ENTREVISTA COM PAULO CORRÊA, CRIADOR DO QUADRINHO MIRAGE WATER CHAOS

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Criar um projeto e apresentá-lo ao Financiamento Coletivo tem sido uma alternativa cada vez mais comum (e viável) para os produtores de quadrinhos independentes. Nessa onda, Paulo Corrêa, de Belo Horizonte, juntou-se aos amigos Welberson Lopes e Eduardo Pansica (e logo depois a outros grandes artistas: Geraldo Borges, José Luís, Alzir Alves e Luís Carlos Sousa) para juntos darem corpo a Mirage Water Chaos, obra em quadrinhos sobre um mundo distópico onde água vale mais que ouro, e que procura seu financiamento através do Catarse.

Paulo cedeu um pouco de seu tempo para levar um papo com o Cultura de Quadrinhos. Confiram!

CQ. Fale-nos sobre a história de MIRAGE WATER CHAOS.

PC. Mirage Water Chaos é uma ficção pós-apocalíptica que descreve uma sociedade distópica conhecida como a Era Water Chaos. Essa era surge após um conflito devastador conhecido como a “grande Mirage”, dando lugar a uma era de selvageria e escassez de recursos. Nesse universo, a água é a nova moeda de troca: aqueles que a possuírem, ditarão as regras e serão os senhores desse mundo caótico.

CQ. De onde surgiu a ideia de MIRAGE WATER CHAOS?

Eu concebi a ideia original para o que viria a ser a Mirage no longínquo ano de 1996. Em 2001, mostrei alguns rascunhos de textos e desenhos para um grupo de colegas que fazia o curso de roteiro comigo, no extinto Emcomum Estúdio Livre (com “m” mesmo).

Welberson Lopes (um dos estudantes que viria a se tornar meu grande amigo e parceiro) logo se interessou pelo projeto e começou a me ajudar na concepção dos textos, estruturação da trama e criação dos concept arts dos personagens.

Dessa forma, juntos, passamos os 12 anos seguintes nos aperfeiçoando e tentando viabilizar o projeto através de leis de incentivo e editoras, mas não obtivemos sucesso.

CQ. Por que contar essa história agora e como ela se comunica com a História da humanidade? Além disso, qual a abordagem ecológica presente na obra?

PC. Por que agora? Bom, passei os últimos 17 anos tentando fazer essa história chegar às mãos dos leitores. A cada dia que passa, ficamos mais próximos do futuro descrito através do Universo Water Chaos. Isso torna nossa publicação cada vez mais urgente!
A história e o pós-apocalíptico estão ligados desde sempre! Meu primeiro contato com o gênero foi no início dos anos 1990, quando assisti os filmes da série MAD MAX pela primeira vez e logo me apaixonei pelo universo punk de wasteland (terra devastada). Num rápido passeio pela sinopse de Mad Max 2: The Road Warrior, a referência e homenagem que fiz ficam explícitas:

“A disputa pelo petróleo acabou gerando uma guerra entre as potências mundiais de proporções catastróficas. As cidades entraram em colapso. O planeta se torna uma terra deserta e sem lei. Os remanescentes, desordeiros motorizados viajam sem controle em uma terra árida, buscando o mais escasso bem, a gasolina. Quem a possui tem o controle dessa terra devastada…”

Mas, dos anos de 1970 – década das duas crises do petróleo, inspiração para a franquia – pra cá, muita coisa mudou! Embora ainda sejamos muito dependentes dos combustíveis fósseis, já existem muitos combustíveis alternativos, como o etanol, capazes de fazer frente ao ouro negro. Agora, a história recente nos dá outros foreshadowing (antecipação) do que virá a ser a Terceira Guerra Mundial. Em nossa opinião, o manejo do ouro azul será sua principal causa. Por isso, nossa trama se desenvolve a partir da busca incessante por uma solução para a escassez de água. Em torno desta história giram várias subtramas que exploram a natureza humana e as diferentes interpretações de cada personagem diante de conflitos ideológicos.

