A TRILOGIA VALENTE

Valente por Opção: Vitor Cafaggi

Valente por Opção: Vitor Cafaggi

Recentemente acabei de ler o último (talvez não realmente o último) volume da trilogia Valente, do autor mineiro Vitor Cafaggi. Revendo mental e fisicamente os outros volumes fui tomado pela catártica pergunta: o que foi tudo isso? Valente – para aqueles presos em cápsulas durante os últimos 10 anos – é um garoto (cão) que vive sua hormonal fase da adolescência se apaixonando a cada belo sorriso ou toque inesperado de mãos. Valente Para Sempre, Valente Para Todas e Valente Por Opção é o retrato em quadrinhos de qualquer cara em seu último ano de colégio e primeiro de faculdade. Mais que isso, é um retrato de suas decepções amorosas e da confusa cabeça dos meninos, às voltas com seu gostar e o que fazer, precisando ser “treinados” e “doutrinados” o tempo todo na magnífica arte dos relacionamentos – não raro por ícones do cinema que na vida real não são lá grandes exemplos -, mesmo que seus corações sejam puros e verdadeiros.

Essa sinceridade com que Cafaggi trata seu personagem – na riqueza simples de quem já viveu e aprendeu com a maioria das situações da narrativa – faz a identificação com Valente ser imediata e a transposição da vida do leitor para a do cãozinho adolescente (e vice-versa) é perfeita, completamente sincrônica com a nostalgia revelada em cada página amarelada dos livrinhos. Jogando um olhar mais acurado sob essa sinceridade, há aí uma chance única de conhecer a alma masculina em seu momento mais confuso, mais caótico – o de envolver-se com uma garota. A apreensão em entender os olhares e gestos, o medo do contato visual, o nervosismo durante a troca das primeiras palavras, as ações que deveriam significar uma coisa, mas acabam significando outra, a confusão nas escolhas do primeiro encontro, o “onde por as mãos” ou “afinal, o que fazer com elas”. Tudo isso revela um tipo de “desastramento” dos garotos com seus sentimentos, em como lidar com eles: se revelá-los ou não, como fazer isso, quando fazer isso e principalmente como lidar com erros de julgamento e decisões… é incrível como os homens sofrem com essas dúvidas, e Vitor consegue fazer dessa desastrosa (por que não dizer trágica até?) etapa uma charmosa e delicada comédia onde cada movimento de calda quer dizer mais do que parece.

Esse certamente é um dos grandes trunfos de Vitor: não temer desnudar seus sentimentos, falhas e dúvidas para Valente e, com isso, para seus leitores, transcendendo seu personagem para uma realidade muito mais ampla, bem mais global, revelando detalhes engraçados e desastrosos de caras apaixonados, suas opiniões absurdas e atitudes mais ainda. Talvez nisso esteja a real lição de Vitor e seu Valente: não ter medo, encarar os sentimentos, desnudar-se. Afinal, uma vida (ou uma carreira que inclui alguns prêmios HQ Mix e duas Graphic MSP, uma lançada e outra anunciada) não pode ser feita escondendo-se o tempo todo, né?

Confira a entrevista exclusiva na edição 9 da REVISTA ZINEXT!

O PODER DE UMA PERSONAGEM FEMININA (ou mil questões ainda sem respostas)

O PARADOXO NARRATIVO

Gosto não somente de contar e ler histórias, gosto de saber o que as pessoas que leem, produzem, analisam histórias querem saber sobre estas, quais ideias elas têm, enfim… o que são histórias na vida das pessoas. Recentemente assisti um interessante vídeo do educador Colin Stokes intitulado Como Filmes Ensinam Masculinidade (How Movies teaches Manhood) e dentre as muitas coisas sensatas que ele falou, uma em especial me chamou a atenção: “ensinar aos nossos filhos a se identificarem com essas heroínas [mulheres, de uma forma geral] e dizerem: ‘Eu quero estar no time delas“. O vídeo inteiro vocês podem ver aqui: Como Filmes Ensinam Masculinidade

