Boas Histórias são Eternas

Especial para a RIvista. Saiba como adquirir edições através do e-mail: redacaorivista@gmail.com ToyStoryBanner Existe uma verdade inegável na arte: o que é bom é apreciado, mas o que é excepcional é eterno. As pessoas não estavam preparadas para Toy Story quando ele foi lançado em 1994. Não estavam porque a maioria foi ver um filme de animação com modelos tridimensionais, diferentes da animação clássica desenhada, e se depararam com um filme em que o 3D nada mais era que um detalhe. Toy Story não é simplesmente uma animação utilizando uma técnica moderna, mas realmente um fantástico filme com personagens cativantes e uma história muito bem contada. Não há frames desnecessários ou falas que servem somente pra enfeitar, tudo possui sua função para permitir que a narrativa ganhe fluidez e divirta e encante o espectador. “Um filme sobre amigos”, pelas palavras de John Lasseter, um dos diretores da produção, na época chefe da Pixar e hoje principal diretor de animação da Disney. Até Toy Story, os filmes de animação americanos tinham caído em uma mesmice levada pelo “padrão Disney de animação”: personagens fofinhos, incorruptíveis em sua estrutura psicológica linear, canções que embalavam os momentos chaves dos filmes, e uma narrativa previsível que encantava em sua plasticidade e beleza, mas se tornava muitas vezes vazia depois que se saía do cinema. Dessa época, poucos ficaram na lembrança do público, sendo O Rei Leão o principal – diga-se de passagem, completamente inspirado nas clássicas (e eternas) tragédias de Shakespeare e em Kimba, de Osamu Tezuka, o pai do mangá moderno e um mestre em desenvolver personagens interessantes. Logo em seu começo, o filme dos brinquedos da Pixar mostra que veio derrubar “paradigmas” ao introduzir de um jeito humanamente atraente cada um dos personagens. Para quem não lembra, a história começa com os brinquedos velhos preocupados em qual brinquedo novo seu dono, Andy, ganharia, futuramente os substituindo por causa disso. Woody, o cowboy “líder” da turma, tenta ser racional e, em um discurso motivador, mostra aos companheiros que nada vai acontecer, pois Andy ama todos eles. No entanto, Woody tem toda sua dramaticidade reduzida quando um dos colegas diz que ele só fala isso porque não tem o que se preocupar, pois é o preferido do garoto. Quando o novo brinquedo surge, para a supresa de todos, o único que é realmente deixado de lado é Woody, superado por um charmoso e heroico brinquedo espacial, o astronauta Buzz Lightyear. Assim, em menos de 40 minutos, medo do abandono, frustração, desespero e inveja são os temas mostrados, todos terríveis sentimentos humanos, mas interpretados com magia e sagacidade por brinquedos em um filme para todas as idades. Aí está o grande pulo do gato de Toy Story e a razão por ter elevado os padrões da animação: trazer personagens humanos em histórias fantásticas, mas críveis, em um enredo que permeia temas que vão muito além da simplicidade infantil, mas conseguem atingir até o mais experiente adulto, emocionando o público com a maestria dos grandes contadores de história, como o já citado bardo inglês, sem ter de usar de elementos apelativos, violentos ou piadas de duplo sentido. Mais do que técnica, Toy Story tem o coração dos imortais clássicos. Daqueles que são pedras fundamentais na história da Arte. Apesar deste artigo, o verdadeiro segredo de Toy Story talvez esteja numa das frases iniciais de Woody, a qual reproduzo aqui: “O importante é estarmos disponíveis para o Andy quando ele precisar de nós. É pra isso que a gente existe, não?”. Troque Andy para “público” e a metáfora fará todo sentido: é para ele que as boas histórias do cinema existem, não?

A TRILOGIA VALENTE

Valente por Opção: Vitor Cafaggi

Valente por Opção: Vitor Cafaggi

Recentemente acabei de ler o último (talvez não realmente o último) volume da trilogia Valente, do autor mineiro Vitor Cafaggi. Revendo mental e fisicamente os outros volumes fui tomado pela catártica pergunta: o que foi tudo isso? Valente – para aqueles presos em cápsulas durante os últimos 10 anos – é um garoto (cão) que vive sua hormonal fase da adolescência se apaixonando a cada belo sorriso ou toque inesperado de mãos. Valente Para Sempre, Valente Para Todas e Valente Por Opção é o retrato em quadrinhos de qualquer cara em seu último ano de colégio e primeiro de faculdade. Mais que isso, é um retrato de suas decepções amorosas e da confusa cabeça dos meninos, às voltas com seu gostar e o que fazer, precisando ser “treinados” e “doutrinados” o tempo todo na magnífica arte dos relacionamentos – não raro por ícones do cinema que na vida real não são lá grandes exemplos -, mesmo que seus corações sejam puros e verdadeiros.

Essa sinceridade com que Cafaggi trata seu personagem – na riqueza simples de quem já viveu e aprendeu com a maioria das situações da narrativa – faz a identificação com Valente ser imediata e a transposição da vida do leitor para a do cãozinho adolescente (e vice-versa) é perfeita, completamente sincrônica com a nostalgia revelada em cada página amarelada dos livrinhos. Jogando um olhar mais acurado sob essa sinceridade, há aí uma chance única de conhecer a alma masculina em seu momento mais confuso, mais caótico – o de envolver-se com uma garota. A apreensão em entender os olhares e gestos, o medo do contato visual, o nervosismo durante a troca das primeiras palavras, as ações que deveriam significar uma coisa, mas acabam significando outra, a confusão nas escolhas do primeiro encontro, o “onde por as mãos” ou “afinal, o que fazer com elas”. Tudo isso revela um tipo de “desastramento” dos garotos com seus sentimentos, em como lidar com eles: se revelá-los ou não, como fazer isso, quando fazer isso e principalmente como lidar com erros de julgamento e decisões… é incrível como os homens sofrem com essas dúvidas, e Vitor consegue fazer dessa desastrosa (por que não dizer trágica até?) etapa uma charmosa e delicada comédia onde cada movimento de calda quer dizer mais do que parece.

