O PODER DE UMA PERSONAGEM FEMININA (ou mil questões ainda sem respostas)

O PARADOXO NARRATIVO

Gosto não somente de contar e ler histórias, gosto de saber o que as pessoas que leem, produzem, analisam histórias querem saber sobre estas, quais ideias elas têm, enfim… o que são histórias na vida das pessoas. Recentemente assisti um interessante vídeo do educador Colin Stokes intitulado Como Filmes Ensinam Masculinidade (How Movies teaches Manhood) e dentre as muitas coisas sensatas que ele falou, uma em especial me chamou a atenção: “ensinar aos nossos filhos a se identificarem com essas heroínas [mulheres, de uma forma geral] e dizerem: ‘Eu quero estar no time delas“. O vídeo inteiro vocês podem ver aqui: Como Filmes Ensinam Masculinidade

Um dos conceitos mais básicos da produção de narrativas é a identificação. Os personagens devem ser humanos porque nós só nos identificamos com humanos, ou seja, os personagens devem carregar nossas qualidades, defeitos, sonhos, desejos, fúrias, lamentos, enfim, eles devem ser “nós enquanto humanos”. Sendo assim, qualquer ser (mulheres, homens, bichos, coisas etc) ‘humanizado’ tem um potencial enorme de se tornar o personagem marcante de uma história e, por sua vez, inspirar seus leitores/expectadores/jogadores/consumidores, ensinando-os com exemplos positivos a como encarar a vida ou simplesmente fazendo com que se reconheçam frente a desafios comuns a seus mundos culturais, tendo vitória nisso ou não. No entanto, o número de personagens femininos inspiradores é terrivelmente limitado – pra não dizer quase nulo (e acredito que não é necessário nenhuma pesquisa de grandes universidades para comprovar a veracidade disso). Elas, mulheres, costumam ser a acompanhante, o back up, a tutora, o instrumento, o fetiche, enfim, “a coisa ao lado”, o degrau ou prêmio para o crescimento/amadurecimento/vitória de um personagem principal masculino (muitas vezes, homem, caucasiano, heterossexual, mas não entrarei nesse assunto agora; uma batalha por vez). Quando possui algum protagonismo, não raro elas são masculinizadas e fetichizadas, tornando-se algum tipo de ideário feminino PARA homens e, assim, deixam novamente de ser exemplos, pessoas reais com quem você se identifica, e passam a ser “coisas”, seres tão incomuns e fantásticos (e inferiores) que nem homens nem mulheres se veem naqueles personagens.

Objetivo. Segurança. Certeza. Qual sua desculpa pra não querer ser Mérida?

DESCONSTRUINDO A REALIDADE

Tomando o rumo e os exemplos de Colins na palestra, trago algumas experiências pessoais: a primeira vez que assisti Star Wars: Uma Nova Esperança foi impactante pra mim, como deve ter sido pra vários moleques nos anos de 1970 e 1980 (e ainda é), e a personagem que logo de cara gostei foi a princesa Leia. Ela era a líder dos rebeldes e ela encarava a figura de Darth Vader enquanto todo mundo se borrava de medo dele (até eu). Naquele momento, a postura da Leia me fez querer segui-la, me fez querer ser parte de um grupo no qual a líder era ela. Luke, mesmo em sua evolução final, nunca foi tão forte pra mim quanto a figura inicial de Leia. Imaginem então a decepção que foi quando, durante os outros filmes, ela se tornou “o prêmio” do chato (ao menos pra mim) Han Solo? Decepção pior ainda (anos depois, com uma mente mais madura) quando, na chance de ela ter alguma importância não passiva na trama, eu a vi sendo transformada em um fetiche a la Red Sonja? E isso piora: descobrir que Darth Vader, o cara que matou mundos e mundos que ela tentava salvar, que bateu na porta do planeta dela com uma tropa e uma Estrela da Morte e a aprisionou, é seu pai e… qual foi o impacto disso pra ela? Como essa nova realidade foi explorada no interior da personagem? Alguém lembra da reação ou semblante de Leia ao saber disso? Enfim, uma história de meninos pra meninos sobre seus pais (masculino mesmo, não a “coletivização” do termo).