A responsabilidade ecológica é um tema em destaque na obra, que questiona o posicionamento das civilizações atuais e como deveriam repensar a política de gestão de seus recursos hídricos, objetivando assim, minimizar os impactos da sociedade contemporânea, cada vez mais ávida por recursos naturais.

CQ. Como se deu a escolha e administração da equipe? Fale-nos um pouco sobre cada um dos envolvidos.

No final de 2012, eu percebi que se não desse o “pontapé” inicial, investindo meu próprio dinheiro no projeto, a Mirage Water Chaos se resumiria a apenas uma boa ideia, nada mais. Foi então que saí à procura de artistas capazes de trabalhar em alto padrão (nosso objetivo). Para minha surpresa, eis que surge Eduardo Pansica na parada. Sensibilizado com nossa inciativa, ele aceitou ilustrar a publicação, mesmo por um valor abaixo do que o mercado paga a talentos como ele (e aos outros membros da equipe).

Mas havia um porém: o prazo! Com um título mensal da DC em mãos, ficava difícil ilustrar tudo o que precisávamos. Aí resolvemos procurar o desenhista Geraldo Borges para ajudá-lo, que acabou enfrentando o mesmo problema. A salvação veio com a entrada do gigante José Luís, que embora seja tão requisitado pelo mercado internacional quanto os outros dois titãs, nos cedeu uma janela em seu precioso tempo para terminar de ilustrar nosso portfólio. Ainda contamos com Alzir Alves, um verdadeiro mago com uma Cintiq nas mãos (mesa digitalizadora), e Luís Carlos Sousa, nosso balonista. O responsável por dar voz ao magnífico trabalho de todos.

CQ. Apesar do crowdfunding ser uma realidade contumaz atualmente, a possibilidade de não arrecadação ainda é uma grande dúvida nos projetos que se utilizam desse serviço, e ponto de desistência de muitos artistas. Sendo assim, por que vocês escolheram essa forma de financiamento?

PC. O financiamento coletivo representa a evolução do sistema de produção artística no país. Há pouco mais de 20 anos, com o surgimento das Leis de Incentivo à Cultura, a cena independente passou a se valer desse mecanismo e publicar muita coisa bacana assim. Mas havia um grande problema: a captação de recursos! Mesmo com o projeto aprovado pelo MinC (ou outras instâncias), o proponente era “obrigado” a buscar empresas que acreditassem em seu trabalho para que ele fosse financiado. Porém, muitas empresas estavam de olho apenas no retorno comercial que seu apoio geraria. Por isso, muitos projetos maravilhosos acabaram engavetados por falta de patrocínio (inclusive o nosso).

Com a chegada do crowdfunding ao Brasil, a cena independente encontrou uma válvula de escape, que se materializa através de sites como o Catarse (melhor nome, impossível) e outros do gênero. Para quem não conhece o sistema de financiamento coletivo, o conceito é muito simples: você compra antes de ficar pronto, com esse dinheiro nós produzimos, e você recebe em casa exatamente o que comprou. Caso o projeto não alcance a meta estipulada, todos que contribuíram recebem o dinheiro de volta. Simplesmente revolucionário!

CQ. Outra decisão da equipe foi incluir o quadrinho em plataformas digitais e torná-lo bilíngue. Muitos dos projetos de quadrinhos no Brasil não apresentam essa proposta, por que vocês acreditam que MWC se adequa ao perfil bilíngue?

PC. Os digitais são a evolução natural dos livros e HQs. Em um futuro próximo, sairá impresso só o que for realmente muito bom. Hoje, através da comiXology e outras lojas virtuais, grandes editoras como a Marvel e a DC Comics publicam suas HQs mundialmente, dispensando outros tipos de intermediadores, como distribuidoras e revendedores locais. Eu não tenho dados sobre isso, mas acredito que nem tudo que sai digital tem sua versão impressa (achismo meu). Mas uma coisa é certa, nem tudo que sai nos Estados Unidos chega a Terra Brasilis. Contudo, o digital rompe essa barreira!

