Boas Histórias são Eternas

Especial para a RIvista. Saiba como adquirir edições através do e-mail: redacaorivista@gmail.com ToyStoryBanner Existe uma verdade inegável na arte: o que é bom é apreciado, mas o que é excepcional é eterno. As pessoas não estavam preparadas para Toy Story quando ele foi lançado em 1994. Não estavam porque a maioria foi ver um filme de animação com modelos tridimensionais, diferentes da animação clássica desenhada, e se depararam com um filme em que o 3D nada mais era que um detalhe. Toy Story não é simplesmente uma animação utilizando uma técnica moderna, mas realmente um fantástico filme com personagens cativantes e uma história muito bem contada. Não há frames desnecessários ou falas que servem somente pra enfeitar, tudo possui sua função para permitir que a narrativa ganhe fluidez e divirta e encante o espectador. “Um filme sobre amigos”, pelas palavras de John Lasseter, um dos diretores da produção, na época chefe da Pixar e hoje principal diretor de animação da Disney. Até Toy Story, os filmes de animação americanos tinham caído em uma mesmice levada pelo “padrão Disney de animação”: personagens fofinhos, incorruptíveis em sua estrutura psicológica linear, canções que embalavam os momentos chaves dos filmes, e uma narrativa previsível que encantava em sua plasticidade e beleza, mas se tornava muitas vezes vazia depois que se saía do cinema. Dessa época, poucos ficaram na lembrança do público, sendo O Rei Leão o principal – diga-se de passagem, completamente inspirado nas clássicas (e eternas) tragédias de Shakespeare e em Kimba, de Osamu Tezuka, o pai do mangá moderno e um mestre em desenvolver personagens interessantes. Logo em seu começo, o filme dos brinquedos da Pixar mostra que veio derrubar “paradigmas” ao introduzir de um jeito humanamente atraente cada um dos personagens. Para quem não lembra, a história começa com os brinquedos velhos preocupados em qual brinquedo novo seu dono, Andy, ganharia, futuramente os substituindo por causa disso. Woody, o cowboy “líder” da turma, tenta ser racional e, em um discurso motivador, mostra aos companheiros que nada vai acontecer, pois Andy ama todos eles. No entanto, Woody tem toda sua dramaticidade reduzida quando um dos colegas diz que ele só fala isso porque não tem o que se preocupar, pois é o preferido do garoto. Quando o novo brinquedo surge, para a supresa de todos, o único que é realmente deixado de lado é Woody, superado por um charmoso e heroico brinquedo espacial, o astronauta Buzz Lightyear. Assim, em menos de 40 minutos, medo do abandono, frustração, desespero e inveja são os temas mostrados, todos terríveis sentimentos humanos, mas interpretados com magia e sagacidade por brinquedos em um filme para todas as idades. Aí está o grande pulo do gato de Toy Story e a razão por ter elevado os padrões da animação: trazer personagens humanos em histórias fantásticas, mas críveis, em um enredo que permeia temas que vão muito além da simplicidade infantil, mas conseguem atingir até o mais experiente adulto, emocionando o público com a maestria dos grandes contadores de história, como o já citado bardo inglês, sem ter de usar de elementos apelativos, violentos ou piadas de duplo sentido. Mais do que técnica, Toy Story tem o coração dos imortais clássicos. Daqueles que são pedras fundamentais na história da Arte. Apesar deste artigo, o verdadeiro segredo de Toy Story talvez esteja numa das frases iniciais de Woody, a qual reproduzo aqui: “O importante é estarmos disponíveis para o Andy quando ele precisar de nós. É pra isso que a gente existe, não?”. Troque Andy para “público” e a metáfora fará todo sentido: é para ele que as boas histórias do cinema existem, não?

ENTREVISTA COM RONALDO BARRETO, DIRETOR DO FILME “BRANDÃO”

No último sábado, dia 7 de dezembro, como parte das atividades do Festival ManiFesta!, no lounge do Centro Cultura Dragão do Mar (Fortaleza-CE), foi exibido o documentário BRANDÃO, média metragem dirigida pelo egresso editor do site Quadrinhos em Questão, Ronaldo Barreto, que conta parte da história dos quadrinhos cearenses utilizando o artista Daniel Brandão como linha narrativa.