Um dos conceitos mais básicos da produção de narrativas é a identificação. Os personagens devem ser humanos porque nós só nos identificamos com humanos, ou seja, os personagens devem carregar nossas qualidades, defeitos, sonhos, desejos, fúrias, lamentos, enfim, eles devem ser “nós enquanto humanos”. Sendo assim, qualquer ser (mulheres, homens, bichos, coisas etc) ‘humanizado’ tem um potencial enorme de se tornar o personagem marcante de uma história e, por sua vez, inspirar seus leitores/expectadores/jogadores/consumidores, ensinando-os com exemplos positivos a como encarar a vida ou simplesmente fazendo com que se reconheçam frente a desafios comuns a seus mundos culturais, tendo vitória nisso ou não. No entanto, o número de personagens femininos inspiradores é terrivelmente limitado – pra não dizer quase nulo (e acredito que não é necessário nenhuma pesquisa de grandes universidades para comprovar a veracidade disso). Elas, mulheres, costumam ser a acompanhante, o back up, a tutora, o instrumento, o fetiche, enfim, “a coisa ao lado”, o degrau ou prêmio para o crescimento/amadurecimento/vitória de um personagem principal masculino (muitas vezes, homem, caucasiano, heterossexual, mas não entrarei nesse assunto agora; uma batalha por vez). Quando possui algum protagonismo, não raro elas são masculinizadas e fetichizadas, tornando-se algum tipo de ideário feminino PARA homens e, assim, deixam novamente de ser exemplos, pessoas reais com quem você se identifica, e passam a ser “coisas”, seres tão incomuns e fantásticos (e inferiores) que nem homens nem mulheres se veem naqueles personagens.

Objetivo. Segurança. Certeza. Qual sua desculpa pra não querer ser Mérida?

DESCONSTRUINDO A REALIDADE

Tomando o rumo e os exemplos de Colins na palestra, trago algumas experiências pessoais: a primeira vez que assisti Star Wars: Uma Nova Esperança foi impactante pra mim, como deve ter sido pra vários moleques nos anos de 1970 e 1980 (e ainda é), e a personagem que logo de cara gostei foi a princesa Leia. Ela era a líder dos rebeldes e ela encarava a figura de Darth Vader enquanto todo mundo se borrava de medo dele (até eu). Naquele momento, a postura da Leia me fez querer segui-la, me fez querer ser parte de um grupo no qual a líder era ela. Luke, mesmo em sua evolução final, nunca foi tão forte pra mim quanto a figura inicial de Leia. Imaginem então a decepção que foi quando, durante os outros filmes, ela se tornou “o prêmio” do chato (ao menos pra mim) Han Solo? Decepção pior ainda (anos depois, com uma mente mais madura) quando, na chance de ela ter alguma importância não passiva na trama, eu a vi sendo transformada em um fetiche a la Red Sonja? E isso piora: descobrir que Darth Vader, o cara que matou mundos e mundos que ela tentava salvar, que bateu na porta do planeta dela com uma tropa e uma Estrela da Morte e a aprisionou, é seu pai e… qual foi o impacto disso pra ela? Como essa nova realidade foi explorada no interior da personagem? Alguém lembra da reação ou semblante de Leia ao saber disso? Enfim, uma história de meninos pra meninos sobre seus pais (masculino mesmo, não a “coletivização” do termo).

Até hoje a forma como tratam Leia em SW ainda não me faz um fã completo e sincero da série. Pergunto: qual o problema ou necessidade de manter personagens tão “atuantes” e complexos quanto Luke ou Han ou Chew ou os amalucados Droides R2D2 e C3PO (que várias vezes têm mais função e falas que Leia) e perder a oportunidade de explorar uma história rica como a de uma princesa criada por outra família que quando se viu tendo de liderar um grupo de rebeldes contra um ditador fascista não pensou duas vezes? Por que Leia não pode ter sido, desde o início, uma figura que instruía e guiava Luke, no mínimo? Por que ela não poderia ter sido uma líder muito mais atuante que uma princesinha presa? Por que ela não poderia, quem sabe, ser a real mestre Jedi ali? É uma ideia tão subversiva assim só porque ela é… bem, mulher? Pensemos.