Até hoje a forma como tratam Leia em SW ainda não me faz um fã completo e sincero da série. Pergunto: qual o problema ou necessidade de manter personagens tão “atuantes” e complexos quanto Luke ou Han ou Chew ou os amalucados Droides R2D2 e C3PO (que várias vezes têm mais função e falas que Leia) e perder a oportunidade de explorar uma história rica como a de uma princesa criada por outra família que quando se viu tendo de liderar um grupo de rebeldes contra um ditador fascista não pensou duas vezes? Por que Leia não pode ter sido, desde o início, uma figura que instruía e guiava Luke, no mínimo? Por que ela não poderia ter sido uma líder muito mais atuante que uma princesinha presa? Por que ela não poderia, quem sabe, ser a real mestre Jedi ali? É uma ideia tão subversiva assim só porque ela é… bem, mulher? Pensemos.

Beatrix Kido, uma personagem feminina forte ou uma figura feminina que foi revestida de símbolos masculinos pra se tornar uma protagonista mais aceitável ao "público"?

Beatrix Kido, uma personagem feminina forte ou uma figura feminina que foi revestida de símbolos masculinos pra se tornar uma protagonista mais aceitável ao “público”?

MAS… QUEM FAZ AS HISTÓRIAS?

Ainda falando do TED e seguindo o raciocínio da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie (no vídeo que vc pode ver acima, mas veja depois, sei que você passou por ele e pensou ‘como é longo’…) eu penso muito naqueles que escrevem as histórias. Bem, quem escreve histórias é quem primeiro consumiu histórias que, por sua vez, foi feita por… homens (ao menos em sua grande maioria). Assim, são homens (héteros, brancos, dominantes etc etc etc) que colocam na cabeça de crianças (sim, as histórias influenciam muito mais nossas crianças que as milhares de horas semanais nas escolas) que meninos são protagonistas de jornadas épicas e meninas são troféus sensuais a serem recebidos – e sim, esse pensamento é ridiculamente simplista assim… e real. São ELES que vivem as jornadas, são ELES os escolhidos, são ELES os líderes, são ELES os que começam frágeis e no final se tornam fortes (saindo da seara da ficção, pensemos em âmbito social: seguindo essa lógica, atores e escritores recebem os melhores papéis, as melhores ideias, as melhores falas, os maiores cachês e se ficam nus ou seminus não são taxados por isso; a atriz Olivia Wilde tem uma entrevista interessante conversando sobre o assunto, mas, novamente, deixemos pra outro momento) e ELAS são… o resto. Às vezes menos que isso. Por que há tanto medo em manter mulheres como protagonistas? Por que um homem (nesse caso, uma criança) não pode se ver numa protagonista feminina? Isso é tão errado assim? Tão irracional? E colocar mulheres pra escreverem suas próprias histórias? Do jeito delas, da forma delas, com a cara delas… por que não? Isso seria tão absurdo assim? Iria tão contrário à realidade de nos vermos como humanos se nos vermos no lugar de mulheres? Se for, acho que temos um problema aí, porque estamos considerando que as mulheres, essa parte tão preciosa da humanidade, não são humanas, porque a existência e história delas são incapazes de criar identificação com quem quer que seja, e a isso me refiro a outras mulheres também. Parece tão paradoxal, pra não dizer absurda, tal ideia.

Isso me lembra um grupo de RPG que jogo. Havia uma jogadorA que durante uma de nossas longas aventuras foi a líder de nosso grupo. Confiávamos cegamente nela porque era a mais sensata do grupo, fato incontestável. O próprio mestre tinha mais confiança em nós porque ela era quem ditava as regras. A segurança de sua personalidade na época era tão forte, que mesmo fora de mesa, nós ainda a víamos como líder, como alguém a quem poderíamos recorrer. No entanto, seu personagem era… homem. Retirando a possibilidade de que ela via interpretar um homem como um desafio, será que a personagem dela teria tido a mesma sorte conosco se fosse mulher? E nós, homens jogadores, arriscaríamos jogar com personagens femininas? Nos colocaríamos no lugar delas? E que tipo de figuras femininas seríamos, ou seja, estaríamos prontos para ficar no lugar delas e SER elas? E se ela decidisse interpretar uma personagem feminina, nós a seguiríamos tão seguramente também?