Esse certamente é um dos grandes trunfos de Vitor: não temer desnudar seus sentimentos, falhas e dúvidas para Valente e, com isso, para seus leitores, transcendendo seu personagem para uma realidade muito mais ampla, bem mais global, revelando detalhes engraçados e desastrosos de caras apaixonados, suas opiniões absurdas e atitudes mais ainda. Talvez nisso esteja a real lição de Vitor e seu Valente: não ter medo, encarar os sentimentos, desnudar-se. Afinal, uma vida (ou uma carreira que inclui alguns prêmios HQ Mix e duas Graphic MSP, uma lançada e outra anunciada) não pode ser feita escondendo-se o tempo todo, né?

Confira a entrevista exclusiva na edição 9 da REVISTA ZINEXT!

O PODER DE UMA PERSONAGEM FEMININA (ou mil questões ainda sem respostas)

O PARADOXO NARRATIVO

Gosto não somente de contar e ler histórias, gosto de saber o que as pessoas que leem, produzem, analisam histórias querem saber sobre estas, quais ideias elas têm, enfim… o que são histórias na vida das pessoas. Recentemente assisti um interessante vídeo do educador Colin Stokes intitulado Como Filmes Ensinam Masculinidade (How Movies teaches Manhood) e dentre as muitas coisas sensatas que ele falou, uma em especial me chamou a atenção: “ensinar aos nossos filhos a se identificarem com essas heroínas [mulheres, de uma forma geral] e dizerem: ‘Eu quero estar no time delas“. O vídeo inteiro vocês podem ver aqui: Como Filmes Ensinam Masculinidade

Um dos conceitos mais básicos da produção de narrativas é a identificação. Os personagens devem ser humanos porque nós só nos identificamos com humanos, ou seja, os personagens devem carregar nossas qualidades, defeitos, sonhos, desejos, fúrias, lamentos, enfim, eles devem ser “nós enquanto humanos”. Sendo assim, qualquer ser (mulheres, homens, bichos, coisas etc) ‘humanizado’ tem um potencial enorme de se tornar o personagem marcante de uma história e, por sua vez, inspirar seus leitores/expectadores/jogadores/consumidores, ensinando-os com exemplos positivos a como encarar a vida ou simplesmente fazendo com que se reconheçam frente a desafios comuns a seus mundos culturais, tendo vitória nisso ou não. No entanto, o número de personagens femininos inspiradores é terrivelmente limitado – pra não dizer quase nulo (e acredito que não é necessário nenhuma pesquisa de grandes universidades para comprovar a veracidade disso). Elas, mulheres, costumam ser a acompanhante, o back up, a tutora, o instrumento, o fetiche, enfim, “a coisa ao lado”, o degrau ou prêmio para o crescimento/amadurecimento/vitória de um personagem principal masculino (muitas vezes, homem, caucasiano, heterossexual, mas não entrarei nesse assunto agora; uma batalha por vez). Quando possui algum protagonismo, não raro elas são masculinizadas e fetichizadas, tornando-se algum tipo de ideário feminino PARA homens e, assim, deixam novamente de ser exemplos, pessoas reais com quem você se identifica, e passam a ser “coisas”, seres tão incomuns e fantásticos (e inferiores) que nem homens nem mulheres se veem naqueles personagens.

Objetivo. Segurança. Certeza. Qual sua desculpa pra não querer ser Mérida?

DESCONSTRUINDO A REALIDADE

Tomando o rumo e os exemplos de Colins na palestra, trago algumas experiências pessoais: a primeira vez que assisti Star Wars: Uma Nova Esperança foi impactante pra mim, como deve ter sido pra vários moleques nos anos de 1970 e 1980 (e ainda é), e a personagem que logo de cara gostei foi a princesa Leia. Ela era a líder dos rebeldes e ela encarava a figura de Darth Vader enquanto todo mundo se borrava de medo dele (até eu). Naquele momento, a postura da Leia me fez querer segui-la, me fez querer ser parte de um grupo no qual a líder era ela. Luke, mesmo em sua evolução final, nunca foi tão forte pra mim quanto a figura inicial de Leia. Imaginem então a decepção que foi quando, durante os outros filmes, ela se tornou “o prêmio” do chato (ao menos pra mim) Han Solo? Decepção pior ainda (anos depois, com uma mente mais madura) quando, na chance de ela ter alguma importância não passiva na trama, eu a vi sendo transformada em um fetiche a la Red Sonja? E isso piora: descobrir que Darth Vader, o cara que matou mundos e mundos que ela tentava salvar, que bateu na porta do planeta dela com uma tropa e uma Estrela da Morte e a aprisionou, é seu pai e… qual foi o impacto disso pra ela? Como essa nova realidade foi explorada no interior da personagem? Alguém lembra da reação ou semblante de Leia ao saber disso? Enfim, uma história de meninos pra meninos sobre seus pais (masculino mesmo, não a “coletivização” do termo).