Com o objetivo de atingir o público internacional e nos valendo do caráter cosmopolita das publicações digitais, foi que resolvemos criar um app bilíngue. Não há fronteiras para o digital, logo, nada mais natural do que utilizarmos a língua franca não oficial em nossa HQ. Queremos que o maior número de leitores tenha acesso à nossa revista. Para isso, precisamos quebrar a barreira linguística imposta pela língua portuguesa.

Caos!

Contribua com o projeto AQUI.

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ENTREVISTA COM RONALDO BARRETO, DIRETOR DO FILME “BRANDÃO”

No último sábado, dia 7 de dezembro, como parte das atividades do Festival ManiFesta!, no lounge do Centro Cultura Dragão do Mar (Fortaleza-CE), foi exibido o documentário BRANDÃO, média metragem dirigida pelo egresso editor do site Quadrinhos em Questão, Ronaldo Barreto, que conta parte da história dos quadrinhos cearenses utilizando o artista Daniel Brandão como linha narrativa.

O diretor do filme concedeu uma entrevista ao Cultura de Quadrinhos, a qual você confere a seguir:

CQ. O filme possui um direcionamento histórico muito forte, sustentando-se na figura de Daniel Brandão como o centro da sua narrativa documental. Por que Daniel Brandão foi sua escolha?

RB. Conheci o Daniel Brandão, em seu estúdio, no ano de 2007. Com o passar dos anos, e à medida em que fui aprendendo mais sobre a história dos quadrinhos cearenses, percebi que ele havia participado de alguns momentos importantes da cena local nos últimos vinte anos: a Oficina de Quadrinhos da Universidade Federal do Ceará, na época em que era publicada a PIUM; a criação da revista do Capitão Rapadura, o primeiro super-herói cearense e que havia ficado na gaveta, após ser criado pelo cartunista Mino, por mais de duas décadas e o surgimento do fanzine Manicomics, vencedor de três HQ MIX na categoria Melhor Fanzine. Soma-se a isso, também, o fato dele ter estudado na Joe Kubert School, uma das escolas formadoras de quadrinistas mais conceituadas do mundo, no momento em que ocorreu o atentado de 11 de setembro de 2001. Por conta de tudo isso, notei que a sua trajetória era um ótimo fio condutor para se fazer um registro sobre um determinado período da história da nona arte cearense.

CQ. Há algo bem interessante do meio para o fim do filme que é deixar um pouco de lado a arte de fazer quadrinhos ou mesmo o artista Brandão e concentrar-se na construção de “um artista”, elevando o tema a uma simbologia mais universal. Desde o começo foi o que você esperava fazer ou essa visão do filme foi mudando conforme a produção foi caminhando? Como, em si, se deu esse direcionamento e porque tomá-lo?

RB. Com certeza foi mudando conforme a produção foi caminhando. Apesar do filme ter a trajetória de um quadrinista como foco, percebi que havia algo a mais: a história de um rapaz que superou um conflito e foi em busca do seu sonho. Todos nós, dia após dia, somos submetidos a fazer escolhas e algumas delas nos obrigam a adiar ou até mesmo abrir mão de algum sonho que pretendemos realizar. Creio que esse detalhe, que é bastante passível de identificação, tenha proporcionado esse caráter universal.

CQ. Qual a relevância de um documentário como esse pras HQs cearenses nesse momento de lançamentos conjuntos – como a edição comemorativa dos 40 anos do Capitão Rapadura – e a presença de cearenses em eventos grandes de quadrinhos, como o FIQ?

RB. Foi uma feliz coincidência o filme ter ficado pronto no mesmo período do lançamento do álbum Capitão Rapadura 40 anos e da presença marcante de autores cearenses no FIQ. Acredito que o filme possa, daqui a alguns anos, se tornar um registro importante sobre uma pequena parte da história dos quadrinhos cearenses e que é pouco abordada. Espero que seja apenas o pontapé inicial para que surjam mais produções audiovisuais a respeito de uma parte da nossa cultura que não é devidamente valorizada.