O diretor do filme concedeu uma entrevista ao Cultura de Quadrinhos, a qual você confere a seguir:

CQ. O filme possui um direcionamento histórico muito forte, sustentando-se na figura de Daniel Brandão como o centro da sua narrativa documental. Por que Daniel Brandão foi sua escolha?

RB. Conheci o Daniel Brandão, em seu estúdio, no ano de 2007. Com o passar dos anos, e à medida em que fui aprendendo mais sobre a história dos quadrinhos cearenses, percebi que ele havia participado de alguns momentos importantes da cena local nos últimos vinte anos: a Oficina de Quadrinhos da Universidade Federal do Ceará, na época em que era publicada a PIUM; a criação da revista do Capitão Rapadura, o primeiro super-herói cearense e que havia ficado na gaveta, após ser criado pelo cartunista Mino, por mais de duas décadas e o surgimento do fanzine Manicomics, vencedor de três HQ MIX na categoria Melhor Fanzine. Soma-se a isso, também, o fato dele ter estudado na Joe Kubert School, uma das escolas formadoras de quadrinistas mais conceituadas do mundo, no momento em que ocorreu o atentado de 11 de setembro de 2001. Por conta de tudo isso, notei que a sua trajetória era um ótimo fio condutor para se fazer um registro sobre um determinado período da história da nona arte cearense.

CQ. Há algo bem interessante do meio para o fim do filme que é deixar um pouco de lado a arte de fazer quadrinhos ou mesmo o artista Brandão e concentrar-se na construção de “um artista”, elevando o tema a uma simbologia mais universal. Desde o começo foi o que você esperava fazer ou essa visão do filme foi mudando conforme a produção foi caminhando? Como, em si, se deu esse direcionamento e porque tomá-lo?

RB. Com certeza foi mudando conforme a produção foi caminhando. Apesar do filme ter a trajetória de um quadrinista como foco, percebi que havia algo a mais: a história de um rapaz que superou um conflito e foi em busca do seu sonho. Todos nós, dia após dia, somos submetidos a fazer escolhas e algumas delas nos obrigam a adiar ou até mesmo abrir mão de algum sonho que pretendemos realizar. Creio que esse detalhe, que é bastante passível de identificação, tenha proporcionado esse caráter universal.

CQ. Qual a relevância de um documentário como esse pras HQs cearenses nesse momento de lançamentos conjuntos – como a edição comemorativa dos 40 anos do Capitão Rapadura – e a presença de cearenses em eventos grandes de quadrinhos, como o FIQ?

RB. Foi uma feliz coincidência o filme ter ficado pronto no mesmo período do lançamento do álbum Capitão Rapadura 40 anos e da presença marcante de autores cearenses no FIQ. Acredito que o filme possa, daqui a alguns anos, se tornar um registro importante sobre uma pequena parte da história dos quadrinhos cearenses e que é pouco abordada. Espero que seja apenas o pontapé inicial para que surjam mais produções audiovisuais a respeito de uma parte da nossa cultura que não é devidamente valorizada.

CQ. Falando sobre detalhes técnicos, o filme é bem curto, 35-37 minutos. Houve muitos cortes? Qual foi o critério para manter em cena aquilo que vimos?

RB. Sobre o tempo de duração do filme, isso é relativo. Para o grande público, 35 minutos pode ser considerado pouco. Mas, para as pessoas que estão inseridas no audiovisual, esse tempo pode ser considerado muito. Alguns colegas, por exemplo, me disseram que fui ousado, logo no meu primeiro filme, ter feito um média metragem. Você precisa, de fato, ter material que sustente uma produção de 35 minutos, pois você corre o risco de ter um filme que “enrole” demais o espectador até chegar ao que realmente interessa. Esse foi o critério usado na montagem para se chegar ao resultado que você pode conferir: ir logo ao que interessa.