Beatrix Kido, uma personagem feminina forte ou uma figura feminina que foi revestida de símbolos masculinos pra se tornar uma protagonista mais aceitável ao "público"?

Beatrix Kido, uma personagem feminina forte ou uma figura feminina que foi revestida de símbolos masculinos pra se tornar uma protagonista mais aceitável ao “público”?

MAS… QUEM FAZ AS HISTÓRIAS?

Ainda falando do TED e seguindo o raciocínio da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie (no vídeo que vc pode ver acima, mas veja depois, sei que você passou por ele e pensou ‘como é longo’…) eu penso muito naqueles que escrevem as histórias. Bem, quem escreve histórias é quem primeiro consumiu histórias que, por sua vez, foi feita por… homens (ao menos em sua grande maioria). Assim, são homens (héteros, brancos, dominantes etc etc etc) que colocam na cabeça de crianças (sim, as histórias influenciam muito mais nossas crianças que as milhares de horas semanais nas escolas) que meninos são protagonistas de jornadas épicas e meninas são troféus sensuais a serem recebidos – e sim, esse pensamento é ridiculamente simplista assim… e real. São ELES que vivem as jornadas, são ELES os escolhidos, são ELES os líderes, são ELES os que começam frágeis e no final se tornam fortes (saindo da seara da ficção, pensemos em âmbito social: seguindo essa lógica, atores e escritores recebem os melhores papéis, as melhores ideias, as melhores falas, os maiores cachês e se ficam nus ou seminus não são taxados por isso; a atriz Olivia Wilde tem uma entrevista interessante conversando sobre o assunto, mas, novamente, deixemos pra outro momento) e ELAS são… o resto. Às vezes menos que isso. Por que há tanto medo em manter mulheres como protagonistas? Por que um homem (nesse caso, uma criança) não pode se ver numa protagonista feminina? Isso é tão errado assim? Tão irracional? E colocar mulheres pra escreverem suas próprias histórias? Do jeito delas, da forma delas, com a cara delas… por que não? Isso seria tão absurdo assim? Iria tão contrário à realidade de nos vermos como humanos se nos vermos no lugar de mulheres? Se for, acho que temos um problema aí, porque estamos considerando que as mulheres, essa parte tão preciosa da humanidade, não são humanas, porque a existência e história delas são incapazes de criar identificação com quem quer que seja, e a isso me refiro a outras mulheres também. Parece tão paradoxal, pra não dizer absurda, tal ideia.

Isso me lembra um grupo de RPG que jogo. Havia uma jogadorA que durante uma de nossas longas aventuras foi a líder de nosso grupo. Confiávamos cegamente nela porque era a mais sensata do grupo, fato incontestável. O próprio mestre tinha mais confiança em nós porque ela era quem ditava as regras. A segurança de sua personalidade na época era tão forte, que mesmo fora de mesa, nós ainda a víamos como líder, como alguém a quem poderíamos recorrer. No entanto, seu personagem era… homem. Retirando a possibilidade de que ela via interpretar um homem como um desafio, será que a personagem dela teria tido a mesma sorte conosco se fosse mulher? E nós, homens jogadores, arriscaríamos jogar com personagens femininas? Nos colocaríamos no lugar delas? E que tipo de figuras femininas seríamos, ou seja, estaríamos prontos para ficar no lugar delas e SER elas? E se ela decidisse interpretar uma personagem feminina, nós a seguiríamos tão seguramente também?