CQ. Falando sobre detalhes técnicos, o filme é bem curto, 35-37 minutos. Houve muitos cortes? Qual foi o critério para manter em cena aquilo que vimos?

RB. Sobre o tempo de duração do filme, isso é relativo. Para o grande público, 35 minutos pode ser considerado pouco. Mas, para as pessoas que estão inseridas no audiovisual, esse tempo pode ser considerado muito. Alguns colegas, por exemplo, me disseram que fui ousado, logo no meu primeiro filme, ter feito um média metragem. Você precisa, de fato, ter material que sustente uma produção de 35 minutos, pois você corre o risco de ter um filme que “enrole” demais o espectador até chegar ao que realmente interessa. Esse foi o critério usado na montagem para se chegar ao resultado que você pode conferir: ir logo ao que interessa.

5. Quanto tempo levou para a produção?

RB. A produção durou, ao todo, 1 ano e 3 meses. Filmamos entre outubro e novembro do ano passado. Ocorreram alguns problemas de ordem técnica, mas o que realmente deu trabalho foi a pesquisa. Durante a montagem, percebi que o material que eu havia coletado durante a pré-produção era insuficiente. Portanto, adiei até obter o que considerei necessário para continuar a pós-produção. A ajuda de artistas como Mino (que me forneceu verdadeiras relíquias), Mike Deodato, Roger Kruz, Vitor Batista, Lene Chaves, Fernando Lima e Sérgio Cariello (desenhista brasileiro que foi professor do Daniel Brandão na época da Joe Kubert School), por exemplo, foi fundamental. Simplesmente, não haveria filme sem o apoio deles e de tantos outros.

CQ. A estética do filme lembra a de outro documentário: Profissão Cartunista, sobre Will Eisner. Essa referência foi premeditada? Por que a escolha dessa amostragem?

Inicialmente, eu não tinha a intenção de usar a estética que foi empregada no filme. Confesso que fiquei com receio de ser considerado clichê e, até mesmo, de ser apontado como infantil (um documentário sobre um quadrinista e usar, de cara, a linguagem dos quadrinhos e vários desenhos como referência, no mínimo, achariam que essa opção seria pura falta de originalidade). Contudo, eu apertei o botão do f…-se e fiz o que realmente tava afim, tornando a narrativa mais dinâmica e prendendo a atenção do espectador do início ao fim.

Espere mais novidades para vermos onde o filme será exibido.

Imagem promocional da película.

O peso da luz – Einstein no Ceará

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A editora Armazém da Cultura, sediada em Fortaleza, Ceará, tem o prazer de apresentar o novo livro de Ana Miranda, O peso da luz, Einstein no Ceará.

“A novela O peso da luz conseguiu um equilíbrio raro, muito bonito, entre poesia e ciência, mas sem perdas ou sacrifício, sem dependências coloniais, e ao mesmo tempo a história envolve, prende, nos requer de modo exclusivo, mas sem arenosas paradidáticas, do jeito que só Ana Miranda sabe fazer, sem diminuição, com todas as cores possíveis, polifônico plural e todo um céu que se abre, com analogias entre aquele e este chão, o chão do Ceará ou de qualquer parte do mundo (não pela fria abstração) mas pelas secretas leis das similitudes de uma prosa poética enxuta e que nos convoca a imaginar um mundo precioso e solidário.”
Marco Lucchesi

Construído com elementos da biografia de Albert Einstein, O Peso da luz trata de um amante da ciência que conta suas memórias, Roselano Rolim – relojoeiro e inventor de uma máquina utópica, um moto-perpétuo estelar –, uma espécie de Quixote nascido em Cajazeiras. Na mesma cidade paraibana viveu um tio-avô da autora, que nos anos 1930 inventou um controle remoto, e inspirou o personagem. Leitor ardente das teorias de Einstein, Roselano recebe de seu amigo poeta a notícia de que uma comissão de cientistas ingleses está a caminho de Sobral, ao norte do Ceará, com a finalidade de comprovar a teoria da relatividade geral, durante um eclipse total do Sol que ocorrerá em 29 de maio de 1919.