Até hoje a forma como tratam Leia em SW ainda não me faz um fã completo e sincero da série. Pergunto: qual o problema ou necessidade de manter personagens tão “atuantes” e complexos quanto Luke ou Han ou Chew ou os amalucados Droides R2D2 e C3PO (que várias vezes têm mais função e falas que Leia) e perder a oportunidade de explorar uma história rica como a de uma princesa criada por outra família que quando se viu tendo de liderar um grupo de rebeldes contra um ditador fascista não pensou duas vezes? Por que Leia não pode ter sido, desde o início, uma figura que instruía e guiava Luke, no mínimo? Por que ela não poderia ter sido uma líder muito mais atuante que uma princesinha presa? Por que ela não poderia, quem sabe, ser a real mestre Jedi ali? É uma ideia tão subversiva assim só porque ela é… bem, mulher? Pensemos.

Beatrix Kido, uma personagem feminina forte ou uma figura feminina que foi revestida de símbolos masculinos pra se tornar uma protagonista mais aceitável ao "público"?

Beatrix Kido, uma personagem feminina forte ou uma figura feminina que foi revestida de símbolos masculinos pra se tornar uma protagonista mais aceitável ao “público”?

MAS… QUEM FAZ AS HISTÓRIAS?

Ainda falando do TED e seguindo o raciocínio da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie (no vídeo que vc pode ver acima, mas veja depois, sei que você passou por ele e pensou ‘como é longo’…) eu penso muito naqueles que escrevem as histórias. Bem, quem escreve histórias é quem primeiro consumiu histórias que, por sua vez, foi feita por… homens (ao menos em sua grande maioria). Assim, são homens (héteros, brancos, dominantes etc etc etc) que colocam na cabeça de crianças (sim, as histórias influenciam muito mais nossas crianças que as milhares de horas semanais nas escolas) que meninos são protagonistas de jornadas épicas e meninas são troféus sensuais a serem recebidos – e sim, esse pensamento é ridiculamente simplista assim… e real. São ELES que vivem as jornadas, são ELES os escolhidos, são ELES os líderes, são ELES os que começam frágeis e no final se tornam fortes (saindo da seara da ficção, pensemos em âmbito social: seguindo essa lógica, atores e escritores recebem os melhores papéis, as melhores ideias, as melhores falas, os maiores cachês e se ficam nus ou seminus não são taxados por isso; a atriz Olivia Wilde tem uma entrevista interessante conversando sobre o assunto, mas, novamente, deixemos pra outro momento) e ELAS são… o resto. Às vezes menos que isso. Por que há tanto medo em manter mulheres como protagonistas? Por que um homem (nesse caso, uma criança) não pode se ver numa protagonista feminina? Isso é tão errado assim? Tão irracional? E colocar mulheres pra escreverem suas próprias histórias? Do jeito delas, da forma delas, com a cara delas… por que não? Isso seria tão absurdo assim? Iria tão contrário à realidade de nos vermos como humanos se nos vermos no lugar de mulheres? Se for, acho que temos um problema aí, porque estamos considerando que as mulheres, essa parte tão preciosa da humanidade, não são humanas, porque a existência e história delas são incapazes de criar identificação com quem quer que seja, e a isso me refiro a outras mulheres também. Parece tão paradoxal, pra não dizer absurda, tal ideia.

Isso me lembra um grupo de RPG que jogo. Havia uma jogadorA que durante uma de nossas longas aventuras foi a líder de nosso grupo. Confiávamos cegamente nela porque era a mais sensata do grupo, fato incontestável. O próprio mestre tinha mais confiança em nós porque ela era quem ditava as regras. A segurança de sua personalidade na época era tão forte, que mesmo fora de mesa, nós ainda a víamos como líder, como alguém a quem poderíamos recorrer. No entanto, seu personagem era… homem. Retirando a possibilidade de que ela via interpretar um homem como um desafio, será que a personagem dela teria tido a mesma sorte conosco se fosse mulher? E nós, homens jogadores, arriscaríamos jogar com personagens femininas? Nos colocaríamos no lugar delas? E que tipo de figuras femininas seríamos, ou seja, estaríamos prontos para ficar no lugar delas e SER elas? E se ela decidisse interpretar uma personagem feminina, nós a seguiríamos tão seguramente também?

COLOCANDO AS COISAS NOS SEUS DEVIDOS LUGARES (OU NÃO)

Longe de mim, com esse texto, começar uma cruzada feminista ou machista, não por outra razão, mas porque, no final das contas eu acabaria me contradizendo. Afinal, eu sou homem (branco, hétero, de classe dominante – ao menos em parte) e, como gosto de metaforizar pra dizer que nunca poderei entender como as mulheres sentem ou pensam ou desejam: “não menstruo, nem sinto cólicas”. Fora isso, eu escrevo histórias sobre homens, porque, afinal, essas são as histórias dentro de mim. Meu amadurecimento como escritor tem me levado a tornar essas histórias mais universais, até mesmo me ajudado a contar histórias de mulheres, mas ainda me pego relendo coisas que fiz e dizendo: “hummmm… ‘macho’ demais”. Resumindo, não vou levantar uma bandeira porque posso falhar naturalmente nisso, mas gosto de manter o pensamento de Colins: por que não contar uma história sobre uma mulher a qual eu quero seguir? Que lidere um time o qual eu queira fazer parte? Que seja ainda uma inspiração e que crie em mim o desejo de ser como ela, ter as qualidades que ela tem e ainda assim ela ser uma MULHER, não um homem travestido em fetiche para outros homens? Enfim, eu tenho muito a aprender, mas acho que há aí um ponto interessante de aprendizado pra qualquer um que ainda se veja como um estudante de narrativa (o que, na minha opinião, é qualquer autor, experiente ou não). Até lá, que tal deixarmos as mulheres contarem suas histórias? Que tal abandonarmos a triste máscara da ignorância e nos envolvermos com ELAS e as histórias DELAS e fazermos nossas crianças também se envolverem com isso e também quererem se ver como essas mulheres? Quem sabe assim a questão do respeito pelas mulheres  tão obrigatória e necessária, mas tão pouco lembrada – não precise nunca mais ser ensinada, pois estará já dentro de nós (homens) e de nossos filhos, e netos, e bisnetos…