COLOCANDO AS COISAS NOS SEUS DEVIDOS LUGARES (OU NÃO)

Longe de mim, com esse texto, começar uma cruzada feminista ou machista, não por outra razão, mas porque, no final das contas eu acabaria me contradizendo. Afinal, eu sou homem (branco, hétero, de classe dominante – ao menos em parte) e, como gosto de metaforizar pra dizer que nunca poderei entender como as mulheres sentem ou pensam ou desejam: “não menstruo, nem sinto cólicas”. Fora isso, eu escrevo histórias sobre homens, porque, afinal, essas são as histórias dentro de mim. Meu amadurecimento como escritor tem me levado a tornar essas histórias mais universais, até mesmo me ajudado a contar histórias de mulheres, mas ainda me pego relendo coisas que fiz e dizendo: “hummmm… ‘macho’ demais”. Resumindo, não vou levantar uma bandeira porque posso falhar naturalmente nisso, mas gosto de manter o pensamento de Colins: por que não contar uma história sobre uma mulher a qual eu quero seguir? Que lidere um time o qual eu queira fazer parte? Que seja ainda uma inspiração e que crie em mim o desejo de ser como ela, ter as qualidades que ela tem e ainda assim ela ser uma MULHER, não um homem travestido em fetiche para outros homens? Enfim, eu tenho muito a aprender, mas acho que há aí um ponto interessante de aprendizado pra qualquer um que ainda se veja como um estudante de narrativa (o que, na minha opinião, é qualquer autor, experiente ou não). Até lá, que tal deixarmos as mulheres contarem suas histórias? Que tal abandonarmos a triste máscara da ignorância e nos envolvermos com ELAS e as histórias DELAS e fazermos nossas crianças também se envolverem com isso e também quererem se ver como essas mulheres? Quem sabe assim a questão do respeito pelas mulheres  tão obrigatória e necessária, mas tão pouco lembrada – não precise nunca mais ser ensinada, pois estará já dentro de nós (homens) e de nossos filhos, e netos, e bisnetos…

BÔNUS TRACK

Aos que se perguntam onde encontrar boas fontes pra tentar desenvolver essa visão, eu vou tentar apelar aos clássicos (mesmo que esses ainda sejam muito machistas, então adaptações são necessárias): nas lendas gregas, Atenas (esqueçam a visão Cavaleiros do Zodíaco, por favor) é a deusa da guerra juntamente com seu irmão, Ares, mas este se curvava a ela – também deusa da razão, um dos grandes ideários gregos, em contraposição à selvageria e ao caos – e ter a bênção do senhor da guerra poderia garantir prontidão pra batalha, mas a bênção da divindade feminina era segurança de vitória. Fora isso, Atenas, independente de seu nascimento ou mesmo de sua função, é uma deusa pacifista que recorre às armas quando necessário, mas prefere vencer uma contenda da maneira mais funcional e eficiente possível. Ela é, por si só, uma líder. É uma divindade que, num mundo pagão, eu seguiria, principalmente porque me identifico no etos dela. Acredito piamente que muitos homens se identificariam com ela, na verdade, muitas pessoas. Então, fazendo as devidas adaptações, por que não?

O que você prefere: razão ou destruição? Já parou pra entender as razões da sua resposta pra essa pergunta?

CAPITÃO RAPADURA 40 ANOS – OU COMO AS COISAS PODEM MUDAR A GENTE.

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Eu pensei muito antes de escrever esse texto. Mesmo agora, quando as letras (em sua mordaz brevidade) surgem na tela, eu ainda tenho dúvidas se ele deveria ser escrito. Eu me privei de muitos comentários sobre a obra Capitão Rapadura 40 anos, a qual, com muito zelo e às vezes temperança e um pouco de desistência, dediquei quase dois anos da minha vida (e argumentação) pra ver acontecer, porque sempre acreditei que não fosse minha (na verdade, ainda acho isso), afinal, o personagem foi criado pelo Mino e minha história é uma das mais curtas, somente 4 páginas, e salta mais aos olhos o trabalho do impressionante Cristiano Lopes que o meu texto. No entanto, olhando agora o trabalho terminado, a edição concluída, a beleza de como está, é impossível eu não me furtar a algumas palavras.