Em comissão particular, na companhia de seu amigo poeta e do papagaio Galileu, Roselano embarca numa viagem que provoca em si uma verdadeira revolução, com a descoberta de outros mundos, novos modos de amar, de se relacionar com os seres humanos, com os próprios sonhos, e consigo mesmo, e a revelação do lado universal da vida que se consome num moto-contínuo. As observações da comissão inglesa, composta pelos cientistas Andrew Crommelin e Charles Davidson, comprovaram a teoria de Einstein que declarou, posteriormente: “A pergunta que minha mente formulou foi respondida pelo ensolarado céu do Brasil”. A teoria da relatividade geral ocasionou uma das maiores revoluções da história humana.

A autora
Voltada para a imaginação e linguagem, dotada de um brasilianismo intenso, Ana Miranda realiza um trabalho de redescoberta do nosso tesouro literário, que a leva a dialogar com autores e obras da literatura nacional. Fundada em séria e vasta pesquisa, recria épocas e situações que se referem à história literária brasileira, mas, primordialmente, dá vida a linguagens perdidas no tempo. Sua obra, de mais de vinte livros, tem sido matéria de estudos na área acadêmica, recebendo teses e monografias geralmente ligadas a questões de literatura & história, barroco brasileiro, romantismo, ou pós-modernidade.

Recebeu prêmios, como Jabutis e da Academia Brasileira de Letras, e a Sereia de Ouro; teve sua obra traduzida em cerca de vinte países, e conquistou expressivo número de leitores no Brasil. Ana Miranda consagrou-se igualmente pela inclusão de Boca do Inferno no cânon dos cem maiores romances em língua portuguesa do século 20, elaborado por estudiosos da literatura, brasileiros e portugueses (O Globo, 5/set/98). Seus principais romances são: Boca do Inferno (1989); A última quimera (1995); Desmundo (1996); Amrik (1998); Dias & Dias (2002); e Yuxin (2009), editados pela Companhia das Letras. Nasceu em 1951 no Ceará, onde vive atualmente, após cinquenta anos entre Rio, Brasília e São Paulo. O peso da luz faz parte de uma série de Novelas cearenses que a autora planeja publicar.

Trecho do livro
“Leve o papagaio”, ela disse. “Ele precisa tomar sol”. Levei acorrentado o Galileu, que andava um pouco esquecido por mim. Eu caminhava, desatento, entregue a devaneios, quando vi que um grupo de senhores se aproximava. Um trio vinha à frente, e meus olhos distinguiram num instante, como um relampejo, aquele homem coberto por um chapéu claro, terno bege amarrotado, bigode escuro, olhos que cintilavam mesmo à sombra do chapéu, andando com as mãos para trás, ladeado por dois senhores que lhe falavam, mostrando as árvores nos flancos da alameda. Era Einstein. Era ele mesmo, em pessoa, não havia nenhuma dúvida, e eu conseguia escutar os batimentos de meu coração.

Entrevista com a autora
A novela O peso da luz, Einstein no Ceará foi escrita para homenagear seu tio-avô, que era inventor?
Sim, claro, é uma história fascinante que corre na minha família, mamãe sempre a repete. Esse tio, que se chamava Inácio Nóbrega, e morava em Cajazeiras da Paraíba, inventou nos anos 1930 um controle remoto, e cedeu os desenhos e cálculos a um viajante alemão, que prometeu patentear o invento em seu país. Mas desapareceu com os esquemas, e meu tio Inácio nunca mais teve notícias. Foi uma consternação para ele e para a família. É uma homenagem aos inventores em todas as áreas, às utopias e quimeras. Mas também é uma homenagem ao Ceará, pois aborda um tema cearense, que é a comprovação da teoria da relatividade geral, de Einstein, ocorrida durante um eclipse em Sobral, em 1919. Para lá foi enviada uma comissão científica com a missão única de comprovar a teoria do cientista nascido na Alemanha. Interessante é que foi na época da Primeira Grande Guerra, e britânicos e alemães eram inimigos. Além da grande conquista científica, que revolucionou o mundo em tantos aspectos, a comprovação foi uma espécie de vitória do espírito de cooperação contra o espírito bélico.