5. Quanto tempo levou para a produção?

RB. A produção durou, ao todo, 1 ano e 3 meses. Filmamos entre outubro e novembro do ano passado. Ocorreram alguns problemas de ordem técnica, mas o que realmente deu trabalho foi a pesquisa. Durante a montagem, percebi que o material que eu havia coletado durante a pré-produção era insuficiente. Portanto, adiei até obter o que considerei necessário para continuar a pós-produção. A ajuda de artistas como Mino (que me forneceu verdadeiras relíquias), Mike Deodato, Roger Kruz, Vitor Batista, Lene Chaves, Fernando Lima e Sérgio Cariello (desenhista brasileiro que foi professor do Daniel Brandão na época da Joe Kubert School), por exemplo, foi fundamental. Simplesmente, não haveria filme sem o apoio deles e de tantos outros.

CQ. A estética do filme lembra a de outro documentário: Profissão Cartunista, sobre Will Eisner. Essa referência foi premeditada? Por que a escolha dessa amostragem?

Inicialmente, eu não tinha a intenção de usar a estética que foi empregada no filme. Confesso que fiquei com receio de ser considerado clichê e, até mesmo, de ser apontado como infantil (um documentário sobre um quadrinista e usar, de cara, a linguagem dos quadrinhos e vários desenhos como referência, no mínimo, achariam que essa opção seria pura falta de originalidade). Contudo, eu apertei o botão do f…-se e fiz o que realmente tava afim, tornando a narrativa mais dinâmica e prendendo a atenção do espectador do início ao fim.

Espere mais novidades para vermos onde o filme será exibido.

Imagem promocional da película.

SUPERMAN (O FILME): O TEMPO & MOVIMENTO, E O TRÁGICO

Por Al Duarte – revista eletrônica Zinext (gentilmente cedido a Cultura de Quadrinhos)

Cristopher Reeve em Superman - O Filme

Cristopher Reeve em Superman – O Filme

Uma porção de chatos e sem poesia na vista comentam a clássica cena de Superman “mudando como um deus o curso da história, por causa da mulher“; girando o planeta em sentido inverso e “interferindo na História Humana” como soava Jor-El. Impertinentes cientificistas caluniaram a cena do filme, tagarelando que fazer a Terra girar ao contrário, primeiro, provocaria um cataclismo de proporções absurdas, pois tudo que há na Terra se esfacelaria com a inércia. Depois, girar a Terra ao contrário apenas seria um movimento de rotação ao contrário, não tem a ver com o tempo histórico. Assim a cena fica esvaziada de seus signos.

Como dizem os manuais de fazer quadrinhos, no entanto, o sensação de Tempo vem da sequenciação dos quadros, e, de fato, toda a noção que temos de Tempo é derivada do Movimento. O Tempo em nosso senso comum é subordinado ao Movimento; é sucessão de movimentos. Conhecemos as horas nos relógios pelos ponteiros que giram; o dia se passa com o movimento dos astros. A História é uma sucessão de anos e séculos. Onde quer que vejamos o Tempo, aí há muito mais e apenas sucessão de Movimento. Os rudimentos básicos de nossa organização mental e social do Tempo e da História: Passado, Presente, Futuro, sempre linearmente, não passam de noções extraídas do movimento no espaço, de nossos hábitos. É a linguagem do deslocamento pelo espaço servindo para compreender o Tempo.

Daí Jor-El, em sua sabedoria elevada de kriptoniano está corretíssimo em seu alerta: “É proibido interferir na História…!” Sim, pois Superman está querendo reverter o movimento, as causalidades encadeadas dos fatos, logo, a ordem da sucessão dos movimentos – a História, a seta do tempo: passado-presente-futuro. O pensamento de Superman está correto se observarmos os signos da cena, não tendo-a como representação de fatos científicos (como convém à arte!): retorna o o movimento, retorna o tempo Cronos. Aí é todo o auge do filme exibindo a potência do Superman, ele, como todos os heróis, é aquele que quer repor o mundo nos eixos, reverter os movimentos aberrantes do mundo, causadores dos acidentes. Aqui é um terremoto desmoronando a Terra, muito significativo isso. Superman é o herói elevado a deus, e acima dos heróis, pode reverter as causalidades, os movimentos aberrantes do mundo para recolocá-los nos eixos. Essa cena “demonstra”o Superman.