COLOCANDO AS COISAS NOS SEUS DEVIDOS LUGARES (OU NÃO)

Longe de mim, com esse texto, começar uma cruzada feminista ou machista, não por outra razão, mas porque, no final das contas eu acabaria me contradizendo. Afinal, eu sou homem (branco, hétero, de classe dominante – ao menos em parte) e, como gosto de metaforizar pra dizer que nunca poderei entender como as mulheres sentem ou pensam ou desejam: “não menstruo, nem sinto cólicas”. Fora isso, eu escrevo histórias sobre homens, porque, afinal, essas são as histórias dentro de mim. Meu amadurecimento como escritor tem me levado a tornar essas histórias mais universais, até mesmo me ajudado a contar histórias de mulheres, mas ainda me pego relendo coisas que fiz e dizendo: “hummmm… ‘macho’ demais”. Resumindo, não vou levantar uma bandeira porque posso falhar naturalmente nisso, mas gosto de manter o pensamento de Colins: por que não contar uma história sobre uma mulher a qual eu quero seguir? Que lidere um time o qual eu queira fazer parte? Que seja ainda uma inspiração e que crie em mim o desejo de ser como ela, ter as qualidades que ela tem e ainda assim ela ser uma MULHER, não um homem travestido em fetiche para outros homens? Enfim, eu tenho muito a aprender, mas acho que há aí um ponto interessante de aprendizado pra qualquer um que ainda se veja como um estudante de narrativa (o que, na minha opinião, é qualquer autor, experiente ou não). Até lá, que tal deixarmos as mulheres contarem suas histórias? Que tal abandonarmos a triste máscara da ignorância e nos envolvermos com ELAS e as histórias DELAS e fazermos nossas crianças também se envolverem com isso e também quererem se ver como essas mulheres? Quem sabe assim a questão do respeito pelas mulheres  tão obrigatória e necessária, mas tão pouco lembrada – não precise nunca mais ser ensinada, pois estará já dentro de nós (homens) e de nossos filhos, e netos, e bisnetos…

BÔNUS TRACK

Aos que se perguntam onde encontrar boas fontes pra tentar desenvolver essa visão, eu vou tentar apelar aos clássicos (mesmo que esses ainda sejam muito machistas, então adaptações são necessárias): nas lendas gregas, Atenas (esqueçam a visão Cavaleiros do Zodíaco, por favor) é a deusa da guerra juntamente com seu irmão, Ares, mas este se curvava a ela – também deusa da razão, um dos grandes ideários gregos, em contraposição à selvageria e ao caos – e ter a bênção do senhor da guerra poderia garantir prontidão pra batalha, mas a bênção da divindade feminina era segurança de vitória. Fora isso, Atenas, independente de seu nascimento ou mesmo de sua função, é uma deusa pacifista que recorre às armas quando necessário, mas prefere vencer uma contenda da maneira mais funcional e eficiente possível. Ela é, por si só, uma líder. É uma divindade que, num mundo pagão, eu seguiria, principalmente porque me identifico no etos dela. Acredito piamente que muitos homens se identificariam com ela, na verdade, muitas pessoas. Então, fazendo as devidas adaptações, por que não?

O que você prefere: razão ou destruição? Já parou pra entender as razões da sua resposta pra essa pergunta?

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O peso da luz – Einstein no Ceará

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A editora Armazém da Cultura, sediada em Fortaleza, Ceará, tem o prazer de apresentar o novo livro de Ana Miranda, O peso da luz, Einstein no Ceará.

“A novela O peso da luz conseguiu um equilíbrio raro, muito bonito, entre poesia e ciência, mas sem perdas ou sacrifício, sem dependências coloniais, e ao mesmo tempo a história envolve, prende, nos requer de modo exclusivo, mas sem arenosas paradidáticas, do jeito que só Ana Miranda sabe fazer, sem diminuição, com todas as cores possíveis, polifônico plural e todo um céu que se abre, com analogias entre aquele e este chão, o chão do Ceará ou de qualquer parte do mundo (não pela fria abstração) mas pelas secretas leis das similitudes de uma prosa poética enxuta e que nos convoca a imaginar um mundo precioso e solidário.”
Marco Lucchesi

Construído com elementos da biografia de Albert Einstein, O Peso da luz trata de um amante da ciência que conta suas memórias, Roselano Rolim – relojoeiro e inventor de uma máquina utópica, um moto-perpétuo estelar –, uma espécie de Quixote nascido em Cajazeiras. Na mesma cidade paraibana viveu um tio-avô da autora, que nos anos 1930 inventou um controle remoto, e inspirou o personagem. Leitor ardente das teorias de Einstein, Roselano recebe de seu amigo poeta a notícia de que uma comissão de cientistas ingleses está a caminho de Sobral, ao norte do Ceará, com a finalidade de comprovar a teoria da relatividade geral, durante um eclipse total do Sol que ocorrerá em 29 de maio de 1919.