BÔNUS TRACK

Aos que se perguntam onde encontrar boas fontes pra tentar desenvolver essa visão, eu vou tentar apelar aos clássicos (mesmo que esses ainda sejam muito machistas, então adaptações são necessárias): nas lendas gregas, Atenas (esqueçam a visão Cavaleiros do Zodíaco, por favor) é a deusa da guerra juntamente com seu irmão, Ares, mas este se curvava a ela – também deusa da razão, um dos grandes ideários gregos, em contraposição à selvageria e ao caos – e ter a bênção do senhor da guerra poderia garantir prontidão pra batalha, mas a bênção da divindade feminina era segurança de vitória. Fora isso, Atenas, independente de seu nascimento ou mesmo de sua função, é uma deusa pacifista que recorre às armas quando necessário, mas prefere vencer uma contenda da maneira mais funcional e eficiente possível. Ela é, por si só, uma líder. É uma divindade que, num mundo pagão, eu seguiria, principalmente porque me identifico no etos dela. Acredito piamente que muitos homens se identificariam com ela, na verdade, muitas pessoas. Então, fazendo as devidas adaptações, por que não?

O que você prefere: razão ou destruição? Já parou pra entender as razões da sua resposta pra essa pergunta?

DIA DO QUADRINHO NACIONAL VEM AÍ! O QUE FAZER PRA APROVEITAR AO MÁXIMO?

O Fórum de Quadrinhos do Ceará já anunciou o seu principal (e mais esperado) evento do ano: O DIA DO QUADRINHO NACIONAL. Comemorado desde 2010, o evento é uma forma de conhecer o que de melhor está sendo produzido no estado, além, logicamente, de dar espaço para artistas, leitores e entusiastas conversarem, trocarem experiências e dividirem um ano inteiro de aprendizado. O Cultura de Quadrinhos decidiu lembrar porque o DQN-CE é tão legal e dar algumas dicas de como aproveitar melhor o evento.

1. Apareça de alguma forma

Se você é autor e gostaria que outros vissem seu trabalho, comece a pensar em maneiras de viabilizá-lo. Se você publica seu trabalho somente pela internet, talvez seja momento de pensar em um impresso. Apesar dos fanzines feitos em gráfica rápida serem sempre uma óbvia pedida, não deixe de pensar em algo menor, mais barato e criativo que tenha a chance de alcançar o maior número de pessoas possíveis, como um panfleto, marcador de livros, botton com seu site, o que seja. Lembre que o importante é que as pessoas tenham um registro de onde encontrar seu trabalho e não confie em risquinhos em papel ou coisas faladas. Tenha um cartão de visita bonito, atrativo e com o máximo de informações possíveis. Lembre de inscrever suas obras na Banca do Brasil pra você poder conversar com a galera, enquanto a Banca vende as paradas pra você 🙂

2. Faça sua programação

Apesar do #DQN na Gibiteca ser bem direcionado e com atividades que quase nunca entram em conflito ou choques de horários, conhecer a programação e estar preparado para ela é uma grande vantagem, principalmente se você espera ver um artista específico e conversar com ele além das palestras ou mesas redondas que ele vá participar. Outra coisa importante sobre conhecer a programação é saber que atividades devem ser curtidas com filhos, amigos ou namorad@s, o que nos leva ao próximo item…

Programação DQN 2014

Programação DQN 2014

3. Não vá sozinho

Como muitos eventos, o #DQN é um dia para se curtir em grupo: sejam eles aficionados por HQs ou entusiasmados que querem fazer algo realmente interessante e divertido no sábado. Apesar de seu direcionamento sério e de caráter formador, o #DQN é bastante lúdico, com seus organizadores/participantes bem alegres em seus papos, propostas e trabalhos, isso torna o evento meio “ecumênico” (hehehe), ou melhor, aberto a qualquer pessoa de qualquer idade, o que está relacionado a…

4. Um evento para toda a família

Diferentes idades e pessoas estão presentes no #DQN e isso é bacana porque podemos ter mães e pais levando seus filh@s ou filh@s levando suas mães e pais e avós e avôs. A coisa sempre fica interessante porque os mais jovens podem entrar em contato com a vanguarda dos quadrinhos cearenses e os adultos conhecerem uma parte muitas vezes marginalizada de arte e que é parte importante de nossa história. Enfim, fala de fã, mas se deixe levar por ela, e sim, leve sua família. Eles vão adorar.

5. Curta as novidades, aprenda com quem já faz

Acima de tudo o #DQN é um evento onde compartilha-se experiências, de sucessos a fracassos. Então é igualmente importante estar pronto para apresentar algo e ouvir críticas (nem sempre esperadas) de quem já faz. Pensando nisso, o Fórum de Quadrinhos do Ceará e o Estúdio Daniel Brandão estão organizando uma sessão especial de análise de roteiros e portfolios de desenhos, o que, para novatos, é muito importante, por isso vale à pena organizar as notas e ir até lá mostrar o trabalho e ouvir alguns direcionamentos. A análise de desenhos fica a cargo do veterano Daniel Brandão (Liz, MSP 50) e de roteiros por Luís Carlos Sousa (Comando 5 Aventura, Capitão Rapadura) e Zé Wellington (Imaginários em Quadrinhos). É o momento bem único e particularmente importante porque estamos acostumados com os profissionais de fora do estado e quase nunca lembramos da qualidade e experiência de artistas mais próximos.