É seu primeiro livro que se passa em sua terra natal, o Ceará?
De certa forma, sim. O Ceará sempre esteve presente em mim, assim como a Paraíba e todo o Nordeste, em alguns de meus modos de ser e ver o mundo. Em Dias & Dias eu pisei pela primeira vez o solo cearense, quando personagens passam por Fortaleza. Eu sentia uma falha no conhecimento de minhas origens, pois saí de Fortaleza aos quatro ou cinco anos de idade. Voltei a morar no Ceará, e a me imbuir de seus elementos culturais, históricos, tenho conhecido muitos aspectos dessa terra, e isso me inspira livros com temas locais.

O fato de a comprovação se passar no Ceará tem alguma relevância para a teoria?

Tem relevância para o Ceará e para o Brasil, por extensão. Tudo o que acontece em nosso país passa a fazer parte de sua história, e tudo deixa consequências que devem ser examinadas, lembranças que devem ser preservadas. O fato traz à luz, por exemplo, aspectos importantes de nossa história científica, como o conflito entre ciência utilitária e ciência pura, ou a dificuldade, falta de tradição, de apoio à pesquisa científica. Pelos relatórios dos cientistas das comissões inglesa e brasileira, podemos verificar nitidamente as nossas dificuldades. E se não tratarmos de nossos temas, se não os conhecermos e examinarmos, e criarmos nossas próprias referências, estaremos sempre como repetidores colonizados de conhecimentos externos, li, dia desses, essa frase no jornal.

Por que a senhora escolheu um poeta para acompanhar o cientista inventor, narrador do livro?
Para tecer laços entre a ciência e a poesia, ambas têm exatidão, ambas se compõem de imaginação e exigem ousadia. Também para criar um parâmetro de comportamento entre duas figuras quase marginalizadas na sociedade, o poeta e o inventor, tidos como quixotescos, por abordarem reinos do conhecimento humano que são essencialmente subjetivos, e saírem em busca do desconhecido. A alma humana e o moto-perpétuo. Einstein achava que a imaginação é mais importante do que o conhecimento. É por essa vereda…

Einstein esteve realmente no Ceará?

Esteve, como símbolo. Na verdade toda arte é simbólica, e a presença dele no Ceará significa a chegada de um novo tempo, e a ânsia de estabelecer contato com o mundo, até mesmo com o tão misterioso universo, com as origens da vida, com os significados da existência, porque a física abstrata tenta vasculhar o mistério, assim como a poesia. Num mundo em que se acreditava em verdades e certezas, houve um momento em que a “realidade” tomou um aspecto relativo. Houve um como que desmanche cultural, uma fragmentação atômica. O livro aborda a questão do sentimento de provincianismo, e o exílio pessoal e cultural. Também, as possibilidades de renovação, um sentimento que inquieta a humanidade, porque encerra o tema da vida & morte.