Em comissão particular, na companhia de seu amigo poeta e do papagaio Galileu, Roselano embarca numa viagem que provoca em si uma verdadeira revolução, com a descoberta de outros mundos, novos modos de amar, de se relacionar com os seres humanos, com os próprios sonhos, e consigo mesmo, e a revelação do lado universal da vida que se consome num moto-contínuo. As observações da comissão inglesa, composta pelos cientistas Andrew Crommelin e Charles Davidson, comprovaram a teoria de Einstein que declarou, posteriormente: “A pergunta que minha mente formulou foi respondida pelo ensolarado céu do Brasil”. A teoria da relatividade geral ocasionou uma das maiores revoluções da história humana.

A autora
Voltada para a imaginação e linguagem, dotada de um brasilianismo intenso, Ana Miranda realiza um trabalho de redescoberta do nosso tesouro literário, que a leva a dialogar com autores e obras da literatura nacional. Fundada em séria e vasta pesquisa, recria épocas e situações que se referem à história literária brasileira, mas, primordialmente, dá vida a linguagens perdidas no tempo. Sua obra, de mais de vinte livros, tem sido matéria de estudos na área acadêmica, recebendo teses e monografias geralmente ligadas a questões de literatura & história, barroco brasileiro, romantismo, ou pós-modernidade.

Recebeu prêmios, como Jabutis e da Academia Brasileira de Letras, e a Sereia de Ouro; teve sua obra traduzida em cerca de vinte países, e conquistou expressivo número de leitores no Brasil. Ana Miranda consagrou-se igualmente pela inclusão de Boca do Inferno no cânon dos cem maiores romances em língua portuguesa do século 20, elaborado por estudiosos da literatura, brasileiros e portugueses (O Globo, 5/set/98). Seus principais romances são: Boca do Inferno (1989); A última quimera (1995); Desmundo (1996); Amrik (1998); Dias & Dias (2002); e Yuxin (2009), editados pela Companhia das Letras. Nasceu em 1951 no Ceará, onde vive atualmente, após cinquenta anos entre Rio, Brasília e São Paulo. O peso da luz faz parte de uma série de Novelas cearenses que a autora planeja publicar.

Trecho do livro
“Leve o papagaio”, ela disse. “Ele precisa tomar sol”. Levei acorrentado o Galileu, que andava um pouco esquecido por mim. Eu caminhava, desatento, entregue a devaneios, quando vi que um grupo de senhores se aproximava. Um trio vinha à frente, e meus olhos distinguiram num instante, como um relampejo, aquele homem coberto por um chapéu claro, terno bege amarrotado, bigode escuro, olhos que cintilavam mesmo à sombra do chapéu, andando com as mãos para trás, ladeado por dois senhores que lhe falavam, mostrando as árvores nos flancos da alameda. Era Einstein. Era ele mesmo, em pessoa, não havia nenhuma dúvida, e eu conseguia escutar os batimentos de meu coração.

Entrevista com a autora
A novela O peso da luz, Einstein no Ceará foi escrita para homenagear seu tio-avô, que era inventor?
Sim, claro, é uma história fascinante que corre na minha família, mamãe sempre a repete. Esse tio, que se chamava Inácio Nóbrega, e morava em Cajazeiras da Paraíba, inventou nos anos 1930 um controle remoto, e cedeu os desenhos e cálculos a um viajante alemão, que prometeu patentear o invento em seu país. Mas desapareceu com os esquemas, e meu tio Inácio nunca mais teve notícias. Foi uma consternação para ele e para a família. É uma homenagem aos inventores em todas as áreas, às utopias e quimeras. Mas também é uma homenagem ao Ceará, pois aborda um tema cearense, que é a comprovação da teoria da relatividade geral, de Einstein, ocorrida durante um eclipse em Sobral, em 1919. Para lá foi enviada uma comissão científica com a missão única de comprovar a teoria do cientista nascido na Alemanha. Interessante é que foi na época da Primeira Grande Guerra, e britânicos e alemães eram inimigos. Além da grande conquista científica, que revolucionou o mundo em tantos aspectos, a comprovação foi uma espécie de vitória do espírito de cooperação contra o espírito bélico.