Antes de tudo é preciso que eu agradeça a todos os autores que participaram, e eles não são poucos. São 25 artistas cearenses, todos com alguns anos de experiência na área e que poderiam, educadamente ou não, negar terem participado do projeto. Simplesmente porque tomaria seu tempo, muitas vezes tão curto, e porque do primeiro momento até um pouco antes dos três últimos meses do projeto, não havia perspectiva nenhuma de que o álbum seria editado, por isso, recebi muitos “nãos” antes de receber os “sims”.

Por um instante cheguei a não acreditar – mesmo com toda a empolgação de vários autores que me pediram guias de personagem, material de pesquisa, dicas e opiniões – até receber os primeiros layouts. Mesmo naquele momento eu duvidava um pouco,  com aquela sensação de: “será que tem mais além daqui?”. Teve: páginas. Pessoas que fizeram o trabalho em aquarela, mantiveram o preto em branco, usaram técnicas de computador, retículas, montaram equipes… Foi tanta coisa e tudo tão lindo que meu desejo em ver aquilo pronto logo se exasperou. Revi contatos, procurei pessoas, fiz ligações, analisei editais. Apesar do belo trabalho em mãos, ainda havia dúvidas e dúvidas costumam ser respondidas com negativas.

Nesse ínterim, recebi o trabalho de outros autores e, pela primeira vez, vivi o teste de negar artes ou mandar voltar trabalhos. É um momento bem delicado do editor fazer isso, mas é preciso. Quem cuida do projeto sabe o rumo que ele está tomando, por isso é preciso evitar “ruídos” ou trabalhos que não se adequam ao escopo final pretendido. Alguns receberam com profissionalismo, outros nem tanto, mas o pior é quando a informação passa por terceiros e a correção chega como uma negativa e bons trabalhos são deixados de lado porque uma comunicação clara não foi mantida. Isso é uma grande pena mesmo.

Enfim, entrando 2013 – o ano em que a edição deveria ser lançada – novo fôlego foi erguido, influenciado pela boa recepção do público à apresentação da obra no dia do quadrinho nacional, mas depois veio fevereiro e as coisas parecem ter sido deixadas de lado e o desejo amornou de novo. Projetos pessoais tomaram a cena e o Capitão Rapadura sofreu nova derrota, compreensível em certos pontos, mas não menos frustrante.

A partir desse ponto eu estava desesperançado. Os artistas, não quero nem pensar. Tenho certeza que pra eles a coisa toda soava como um deja vu: mais um projeto que não dava certo, mais tempo perdido, mais uma aposta vencida. Comecei a sentir pena de mim mesmo por ter acreditado tanto e, pessoalmente, sentia minha credibilidade abalada. Minha esposa me olhava e dizia: “vai dar certo. Tenha fé” e tudo o que eu pensava era “a fé me trouxe aqui, nesse deserto. E aí? De que adiantou?”, mas guardei o pensamento comigo, na bobagem machista de guardar os problemas pra si e não dividir.

Então, da fonte mais inesperada, da pessoa que eu menos imaginava, veio um convite (ou devo dizer um ultimato?). Ronaldo Barreto estava envolvido com outras coisas, preocupado com tantas coisas que quando ele me ligou afirmando que tinha marcado uma reunião pra mim no Armazém da Cultura eu não acreditei. A lição de humildade dele foi maior ainda porque eu sabia que Ronaldo tinha projetos próprios e eu sei sua qualidade como escritor pra pegar uma oportunidade dessas e fazer um bom trabalho e ganhar uma grana legal pra si mesmo, sem se preocupar com qualquer um. Mas não foi o que ele fez. Ele preferiu lembrar de todos que se empenharam pra fazer essa edição especial e ao invés de pegar a oportunidade pra si, decidiu agarrá-la pra outros. Sem pedir nada, sem exigir nada, sem querer nada. Não há palavras pra agradecer isso. Não há atitudes que se façam pelo outro que paguem isso, porque é um gesto sem preço. O que pude fazer foi convidá-lo a participar com uma introdução e linha do tempo e, novamente, ele mostrou extrema felicidade e humildade ao aceitar o convite como se ele fosse bem menor e mais simples que aquilo tudo. Acho que ele nem desconfia, mas ali ele foi meu herói.