O narrador do livro dá de presente a Einstein um papagaio. É sabido que Einstein teve em sua casa um papagaio. Qual o significado do papagaio?
O papagaio é um elemento da vida de Einstein, que cuidou de uma dessas aves. O biógrafo Walter Isaacson diz que ele recebeu o papagaio de presente de um centro médico, em 1954, deixaram a ave na porta da sua casa. Einstein andava doente, já no fim da vida, e o presente deve ter sido terapêutico. Talvez ele falasse que gostava de papagaios, talvez já tivesse tido um. Os jornais brasileiros mencionam que durante a visita ao Rio um cidadão lhe entregou um papagaio, e Einstein teria levado essa ave para sua casa. Se for verdade, é fascinante a coincidência, pois deve ter algum significado que pode ser examinado. Soube que o papagaio mais inteligente do mundo, que vivia num zoo nos Estados Unidos, se chamava Einstein. De toda forma, é uma ave bem popular, domesticável, humanizada a tal ponto que chega a repetir os sons, como se falasse, e há uma força afetiva entre essa ave e a pessoa que dela cuida. Levar do Brasil um papagaio pode ser levar um símbolo da nossa natureza e cultura. A inserção do Novo Mundo no Velho Mundo, poderia ser… A invasão da cultura popular, do folclore, na erudita… A natureza que existe na cultura… O idílio da floresta primitiva… Abordagens assim. Para Roselano o papagaio era uma ligação afetiva com Einstein, o personagem lhe ensinava apenas frases em alemão.

A sua admiração por Einstein é patente no livro. Que características desse cientista a entusiasmam?
Tudo nele é entusiasmante, sua personalidade ao mesmo tempo meiga e insolente, seu senso de humor, sua simplicidade e despojamento de bens materiais, e o que ele disse de si mesmo, numa carta a um filho: “a capacidade de se elevar acima da mera existência, sacrificando sua própria pessoa ao longo dos anos em prol de um objetivo impessoal”. E a inteligência brilhante dele, que se expressava em ideias científicas, mas também nas frases que ele despejava com espontaneidade.

O conflito de Einstein, em relação à criação da bomba atômica, não está no livro. Por quê?
Porque se passou depois da ação do livro, que se resume ao período de 1919 a 1925. No entanto, apesar de o narrador ser um apreciador irrestrito do trabalho de Einstein, a polêmica sobre sua vida e obra se encontra nas páginas da novela, dentro das perspectivas da época e local, o Brasil. Apesar de uma pureza apaixonada na visão do narrador, Einstein aparece com suas contradições.

Por que a senhora chama o livro de novela, e não romance?
A novela é um romance abreviado, com trama contida numa só linha de narração, poucos personagens, nada daquela voz polifônica, daquele longo devaneio, fugas, daquelas tramas paralelas, que caracterizam o romance. O peso da luz se encaixa bem melhor nas definições de novela.

A linguagem de O peso da luz é bem mais simples do que a de seus romances. A que se deve isso?

Deve-se à época em que se passa a trama, século 20, não estou recriando nenhuma dicção antiga, e as dicções antigas hoje nos parecem complicadas, quanto mais antigas, mais desconhecidas, dando a sensação de estranheza. Também o fato de ser novela leva à simplificação da estrutura ou vice-versa. E o fato de o narrador ser um homem das ciências exatas. As falas do poeta são bem mais rebuscadas, no livro, inspiradas em Augusto dos Anjos, era o tempo do cientificismo poético, ou da poesia cientificista.

A senhora diz que O peso da luz é a primeira das Novelas Cearenses que pretende escrever. Poderia dizer quais são as outras?
Prefiro guardar segredo. O Ceará tem uma riqueza quase virgem, no campo da literatura histórica, e há temas fabulosos. Sinto que tenho condições de fazer um trabalho nesse sentido, animada por uma espécie de amor natural.

Serviço:
Lançamento em Sobral
Dia 16 de Outubro de 2013
Hora: 19h
Local: Casa da Cultura de Sobral – Avenida Dom José, 881 – Centro – Sobral/CE. (88) 3611-2712

Lançamento em Fortaleza
Data: 18 de outubro de 2013.
Hora: 19 horas
Local: Livraria Cultura – Av. Dom Luís, 1010, Ljs. 8,9 e 10. Fone: (85) 4008.0800
Editora: Armazém da Cultura
Preço de capa: R$ 40,00
ISBN: 978-85-63171- 72 – 6
Fone: (85) 3224.9780