É seu primeiro livro que se passa em sua terra natal, o Ceará?
De certa forma, sim. O Ceará sempre esteve presente em mim, assim como a Paraíba e todo o Nordeste, em alguns de meus modos de ser e ver o mundo. Em Dias & Dias eu pisei pela primeira vez o solo cearense, quando personagens passam por Fortaleza. Eu sentia uma falha no conhecimento de minhas origens, pois saí de Fortaleza aos quatro ou cinco anos de idade. Voltei a morar no Ceará, e a me imbuir de seus elementos culturais, históricos, tenho conhecido muitos aspectos dessa terra, e isso me inspira livros com temas locais.

O fato de a comprovação se passar no Ceará tem alguma relevância para a teoria?

Tem relevância para o Ceará e para o Brasil, por extensão. Tudo o que acontece em nosso país passa a fazer parte de sua história, e tudo deixa consequências que devem ser examinadas, lembranças que devem ser preservadas. O fato traz à luz, por exemplo, aspectos importantes de nossa história científica, como o conflito entre ciência utilitária e ciência pura, ou a dificuldade, falta de tradição, de apoio à pesquisa científica. Pelos relatórios dos cientistas das comissões inglesa e brasileira, podemos verificar nitidamente as nossas dificuldades. E se não tratarmos de nossos temas, se não os conhecermos e examinarmos, e criarmos nossas próprias referências, estaremos sempre como repetidores colonizados de conhecimentos externos, li, dia desses, essa frase no jornal.

Por que a senhora escolheu um poeta para acompanhar o cientista inventor, narrador do livro?
Para tecer laços entre a ciência e a poesia, ambas têm exatidão, ambas se compõem de imaginação e exigem ousadia. Também para criar um parâmetro de comportamento entre duas figuras quase marginalizadas na sociedade, o poeta e o inventor, tidos como quixotescos, por abordarem reinos do conhecimento humano que são essencialmente subjetivos, e saírem em busca do desconhecido. A alma humana e o moto-perpétuo. Einstein achava que a imaginação é mais importante do que o conhecimento. É por essa vereda…

Einstein esteve realmente no Ceará?

Esteve, como símbolo. Na verdade toda arte é simbólica, e a presença dele no Ceará significa a chegada de um novo tempo, e a ânsia de estabelecer contato com o mundo, até mesmo com o tão misterioso universo, com as origens da vida, com os significados da existência, porque a física abstrata tenta vasculhar o mistério, assim como a poesia. Num mundo em que se acreditava em verdades e certezas, houve um momento em que a “realidade” tomou um aspecto relativo. Houve um como que desmanche cultural, uma fragmentação atômica. O livro aborda a questão do sentimento de provincianismo, e o exílio pessoal e cultural. Também, as possibilidades de renovação, um sentimento que inquieta a humanidade, porque encerra o tema da vida & morte.

O narrador do livro dá de presente a Einstein um papagaio. É sabido que Einstein teve em sua casa um papagaio. Qual o significado do papagaio?
O papagaio é um elemento da vida de Einstein, que cuidou de uma dessas aves. O biógrafo Walter Isaacson diz que ele recebeu o papagaio de presente de um centro médico, em 1954, deixaram a ave na porta da sua casa. Einstein andava doente, já no fim da vida, e o presente deve ter sido terapêutico. Talvez ele falasse que gostava de papagaios, talvez já tivesse tido um. Os jornais brasileiros mencionam que durante a visita ao Rio um cidadão lhe entregou um papagaio, e Einstein teria levado essa ave para sua casa. Se for verdade, é fascinante a coincidência, pois deve ter algum significado que pode ser examinado. Soube que o papagaio mais inteligente do mundo, que vivia num zoo nos Estados Unidos, se chamava Einstein. De toda forma, é uma ave bem popular, domesticável, humanizada a tal ponto que chega a repetir os sons, como se falasse, e há uma força afetiva entre essa ave e a pessoa que dela cuida. Levar do Brasil um papagaio pode ser levar um símbolo da nossa natureza e cultura. A inserção do Novo Mundo no Velho Mundo, poderia ser… A invasão da cultura popular, do folclore, na erudita… A natureza que existe na cultura… O idílio da floresta primitiva… Abordagens assim. Para Roselano o papagaio era uma ligação afetiva com Einstein, o personagem lhe ensinava apenas frases em alemão.