O Armazém da Cultura nos recebeu, viu o material e acreditou em seu potencial. Empregaram todos seus recursos e talentos pra injetar uma qualidade até então impensada por mim e apresentar em pouco tempo uma obra que seria um marco dos quadrinhos cearenses. Foi momento então de mostrar o resultado disso tudo ao Mino, criador do personagem. Um medo inicial, uma dúvida, uma incerteza… no final, lágrimas nos olhos do pai do Rapadura me emocionaram, mas também me aliviaram. Tínhamos acertado. O trabalho de todos não foi em vão. Sorria pr’aquilo tudo com uma coragem vitoriosa, uma alegria contagiante. Mas ainda não era o momento de comemorar, ainda havia o grande teste de público. Sempre o mais assustador.

A obra viajou então para o Festival Internacional de Quadrinhos – FIQ – em Belo Horizonte, mas não recebeu o tratamento esperado pelo público, apesar de agraciada pelos autores presentes. Voltando a terras cearenses, foi lançada na Universidade de Fortaleza, num auditório com pouquíssimas pessoas, a maioria amigos e familiares. Meus medos voltaram, minhas incertezas aumentaram e o Mino somente dizia: “é só o começo”, mas meu coração desacelerava.

Aí veio o dia 30 de novembro de 2013. Auditório da Livraria Cultura em Fortaleza. Casa cheia. Gente sentando no chão. Idosos, jovens, crianças. Eu nunca imaginei em anos que poderia ver algo assim. Dividi o espaço do lançamento com Liz, de Liz e Daniel Brandão, e Brincadeiras de Sol e Mar, do escritor Flávio Paiva. No palanque, esses artistas, Mino e eu. Nervoso como nunca estive antes. Foi tudo mágico. Mino ainda leu uma carta feita pelo Capitão Rapadura. Com louvor, escondi uma lágrima que queria escorrer pelo meu olho. E por mais estranho que fosse, na minha cabeça só tinha uma coisa: “as crianças vão adorar isso aqui”. Coisa de professor, eu acho.

Mesa de autógrafos. Revi amigos, familiares, conheci pessoas novas. Todos estavam felizes. Eu estava cansado. Falando de maneira bem pessoal, fiquei contente ao ver meus avós, que saíram de suas longínquas casas para me ver, me prestigiar. Foi um presente isso. Também revi meu pai. Há um tempo que não nos falamos tanto, mas eu sempre quis que ele visse o que eu fazia. Aquém de qualquer diferença que existe entre nós, ele estava lá e isso significou bastante pra mim. Ele foi o único que recebeu um autógrafo não nas folhas iniciais, mas na minha história. A sempre contagiante alegria de minha mãe encheu o espaço que nos separava. Não dava pra ficar triste com aquilo. Mas, no final das contas, o que mais me comoveu foi o toque no meu braço de minha esposa. Ela  fez um sinal com os olhos, falou ao meu ouvido. Era tudo o que eu precisava. Quando se escolhe uma nova vida, teme-se o que pode vir do outro, as negativas, as exigências, os sacrifícios, os extremos. Ela me mostrou que uma vida se faz juntos e que temer sozinho paralisa, mas temer com outro nos move. Eu sei que os passos que dei não seriam tão seguros se não fossem as certezas dela de que iríamos conseguir. Iríamos, porque uma vida não se faz sozinho, seja em casa, no trabalho ou com os amigos. Por isso que agradeço os elogios dados a mim ao fazer essa edição, mas eles não são somente meus, mas de todos, inclusive daqueles cujos nomes não estão nos livros: nossos professores, amigos e familiares.

Capitão Rapadura 40 anos não é uma obra de um só, mas de várias pessoas, parceiros, amigos, famílias e, por isso, de um estado inteiro, uma nação inteira, porque Rapadura nada mais é que todos nós.

Obrigado, pessoal.

Parafraseado Mino: “é só o começo”.

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