Talvez o mais importante estúdio de HQs da cidade e sua boa participação no DQN.

Talvez o mais importante estúdio de HQs da cidade e sua boa participação no DQN.

6. Produções originais

Esse #DQN é especial porque tem a Banca do Brasil, um espaço criado para venda de gibis de artistas cearenses. Basta cadastrar seu trabalho no site do FQCE e mandar bala. Esse ano a Banca inova trazendo uma mesinha de troca (onde vai rolar de tudo: quadrinhos, livros, revistas, filme, magazines etc.). Fora isso, o #DQN não terá só quadrinhos. Tanto a animação As Desventuras de Davi, de Valdeci Carvalho, como o elogiado BRANDÃO de Ronaldo Barreto serão exibidos e isso é um momento histórico único para as HQs cearenses, afinal são produções locais sobre quadrinhos e completamente originais. Impressionante, não? E tudo pela módica quantia de…

7. Gratuito

Exceto pelos itens da Banca, todas as atividades, painéis, acessos… enfim, tudo, é completamente gratuito e aberto ao público. Então, não há desculpas, vá para o #DQN 2014 na Gibiteca de Fortaleza (av. da Universidade, 2572, Benfica) dia 25, das 8h às 18h. Temos certeza que vocês adorarão.

QUEM SEGUIR EM 2014

Os quadrinhos cearenses deram uma considerável guinada em 2013 não somente em produção, mas no surgimento de novos talentos e reaparecimento de velhos (e bons) autores. O Cultura de Quadrinhos, então, deixando de lado as listas de melhores do ano e tentando prever o futuro, pontua pra vocês quais os nomes que devem ser acompanhados em 2014 no cenário das HQs cearenses.

ARTISTAS

1. Juliana Braga

Professora/organizadora da Oficina de Quadrinhos da UFC, Juliana Braga faz parte de uma profícua e genial geração de mulheres artistas que tem mostrado as caras cada vez mais na internet, mas que ainda fazem uma considerável falta (em termos de números, não em qualidade) em grupos, eventos e coletâneas. Dona de uma arte simples que mistura o estilo chibi e traços próximos aos objetivos desenhos de moda, Juliana apresenta histórias comuns e de identificação rápida, com um caráter popular divertido e variando entre a comédia de casos e o quadrinho social “pensante”, com certos experimentalismos até, bem como um algum romantismo poético e jovem. Mantém uma página no Facebook, Os Desenhos da Juh, e sua produção (graças a Deus) tem sido cada vez mais regular.

Vindo de Desenhos da Juh

2. Zé Wellington

Já conhecido por muitos por seus trabalhos em coletâneas e por ser uma dos fundadores/organizadores do grupo Gattai e do evento FAMS em Sobral, Zé Wellington é possivelmente uma das mais importantes figuras das histórias em quadrinhos cearenses atuais, tanto por sua produção quanto por sua movimentação pra divulgar e fomentar a arte pelas terras do padroeiro José e além. No entanto, faltava em seu currículo um trabalho de peso e que fizesse jus a seu talento, o que esperamos ter em 2014 através dos dois anúncios feito pelo autor: Quem Matou João Ninguém? e Steam Ladies. Com referências muito bem calcadas nos quadrinhos americanos e japoneses dos anos de 1980, seu texto possui uma pegada sci-fi que rememora William Gibson e a narrativa de Isaac Assimov. Vale ficar de olho!

Quem Matou João Ninguém?

Quem Matou João Ninguém?

3. Natália Matos

Ainda com uma produção meio tímida, essa ex-aluna da Oficina de Quadrinhos da UFC e do Estúdio Daniel Brandão, tem surpreendido os mais atentos com quadrinhos e ilustrações oníricas e sensíveis, com aquele toque profissa de que “menos é sempre mais”. Mantém uma página no Facebook de nome curioso e atraente: Mobília & Balão e seu tumblr fecha o par de ases de onde encontrá-la.

Mobília e Latão

Mobília e Latão

4. Rebeca Moreira e Gleison Santos

Também vindos da OQ-UFC e Estúdio DB. Apesar de ambos terem trabalhos sozinhos (e que podem ser acompanhados em suas páginas pessoais, aqui e aqui, ela com quadrinhos que falam sobre pessoas e rotinas e ele com um tom mais aventureiro e intenso), é no trabalho conjunto que a qualidade de seus quadrinhos salta aos olhos e mentes. Com estilos bem característicos que misturam mangás, Schulz e arte de rua, Rebeca e Gleison são duas estrelas ascendentes que tudo o que precisam é de uma melhor divulgação de seu material e uma produção mais regular. Seus trabalhos podem ser acompanhados na página do Onomatopio.