A sua admiração por Einstein é patente no livro. Que características desse cientista a entusiasmam?
Tudo nele é entusiasmante, sua personalidade ao mesmo tempo meiga e insolente, seu senso de humor, sua simplicidade e despojamento de bens materiais, e o que ele disse de si mesmo, numa carta a um filho: “a capacidade de se elevar acima da mera existência, sacrificando sua própria pessoa ao longo dos anos em prol de um objetivo impessoal”. E a inteligência brilhante dele, que se expressava em ideias científicas, mas também nas frases que ele despejava com espontaneidade.

O conflito de Einstein, em relação à criação da bomba atômica, não está no livro. Por quê?
Porque se passou depois da ação do livro, que se resume ao período de 1919 a 1925. No entanto, apesar de o narrador ser um apreciador irrestrito do trabalho de Einstein, a polêmica sobre sua vida e obra se encontra nas páginas da novela, dentro das perspectivas da época e local, o Brasil. Apesar de uma pureza apaixonada na visão do narrador, Einstein aparece com suas contradições.

Por que a senhora chama o livro de novela, e não romance?
A novela é um romance abreviado, com trama contida numa só linha de narração, poucos personagens, nada daquela voz polifônica, daquele longo devaneio, fugas, daquelas tramas paralelas, que caracterizam o romance. O peso da luz se encaixa bem melhor nas definições de novela.

A linguagem de O peso da luz é bem mais simples do que a de seus romances. A que se deve isso?

Deve-se à época em que se passa a trama, século 20, não estou recriando nenhuma dicção antiga, e as dicções antigas hoje nos parecem complicadas, quanto mais antigas, mais desconhecidas, dando a sensação de estranheza. Também o fato de ser novela leva à simplificação da estrutura ou vice-versa. E o fato de o narrador ser um homem das ciências exatas. As falas do poeta são bem mais rebuscadas, no livro, inspiradas em Augusto dos Anjos, era o tempo do cientificismo poético, ou da poesia cientificista.

A senhora diz que O peso da luz é a primeira das Novelas Cearenses que pretende escrever. Poderia dizer quais são as outras?
Prefiro guardar segredo. O Ceará tem uma riqueza quase virgem, no campo da literatura histórica, e há temas fabulosos. Sinto que tenho condições de fazer um trabalho nesse sentido, animada por uma espécie de amor natural.

Serviço:
Lançamento em Sobral
Dia 16 de Outubro de 2013
Hora: 19h
Local: Casa da Cultura de Sobral – Avenida Dom José, 881 – Centro – Sobral/CE. (88) 3611-2712

Lançamento em Fortaleza
Data: 18 de outubro de 2013.
Hora: 19 horas
Local: Livraria Cultura – Av. Dom Luís, 1010, Ljs. 8,9 e 10. Fone: (85) 4008.0800
Editora: Armazém da Cultura
Preço de capa: R$ 40,00
ISBN: 978-85-63171- 72 – 6
Fone: (85) 3224.9780