Mas eu me permito uma leitura singular da cena: a Terra desmoronava e se abria efetuando estrondosos acidentes. Superman ao ver sua amada morta, num ato de desmedida (hybris) trágica, tomado de fúria amorosa, acelera e intensifica os movimentos aberrantes da Terra – como para libertar o Tempo do Movimento!… Não é um ato exatamente bondoso de salvação, do tipo moral que apenas salva a donzela. É um ato cruel, disparo desgraçado e bendito de herói trágico, rompendo as regras, desobedecendo o pai, estraçalhando as causalidades, fazendo o mundo circular em fluxos intensos, e misturar o passado e o presente e o futuro. O Superman nessa leitura não é o “escoteiro azul”, é Prometeu, é Ajax, é Dionísio acelerando o Apocalipse. Mas… que estranho! Retornando, ele encontra o mundo em paz; Lois está viva, a Terra sarada de seus desmoronamentos. Por quê? É que para os trágicos e intensos há sempre uma salvação pela Repetição, o Eterno Retorno do Diferente. Há uma restituição miraculosa do Mesmo-e-no-entanto-Outro! Para os heróis trágicos há sempre uma redenção final que emerge da perdição absoluta! Comédia aflorando da tragédia, uma devolução de cem vezes mais. Pois a Terra que retorna, milagrosamente, retorna diferente.

CHAMADA DE ELENCO… BONELLI EDITORE

Há algum tempo atrás, eu e o amigo e mestre JJ Marreiro fomos convidados a fazer uma matéria para uma revista de cinema nos mesmos moldes que a sessão “Casting Call” da revista Wizard. Como os filmes de quadrinhos mainstream norte-americanos já estão rodando há anos, procuramos bem sucedidos títulos em outras partes do mundo. Como Sergio Bonelli havia morrido há não mais que 1 mês ou dois na época, achamos justo fazer uma “chamada de elenco” com alguns de seus títulos mais conhecidos aqui no Brasil. O resultado vocês conferem a seguir.

01_TEX WILLERo

Ele começou como rancheiro, virou fora-da-lei após vingar o assassinato de seu pai, mas sua sede de justiça o fez ganhar o respeito do exército americano, dos rangers e dos índios Navajo, de quem acabou tornando-se chefe. Implacável, obstinado e honrado, dono de um olhar duro, socos demolidores e de um gatilho rápido e certeiro, Tex Willer precisa de um intérprete que sintonize essa energia, e todas essas características podem ser vistas nos filmes de JOSH BROLIN (Bravura Indômita e Jonah Hex). O porte físico, o olhar aguçado e o queixo quadrado do ator são definitivamente idênticos à personificação de Tex vista nos traços do artista Cláudio Villa.

ZagorTW

Considerado pelos índios como um tipo de semi-deus enviado por Manitú, o “espírito da machadinha” Patrick Wilding, o Zagor, dedica sua vida à defesa da paz e da ordem na imaginária floresta de Darkwood. Suas aventuras trazem para o western elementos da ficção científica, terror e fantasia. De certo modo é o personagem boneliano que tem mais semelhanças com o gênero super-herói, e em sua gênese podem ser consideradas referências a Tarzan, Flash Gordon e Superman. Para encarná-lo no cinema TOM WELLING faria uso da postura e da sobriedade desenvolvidas ao longo de trabalho em Smallville.