Por Gleison e Rebeca

Por Gleison e Rebeca

5. Pedro Brandão (PJ Brandão)

Também um dos filhotes da Oficina da UFC, é um dos fundadores do grupo Avantecast e coletivo Gerimoon (onde alguns dos bons nomes desta lista fazem parte) e professor de roteiro e quadrinhos do Porto Iracema das Artes. Seus quadrinhos têm aparecido com parcerias ou em manifestações bem simples, e possui uma linguagem mais próxima às crônicas (algo de Paulo Mendes Campos e Fernando Veríssimo nos trabalhos desse jovem), mas que carregam um caráter de crítica social e muitas referências literárias, bem como um humor ácido. É possível ver mais do rapaz em sua página no facebook, Pedrinho Chegava Descalço, e quem acompanhar seu perfil pessoal poderá conferir suas “crônicas de coletivos”.

O tal do coelho do Pedro.

O tal do coelho do Pedro.

6. Nathália C. Forte

Com um tradição mais ligada à arte educativa e muita experiência e alguns experimentalismos, Nathália C Forte é uma grande promessa para o ano que vem e os vindouros, tanto em trabalhos sozinha quanto em parcerias. Apesar de bem mais próxima ao mundo dos livros infantis/ilustrados que aos quadrinhos, seu passado – que remonta ao Estúdio Graph It – talvez nos mostre futuros e interessantes projetos. Acompanhem a menina em sua página no Facebook.

Riqueza com desenhos e recortes.

Riqueza com desenhos e recortes.

7. Maxwell Duarte

Max é um contador de histórias nato. Antes como animador, esse ano se enveredou pelos quadrinhos, sendo um dos destaques do Curso de Quadrinhos do Estúdio Daniel Brandão. Sua arte dinâmica, com enquadramentos ousados e narrativa veloz é o que há de melhor em quadrinhos de ação/aventura atualmente no Ceará. Apesar de haver muito da animação looney tooniana em seu traço, também há a riqueza e intensidade dos bons mangás e algo de comics noventistas (ou pelo menos o que de bom pode ser retirado de lá). Ainda se firmando nessa área, tendo uma breve passagem pelo título infantil Comando 5 Aventura, de Allan Goldman, um de seus mais esperados projetos para 2014 é Alma de Dragão, quadrinho criado por Kaléo Mendes e que, depois de um hiato de quase 5 anos, voltará ao universo on line pelo traço de Mad Max.

Só silhuetas.

Só silhuetas.

8. Cristiano Lopez

Cartunista e tirista velho de guerra, tendo inclusive já participado da equipe do Capitão Rapadura entre 1996-2002, e ser um dos artistas da Turma do Pinote, Cristiano vem mantendo tiras regulares (pelo menos até o Natal, onde o cara precisava de algum descanso) na página do Cultura de Quadrinhos, com os títulos Demonaldo, o Demônio Entendiado e Somos Bichos. Apesar forte influência dos quadrinhos da DisneyItália, Sérgio Aragonés e um estilo comics mais Greg Capulloniano, é um artista incrivelmente versátil, variando facilmente entre diferentes estilos sem perder a identidade de seu traço. Para 2014 além de manter suas tiras, começará projetos novamente ligados ao Capitão Rapadura, além de outros personagens de sua criação. Não deixem de acompanhar o trabalho de comissions em seu blog pessoal e os cartuns que produz para o jornal Agrovalor em Lopez Cartuns.

Cristiano e seus bichos.

Cristiano e seus bichos.

9. Débora Cristina

Com um pé nas artes plásticas e outro nos quadrinhos, Débora Cristina é uma artista que aos poucos tem mostrado seus traços. Colaboradora do site Quadrinhos em Questão, ainda é cedo para falar mais sobre ela, mas conferindo algumas de suas manifestações de arte e parcerias é possível que seu nome não saia de nossas mentes pelo menos até o próximo FIQ.

Uma parte de seus comics.

Uma parte de seus comics.

10. Jonathan Lima

Com um blog/portfolio existindo há algum tempo, esse experiente artista começa a fazer umas incursões mais ousadas em termos de quadrinhos. Com um traço limpo e muito preciso, com certeza é alguém pra se ficar de olho.

A coisa tá feia, mas a arte é linda!

A coisa tá feia, mas a arte é linda!

Cursos e Escolas

1. Oficina de Quadrinhos da UFC

O mais tradicional centro formador de quadrinistas do Ceará é ao mesmo tempo o que mais se atualiza e experimenta. Por ser um projeto de extensão sempre é cheio de gente nova e acaba sendo uma grande panela de pressão com boas ideias sempre em ebulição. O que mais falta à OQ – UFC, no entanto, é uma publicação periódica (talvez um anuário) com o melhor do que vem sendo produzido lá. Acompanhem as atualizações da Oficina e esperem pelas novas datas de inscrição para 2014.

2. Estúdio Daniel Brandão

Um dos maiores celeiros de artistas de quadrinhos na terra de Nossa Senhora de Assunção continua sendo um ótimo investimento para futuros quadrinistas e mesmo para pintores, desenhistas, escritores etc etc etc. Seu diretor/dono e principal quadrinista foi, em 2013, uma das figuras de melhor produção independente do estado. Além de participar de algumas coletâneas, como o encadernado que comemora os 40 anos do Capitão Rapadura, lançou o tão aguardado livro Liz, coletânea de tiras que ele escreve com sua filha, Liz Brandão, e que ficou durante o mês de novembro entre os mais vendidos da livraria Cultura de Fortaleza. Fora isso, os dois últimos semestres foram incrivelmente produtivos em termos de bons alunos e as turmas já se organizam para fazer seus quadrinhos (online ou não) o que esperamos que realmente aconteça. Até lá, vamos esperar o lançamento do Zine dessa turma.