NOTA INFORMATIVA: SOBRE CROWDFUNDINGS

Há alguns anos, sites como o Catarse ou o Kickstarter popularizaram um novo conceito de arrecadação de verbas: o crowdfunding, ou financiamento coletivo, que basicamente consiste em arrecadar capital para desenvolvimento de diversos projetos, tornando os interessados em ver aquele projeto realizado como financiadores diretos. O sucesso da iniciativa é tanto que o número de projetos (entre eles, uma grande quantidade de quadrinhos) desde a abertura desses sites em pouquíssimo tempo chegou a números inesperados. O Catarse, por exemplo, relatou uma arrecadação quase 4x maior de seu primeiro ano (2011) pra cá. Esse tipo de plataforma se tornou um incentivo único a produtores e artistas independentes, além de oferecer mais opções de arte, entretenimento e cultura foras do circuito considerado de mercado de massa.
No entanto, será que o financiamento coletivo é amplamente compreendido por todos?
Em uma nota enviada por Milena Azevedo, ela fala sobre essa dificuldade:
Bom dia a todos!
Não sei como os demais membros da equipe estão vivenciando a apresentação do Catarse e do nosso projeto para amigos e familiares. O fato é que comigo tem acontecido situações tragicômicas.
A mais recorrente é de pessoas que estão me dando dinheiro para que eu faça a contribuição. Já expliquei que isso não é legal porque o nome dessas pessoas não vai aparecer e vai ficar chato também pelo fato de que fica parecendo que só eu estou contribuindo.
Mas a situação na qual estamos não me permite negar as quantias. Ontem eu depositei dois mil reais, sendo mil reais doados por vovó (aí tudo bem), mais quinhentos reais do meu bolso e outros quinhentos divididos em cinco pessoas que doaram cem reais. Resultado, meu cartão chegou ao limite mensal que posso gastar.
E assim que acabei de fazer a contribuição gorda, me chegou mais um pedido de contribuição ‘anônima’. 
As pessoas que não estão no nosso meio quadrinístico e que não tem muita afinidade com compra virtual somam um montante dos meus contatos extras.
Já ouvi até isso: ‘se você tivesse o gibi aqui eu comprava na hora!’.
Isso comprova que as pessoas, em sua maioria, não entendem o financiamento colaborativo.
Os amigos(as) de mainha do facebook acham que curtindo o link já estão contribuindo. É sério.
Estou enviando o tutorial abaixo para vocês compartilharem com amigos, colegas e familiares, explicando que não é um bicho de sete cabeças fazer o cadastro no Catarse.
Tutorial de como contribuir com os projetos do Catarse
Estou recebendo o retorno de alguns amigos que querem adquirir um exemplar da coletânea Visualizando Citações (http://provc.blogspot.com.br/) na pré-venda do projeto no Catarse, mas não sabem como fazê-lo.

É muito simples. Sigam minhas instruções que não tem erro:
1°) Vá até o site do Catarse.me: http://catarse.me/
2°) Na barra superior, clique em CADASTRE-SE. Aqui você tem a opção de digitar Nome, e-mail, senha ou entrar via sua conta do facebook (agora é a única rede social permitida para cadastro);
3°) Com o cadastro feito, você entra na nossa página e escolhe o valor que quer contribuir: http://catarse.me/pt/provc
4°) Depois você é direcionado a fazer o cadastro no Moip (basta preencher seus dados e escolher a forma de pagamento desejada, cartão de crédito ou boleto bancário)
5°) Você recebe uma mensagem dizendo que é um dos apoiadores do projeto Visualizando Citações e vai receber um e-mail do Moip.

Abaixo está o link de um vídeo que mostra esse passo-a-passo, embora algumas coisas da interface do Catarse tenham mudado um pouco, o procedimento é o mesmo:

http://vimeo.com/18998742#

Não se preocupem que o Moip só repassa o valor das contribuições no final da campanha, então o dinheiro de vocês fica lá guardadinho.

Milena
A mensagem de Milena – e possivelmente ela não é a única – demonstra uma realidade sentida há algum tempo para os produtores independentes de quadrinhos: uma parte de seu público ainda está arraigada em antigas formas de consumo e distribuição e isso tem causado algumas confusões na aceitação de novas formas de apreciação de artistas ainda desconhecidos do grande público e, ao invés de ampliar o número de consumidores daquele produto, tem setorizado-o ainda mais, fazendo com que os que não querem ou não tem paciência de se inteirarem das ferramentas digitais acabem excluindo a si mesmos desses novos universos, esperando obras que nunca chegarão em bancas e se sentindo enganados ou desesperançados com isso.
Como sempre, no entanto, isso não é o fim do mundo ou a falha de uma geração inteira ou de um movimento moderno. Comunicação faz-se necessário. O financiamento coletivo é uma realidade patente, uma ponta de presente direcionada a um futuro onde cada dia mais os interessados por algo buscarão esse algo da forma como desejam e utilizando-se de sua fé pessoal, criatividade e recursos próprios, investindo seu tempo, energia e dinheiro naquilo que acreditam, mas é preciso informação. Até agora só vi Milena Azevedo apresentar o problema e preocupar-se em trazer informações sobre como resolvê-lo, mas, como dito antes, acredito que ela não é a única e acho que mais experiências dos que buscam financiamento e das dificuldades que passam deve ser compartilhadas.