NickRaideAOL

Detetive do Esquadrão de Homicídios de Manhatan, Nick é normalmente chamado para cuidar de casos que a polícia comum não possui os métodos capazes de resolver. Um quadrinho policial cheio de ação, aventura e presenças ilustres, fazendo muitas referências ao cinema dos anos 1970. ALEX O’LOUGHLIN, vindo de um seriado policial, com toda sua postura de ator de filme de ação e ainda jovem para cenas de grande perigo de energia intensa, é perfeito para a versão em tela grande de um quadrinho policial intenso e cheio de aventura.

DylanDogTH

Investigador do impossível, Dylan Dog é um dos mais bem sucedidos personagens Bonelli. Suas aventuras sempre visitam o sobrenatural em uma noir Londres mística. Recentemente, o personagem teve uma versão para cinemas com Brandon Routh no papel título. Dylan Dog é um sujeito taciturno, esquisitão, solitário, dono de uma curiosidade incontrolável e de vasto conhecimento sobre o universo do oculto e TOM HIDDLESTON traria isso ao personagem. A afinidade com o mundo sobrenatural já vem no currículo do ator que atualmente encarna o feiticeiro Loki, na versão cinematográfica de Thor e no filme Vingadores.

MrNoGB

O piloto americano Jerome Drake, após servir na Segunda Grande Guerra, decide ter uma vida mais pacífica, mudando-se para Manaus na Amazônia para trabalhar como guia turístico, mas a verdade é que não consegue fugir das aventuras e conquistas amorosas. A paisagem das selvas brasileiras precisa de um homem duro na queda com o expressão forte de um militar experiente e o charme bruto dos heróis de aventura. Missão fácil para GERALD BUTLER, o Leônidas de 300.

MagicoVentoJF

O soldado Ned Ellis foi salvo da morte pelos índios sioux e nasceu de novo como o Mágico Vento, agora também xamã da tribo. JAMES FRANCO soube trazer o tragicismo a Harry Osborn, na trilogia Homem-Aranha e alguma estranheza ao personagem David em Comer, Rezar e Amar, mostrando ser gabaritado o bastante para interpretar o amnésico Mágico Vento em suas viagens pelos EUA cheias de aventuras que envolvem política, banditismo e magia.

JuliaKendallNP

NATALIE PORTMAN é uma atriz capaz de interpretar a curiosidade, sagacidade e inteligência de uma das mais queridas personagens Bonnelli, Júlia Kendall, uma estudante de criminologia que não precisa usar os punhos ou erguer armas para descobrir segredos ou por bandidos na cadeia. As duas também dividem um biotipo franzino, mas charmoso, como a atriz que inspirou a criação de Júlia: Audrey Hepburn.

EM DEFESA DE MERIDA ou PORQUE “VALENTE” É UMA OBRA AINDA INCOMPREENDIDA

Valente

Valente, de Mark Andrews e Brenda Chapman, ganhou o Oscar de melhor animação em 2013. Muitos acharam injusto (mesmo eu, já que Detona Ralph ou Paranorman, sob muitos aspectos, deveriam ter levado a estatueta), porque, para uma certa quantidade de críticos, Valente foi “depois de Carros e Carros 2 o mais fraco trabalho da Pixar”. Bem, há claras (e políticas) razões de Valente ter ganho (como seu tema ser clara e tradicionalmente “família”, enquanto o envolvimento de Ralph e Venelope chega às vias de uma “estranha” e “lolita”, mas velada, paixão e Paranorman possuir temas e representações vistas não com bons olhos pelos críticos infantis hollywoodianos – duvido muito que eles dessem um Oscar a uma animação onde um dos “bonecos” expõe sua homossexualidade abertamente), no entanto, também acredito que o público não percebeu que há algo de diferente e genial na animação, possivelmente porque tais detalhes (tão relevantes, como são relevantes) não ficam tão claros assim e, quando ficam, são ruidosos e estranhos ao que estamos acostumados. Por isso, decidi listar 5 boas razões para ver filme com outros olhos:

1. A QUEBRA DO PARADIGMA DA PRINCESA APRISIONADA

Ela decide os limites, ninguém mais.