Mensagem Especial: Grupos e Coletivos

The Comics Café

Como já falado aqui mais de uma vez, é um coletivo/grupo de amigos de quadrinhos cearense que possui um direcionamento que vai além da produção, mas prima pela qualidade do que está sendo produzido, tanto em formato quanto em conteúdo. 2013 foi um ano de intenso trabalho para seus 3 integrantes: Fálex Vidal, João Belo e Júlio Belo e os três já avisaram que vem coisa boa vindo aí, inclusive uma obra conjunta, capitaneada pelo sempre inquieto Fálex. Então 2014 tem tudo pra ser um rico ano em quadrinhos e café. É esperar pra ver.

Revista Digital Zinext

Encabeçada por Macílio Oliveira (um cara que já tem uma certa tradição em formação de grupos de quadrinhos), a Zinext tem uma das melhores propostas de publicações online para iniciantes e acaba sendo um ótimo laboratório pra quem tem um trabalho e quer publicar com algum retorno em comentários de artistas e leitores. Em sua 8ª edição também é um indicativo de autores que poderão despontar em alguns anos.

CAPITÃO RAPADURA 40 ANOS – OU COMO AS COISAS PODEM MUDAR A GENTE.

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Eu pensei muito antes de escrever esse texto. Mesmo agora, quando as letras (em sua mordaz brevidade) surgem na tela, eu ainda tenho dúvidas se ele deveria ser escrito. Eu me privei de muitos comentários sobre a obra Capitão Rapadura 40 anos, a qual, com muito zelo e às vezes temperança e um pouco de desistência, dediquei quase dois anos da minha vida (e argumentação) pra ver acontecer, porque sempre acreditei que não fosse minha (na verdade, ainda acho isso), afinal, o personagem foi criado pelo Mino e minha história é uma das mais curtas, somente 4 páginas, e salta mais aos olhos o trabalho do impressionante Cristiano Lopes que o meu texto. No entanto, olhando agora o trabalho terminado, a edição concluída, a beleza de como está, é impossível eu não me furtar a algumas palavras.

Antes de tudo é preciso que eu agradeça a todos os autores que participaram, e eles não são poucos. São 25 artistas cearenses, todos com alguns anos de experiência na área e que poderiam, educadamente ou não, negar terem participado do projeto. Simplesmente porque tomaria seu tempo, muitas vezes tão curto, e porque do primeiro momento até um pouco antes dos três últimos meses do projeto, não havia perspectiva nenhuma de que o álbum seria editado, por isso, recebi muitos “nãos” antes de receber os “sims”.

Por um instante cheguei a não acreditar – mesmo com toda a empolgação de vários autores que me pediram guias de personagem, material de pesquisa, dicas e opiniões – até receber os primeiros layouts. Mesmo naquele momento eu duvidava um pouco,  com aquela sensação de: “será que tem mais além daqui?”. Teve: páginas. Pessoas que fizeram o trabalho em aquarela, mantiveram o preto em branco, usaram técnicas de computador, retículas, montaram equipes… Foi tanta coisa e tudo tão lindo que meu desejo em ver aquilo pronto logo se exasperou. Revi contatos, procurei pessoas, fiz ligações, analisei editais. Apesar do belo trabalho em mãos, ainda havia dúvidas e dúvidas costumam ser respondidas com negativas.

Nesse ínterim, recebi o trabalho de outros autores e, pela primeira vez, vivi o teste de negar artes ou mandar voltar trabalhos. É um momento bem delicado do editor fazer isso, mas é preciso. Quem cuida do projeto sabe o rumo que ele está tomando, por isso é preciso evitar “ruídos” ou trabalhos que não se adequam ao escopo final pretendido. Alguns receberam com profissionalismo, outros nem tanto, mas o pior é quando a informação passa por terceiros e a correção chega como uma negativa e bons trabalhos são deixados de lado porque uma comunicação clara não foi mantida. Isso é uma grande pena mesmo.

Enfim, entrando 2013 – o ano em que a edição deveria ser lançada – novo fôlego foi erguido, influenciado pela boa recepção do público à apresentação da obra no dia do quadrinho nacional, mas depois veio fevereiro e as coisas parecem ter sido deixadas de lado e o desejo amornou de novo. Projetos pessoais tomaram a cena e o Capitão Rapadura sofreu nova derrota, compreensível em certos pontos, mas não menos frustrante.

A partir desse ponto eu estava desesperançado. Os artistas, não quero nem pensar. Tenho certeza que pra eles a coisa toda soava como um deja vu: mais um projeto que não dava certo, mais tempo perdido, mais uma aposta vencida. Comecei a sentir pena de mim mesmo por ter acreditado tanto e, pessoalmente, sentia minha credibilidade abalada. Minha esposa me olhava e dizia: “vai dar certo. Tenha fé” e tudo o que eu pensava era “a fé me trouxe aqui, nesse deserto. E aí? De que adiantou?”, mas guardei o pensamento comigo, na bobagem machista de guardar os problemas pra si e não dividir.

Então, da fonte mais inesperada, da pessoa que eu menos imaginava, veio um convite (ou devo dizer um ultimato?). Ronaldo Barreto estava envolvido com outras coisas, preocupado com tantas coisas que quando ele me ligou afirmando que tinha marcado uma reunião pra mim no Armazém da Cultura eu não acreditei. A lição de humildade dele foi maior ainda porque eu sabia que Ronaldo tinha projetos próprios e eu sei sua qualidade como escritor pra pegar uma oportunidade dessas e fazer um bom trabalho e ganhar uma grana legal pra si mesmo, sem se preocupar com qualquer um. Mas não foi o que ele fez. Ele preferiu lembrar de todos que se empenharam pra fazer essa edição especial e ao invés de pegar a oportunidade pra si, decidiu agarrá-la pra outros. Sem pedir nada, sem exigir nada, sem querer nada. Não há palavras pra agradecer isso. Não há atitudes que se façam pelo outro que paguem isso, porque é um gesto sem preço. O que pude fazer foi convidá-lo a participar com uma introdução e linha do tempo e, novamente, ele mostrou extrema felicidade e humildade ao aceitar o convite como se ele fosse bem menor e mais simples que aquilo tudo. Acho que ele nem desconfia, mas ali ele foi meu herói.

