mundos que os quadrinhos já viram. Em suas mãos, nada era pequeno, pelo contrário, tudo tomava uma dimensão completamente épica.

Logicamente, desde a mais simplória fantasia a mais longínqua região do espaço, passando pela massacrante realidade, antes de terem o formato e escopo final que recebemos nos cinemas ou impressos, os “novos mundos” tomam como base elementos do mundo real, os quais são estudados e trabalhados e reincorporados a outros, indo de formas mais complexas a mais simples e vice-versa, mas que sempre definem não somente os locais, mas os seres de lá, como são, o que são, como vivem, o que pensam, suas histórias prévias e preparações para o futuro e como tudo isso coexiste e influencia suas formas de perceber o mundo e reinterpretá-lo. É patente a pesquisa que James Cameron fez para construir o mundo de Avatar, chegando a passar dias na selva amazônica e entre os índios, incorporando aquele mundo real em sua fictícia Pandora.

Nausicä no Vale dos Ventos, além de um grande trabalho de Hayao Myiazaki, também é uma aula de como construir mundos de fantasia através de elementos do mundo real de forma harmoniosa e chamativa.

Aí está a verdadeira magia de um novo mundo, de um universo criado, ele sempre deve ser, de alguma forma, um simulacro do nosso próprio mundo, de nossa própria realidade e, por isso, de nós mesmos. Se o receptor (leitor, espectador, consumidor), mesmo afundado em efeitos especiais de máquinas gigantescas ou repleto por magia primordial, não reconhecer símbolos e elementos comuns a seu arcabouço (sejam eles simpáticos ou não ao seu gosto), haverá uma certa ojeriza à obra e uma alienização que pode ser perniciosa ao trabalho. Voltando ao exemplo de Cameron, Pandora, por mais imaginativa que fosse, era formada por folhas, montanhas, arbustos, animais alados e terrestres que se comportavam em estruturas semelhantes às nossas e os espectadores reconheciam e simpatizavam com aquilo porque ainda eram elementos que eles entendiam, mesmo que “cartunizados”, idealizados e fantasiados.

Resumindo, criar mundos nada mais é que fazer a mais simples e importante regra da produção artística: tornar seu trabalho humano.