Princesas (Disney, mas não somente) costumam viver em lugares e ambientes limitados, seja por regras, ordens familiares, maldições e uma série de outros infortúnios, e só são retiradas de lá por forças externas (comumente masculinas). Branca de Neve vivia presa no próprio castelo até necessitar fugir para não morrer e mesmo assim teria perecido não fosse pelo caçador, os anões e por fim o príncipe. Mesmo Pocahontas, talvez a mais liberta princesa até agora, era limitada a seu ambiente natural, devendo Smith chegar para tirá-la daquele mundo. Merida não é assim, pelo contrário, as regras (ou os prendedores de cabelo) não a contêm e é ela quem traz notícias do mundo lá fora para a família, o que, por sinal, define/destina a personagem, colocando-a acima, inclusive, do próprio rei, mostrando que seu direito de nascença (a vida de princesa/rainha de um outro rei) é menor do que seu próprio destino, de seu espírito livre. Essa importância de grandeza espiritual fica bem marcada na fala de seu pai: após ela contar que alcançou a cachoeira no topo da montanha, ele responde “Dizem que somente os reis antigos eram valentes o bastante para beber do fogo [água das cachoeiras]”, ou seja, ela é comparada aos maiores. Aspecto que já diz muito da história e da protagonista, imbuindo-a de uma poderosa e conquistadora força e dando a personagem um aspecto guerreiro e irreprimível por si só, informando que nada que surja será maior que ela mesma (não à toa, sua origem nórdica contribui muito para fixação desse significado).

2. DECISÃO, CERTEZA E SEGURANÇA

A simbologia do arco e flecha demonstra segurança e certeza em suas decisões.

Enquanto a maioria das princesas são inseguras ou ficam rodeando seus filmes na descoberta de quem são e qual o lugar delas no mundo (puro reflexo de uma sociedade onde a mulher não é vista como segura de si, mas deve esperar até que, novamente, uma força externa – masculina ou fálica? – diga o que realmente ela é, quer e pra onde vai), algo que nem mesmo a “revolucionária” Fiona conseguiu escapar, Merida é desde o começo certa do que quer fazer, do que quer negar e do que quer alcançar – pilar em sua discussão com a mãe e pedra fundamental na plot do filme. Engraçado, por sinal, é como isso é demonstrado durante a animação. É comum que em contos de princesas, a personagem principal cante uma linda canção falando do que quer e das dificuldades que a impedem (muitas vezes, prenúncio para a chegada da força [masculina] que a tirará daquele estado, pois ela pode sofrer muito ao fazer isso sozinha, vide o caso Pequena Sereia), em The Brave a única canção interpretada indica as certezas de Merida pra si mesma, em como ela voará e tocará os céus com as próprias forças, quase uma sátira para a passividade das princesas regulares. Muito moderninha essa nórdica.

3. NÃO NECESSIDADE DE UM PRÍNCIPE OU ROMANCE QUE A “SALVE”

O filme não transformou nenhum deles em bom partido dando a certeza absoluta ao público de que não, não haveria romance no filme. A redenção de Merida só poderá ser alcançada por ela.

Esse tópico me faz lembrar de dois casos bem simples: Rose, personagem de Kate Winslet em Titanic, e Bela, de A Bela e a Fera. No primeiro, a “princesa da era de ouro” tinha tudo, mas era infeliz e incapaz de sair da posição que estava, no segundo, a “princesa campestre”, era feliz com o pai, mas sua pobreza trazia dificuldades, pois a impedia de cuidar do velho, assim, estava “estacionada” em sua posição social. Para Rose, Jack apareceu mostrando um mundo novo através de sua liberdade e, com isso, “salvando” a jovem de sua própria vida. Já Bela, ao entrar em contato com a Fera, possui o romance que desenvolve pelo monstro como libertador deste e, por consequência, dela própria, tendo em vista que o príncipe, uma vez saído da casca de besta, deu-a uma vida de riquezas que a “salvaram”. Duas maneiras clássicas e bem distintas (e eternamente repetidas) sobre o mesmo tema: a alienígena, poderosa e “selvagem” força masculina sendo a responsável pela salvação feminina, comumente usando o “amor” como instrumento de ligação entre os dois. Merida, revolucionariamente, é dona do próprio destino, como já dito antes, e dispensa qualquer romance “salvador”, encontrando ela mesma as resoluções para suas questões – tendo sido gerada por ela ou não e mesmo de outrem – fazendo com que sua própria pessoa mude a maneira de pensar de sua mãe, sem que ela mesma tenha de abandonar suas decisões e convicções. E quem precisa de um príncipe chechelento se sabe usar arco e flecha?