CONSTRUINDO MUNDOS, NARRANDO HISTÓRIAS

Uma das grandes razões de existir de uma história é a capacidade de nos levar a outros mundos, nos tirar de nossa muitas vezes tediosa realidade e nos colocar dentro de um universo único – mesmo que este realmente exista em outro canto do planeta ou seja mesmo o nosso, mas sob o ponto de vista particular de um artista – à parte do espaço, tempo e continuun em que estamos. Criar um novo mundo é dar base de sustentação a uma narrativa, entregando um conjunto de regras do que é possível ou não dentro dela. Enfim, é a “gravidade” (em termos de força física) de uma história, ou seja, a lei mais básica de sua existência, e que dá sustentação e segurança aos personagens nela inseridos e aos leitores e espectadores desta.

Clover, do Clamp, é um mundo construído se utilizando da temática do steampunk.

Importante perceber que criar um mundo vai muito além da simples feitura do cenário. Ele está muito mais próximo de uma ambientação psicossocial, dando ao leitor um conjuntos de crenças, regras, posturas, estereótipos, culturas e limitações, do que uma simples reprise ou modificação de coisas reais. Um “universo” eficiente é visualmente explicado nos primeiros segundos de um filme ou nas primeiras 2 páginas de um impresso e compreendido com a mesma velocidade, e ainda é mentalmente marcante mesmo quando abandonamos a obra, bastando um ou dois elementos para nos remetermos imediatamente a ele. Bons exemplos para isso não faltam, desde Senhor dos Anéis a Blade Runner. Ridley Scott, por sinal, é um dos melhores criadores de universos de Hollywood. Uma crônica sobre o significado da força de um novo universo bem feito veio do set de Thor: Anthony Hopkins, um dos mais celebrados atores do cinema, ao ver o elenco (Tom Hiddleston – Loki e Chris Hemsworth – Thor, entre outros) com as indumentárias e bem alocados nos incríveis cenários, olhou para Hemsworth e disse: “Nem precisamos atuar. As roupas já fazem todo o trabalho”.

Jean “Moebius” Giraud foi, possivelmente, o maior criador de mundos que os quadrinhos já viram. Em suas mãos, nada era pequeno, pelo contrário, tudo tomava uma dimensão completamente épica.

Logicamente, desde a mais simplória fantasia a mais longínqua região do espaço, passando pela massacrante realidade, antes de terem o formato e escopo final que recebemos nos cinemas ou impressos, os “novos mundos” tomam como base elementos do mundo real, os quais são estudados e trabalhados e reincorporados a outros, indo de formas mais complexas a mais simples e vice-versa, mas que sempre definem não somente os locais, mas os seres de lá, como são, o que são, como vivem, o que pensam, suas histórias prévias e preparações para o futuro e como tudo isso coexiste e influencia suas formas de perceber o mundo e reinterpretá-lo. É patente a pesquisa que James Cameron fez para construir o mundo de Avatar, chegando a passar dias na selva amazônica e entre os índios, incorporando aquele mundo real em sua fictícia Pandora.

Nausicä no Vale dos Ventos, além de um grande trabalho de Hayao Myiazaki, também é uma aula de como construir mundos de fantasia através de elementos do mundo real de forma harmoniosa e chamativa.

Aí está a verdadeira magia de um novo mundo, de um universo criado, ele sempre deve ser, de alguma forma, um simulacro do nosso próprio mundo, de nossa própria realidade e, por isso, de nós mesmos. Se o receptor (leitor, espectador, consumidor), mesmo afundado em efeitos especiais de máquinas gigantescas ou repleto por magia primordial, não reconhecer símbolos e elementos comuns a seu arcabouço (sejam eles simpáticos ou não ao seu gosto), haverá uma certa ojeriza à obra e uma alienização que pode ser perniciosa ao trabalho. Voltando ao exemplo de Cameron, Pandora, por mais imaginativa que fosse, era formada por folhas, montanhas, arbustos, animais alados e terrestres que se comportavam em estruturas semelhantes às nossas e os espectadores reconheciam e simpatizavam com aquilo porque ainda eram elementos que eles entendiam, mesmo que “cartunizados”, idealizados e fantasiados.

Resumindo, criar mundos nada mais é que fazer a mais simples e importante regra da produção artística: tornar seu trabalho humano.