4. TROCA DA SIMBOLOGIA DA FADA/MADRINHA PELA DA BRUXA/MAGA/VELHA SÁBIA OU “A NOVA BELEZA”

E ela faz ursos de madeira. Nunca esqueça.

Outro ponto interessante em Valente é a forma como a beleza é utilizada. Princesas como Branca de Neve, Cinderela, Bela Adormecida e Bela são ideais de nobreza: bem vestidas, educadas, gentis, “garbosas”, charmosas etc. e outras, como Ariel, Jasmine e Pocahontas, carregam essas mesmas características, mas com certa sensualidade, às vezes reduzida por sua inocência e meninisse. Merida, apesar de ainda bonita, possui uma beleza diferente, revolta (tão bem elogiada em seus loucos e vermelhos cachos, mas também evidente em seu rosto arredondado), descuidada até – uma contraparte perfeita para sua mãe, a verdadeira figura da princesa clássica ali. A cena em que ela rasga o vestido enquanto empunha o arco, assinando com sangue na flecha sua independência, é impressionantemente emblemática nesse sentido. Ali é Merida “arrancando” a figura clássica das princesas que tentaram impor nela.

Nesse mesmo barco, a bruxa que a ajuda é a inversão das fadas madrinhas: sem beleza ou glamour, egoísta, esquisita, amalucada. Em uma história clássica, poderia ser a face da vilã, mas pelas graças de seu padroeiro e influenciador Miyazaki (a personagem é uma clara homenagem ao cineasta japonês), ela é a estranha guia da protagonista em sua jornada.

5. EVOLUÇÃO DO DILEMA PAIS vs FILHOS

Em termos metafóricos, ao confrontar a mãe, Merida está desafiando todas as princesas tradicionais e o que representam, ou seja, a figura idealizada (e equivocada) da mulher.

Esse tema não é realmente novo. O dilema PAI vs FILHO ou MÃE vs FILHA é recorrente na história do cinema, mesmo no de animação (o curta que abre Valente, La Luna, é um bom exemplo). No entanto, eu acredito que em Valente ele toma uma proporção maior. Primeiro, por tratar com maestria o lado feminino dessa relação e com veracidade não agressiva a qualquer idade; segundo, pela mudança e amadurecimento da personagem principal, além de sua mãe, não significar a destruição ou superação dos pontos de vista de ambas (costumeiramente, no lado masculino, um costuma “tomar” o lugar do outro, mesmo que amigavelmente), por último, pelas duas resolverem a questão entre si, corroborando para aquilo que havia discutido no tópico 4, não é preciso ter um príncipe ou outro homem qualquer pra dar jeito nas próprias querelas. Fora que, e aí talvez seja o estranhamento do grande público para esse filme, as duas mulheres do filme são figuras muito mais maduras que os homens – velhotes turrões que a tudo resolvem numa pancadaria digna de moleques num parquinho – e ainda sim envolventes e interessantes.

Não sou um grande leitor e pesquisador do movimento feminino, mas arrisco dizer que Valente da Pixar/Disney é o filme mais feminista já feito para um público livre e por isso tenha (artística e politicamente) caído nas boas graças da Academia, mas, por conta de toda uma história de machismo social incutido na mente de “meninos e meninas” desde 1953/1937 (e bem antes), fosse difícil criar empatia por uma menina independente e dona do próprio nariz que tudo que quer é ter a liberdade de dizer não, ao invés de dizer sim de alguma maneira.