O Armazém da Cultura nos recebeu, viu o material e acreditou em seu potencial. Empregaram todos seus recursos e talentos pra injetar uma qualidade até então impensada por mim e apresentar em pouco tempo uma obra que seria um marco dos quadrinhos cearenses. Foi momento então de mostrar o resultado disso tudo ao Mino, criador do personagem. Um medo inicial, uma dúvida, uma incerteza… no final, lágrimas nos olhos do pai do Rapadura me emocionaram, mas também me aliviaram. Tínhamos acertado. O trabalho de todos não foi em vão. Sorria pr’aquilo tudo com uma coragem vitoriosa, uma alegria contagiante. Mas ainda não era o momento de comemorar, ainda havia o grande teste de público. Sempre o mais assustador.

A obra viajou então para o Festival Internacional de Quadrinhos – FIQ – em Belo Horizonte, mas não recebeu o tratamento esperado pelo público, apesar de agraciada pelos autores presentes. Voltando a terras cearenses, foi lançada na Universidade de Fortaleza, num auditório com pouquíssimas pessoas, a maioria amigos e familiares. Meus medos voltaram, minhas incertezas aumentaram e o Mino somente dizia: “é só o começo”, mas meu coração desacelerava.

Aí veio o dia 30 de novembro de 2013. Auditório da Livraria Cultura em Fortaleza. Casa cheia. Gente sentando no chão. Idosos, jovens, crianças. Eu nunca imaginei em anos que poderia ver algo assim. Dividi o espaço do lançamento com Liz, de Liz e Daniel Brandão, e Brincadeiras de Sol e Mar, do escritor Flávio Paiva. No palanque, esses artistas, Mino e eu. Nervoso como nunca estive antes. Foi tudo mágico. Mino ainda leu uma carta feita pelo Capitão Rapadura. Com louvor, escondi uma lágrima que queria escorrer pelo meu olho. E por mais estranho que fosse, na minha cabeça só tinha uma coisa: “as crianças vão adorar isso aqui”. Coisa de professor, eu acho.

Mesa de autógrafos. Revi amigos, familiares, conheci pessoas novas. Todos estavam felizes. Eu estava cansado. Falando de maneira bem pessoal, fiquei contente ao ver meus avós, que saíram de suas longínquas casas para me ver, me prestigiar. Foi um presente isso. Também revi meu pai. Há um tempo que não nos falamos tanto, mas eu sempre quis que ele visse o que eu fazia. Aquém de qualquer diferença que existe entre nós, ele estava lá e isso significou bastante pra mim. Ele foi o único que recebeu um autógrafo não nas folhas iniciais, mas na minha história. A sempre contagiante alegria de minha mãe encheu o espaço que nos separava. Não dava pra ficar triste com aquilo. Mas, no final das contas, o que mais me comoveu foi o toque no meu braço de minha esposa. Ela  fez um sinal com os olhos, falou ao meu ouvido. Era tudo o que eu precisava. Quando se escolhe uma nova vida, teme-se o que pode vir do outro, as negativas, as exigências, os sacrifícios, os extremos. Ela me mostrou que uma vida se faz juntos e que temer sozinho paralisa, mas temer com outro nos move. Eu sei que os passos que dei não seriam tão seguros se não fossem as certezas dela de que iríamos conseguir. Iríamos, porque uma vida não se faz sozinho, seja em casa, no trabalho ou com os amigos. Por isso que agradeço os elogios dados a mim ao fazer essa edição, mas eles não são somente meus, mas de todos, inclusive daqueles cujos nomes não estão nos livros: nossos professores, amigos e familiares.

Capitão Rapadura 40 anos não é uma obra de um só, mas de várias pessoas, parceiros, amigos, famílias e, por isso, de um estado inteiro, uma nação inteira, porque Rapadura nada mais é que todos nós.

Obrigado, pessoal.

Parafraseado Mino: “é só o começo”.

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O peso da luz – Einstein no Ceará

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A editora Armazém da Cultura, sediada em Fortaleza, Ceará, tem o prazer de apresentar o novo livro de Ana Miranda, O peso da luz, Einstein no Ceará.

“A novela O peso da luz conseguiu um equilíbrio raro, muito bonito, entre poesia e ciência, mas sem perdas ou sacrifício, sem dependências coloniais, e ao mesmo tempo a história envolve, prende, nos requer de modo exclusivo, mas sem arenosas paradidáticas, do jeito que só Ana Miranda sabe fazer, sem diminuição, com todas as cores possíveis, polifônico plural e todo um céu que se abre, com analogias entre aquele e este chão, o chão do Ceará ou de qualquer parte do mundo (não pela fria abstração) mas pelas secretas leis das similitudes de uma prosa poética enxuta e que nos convoca a imaginar um mundo precioso e solidário.”
Marco Lucchesi

Construído com elementos da biografia de Albert Einstein, O Peso da luz trata de um amante da ciência que conta suas memórias, Roselano Rolim – relojoeiro e inventor de uma máquina utópica, um moto-perpétuo estelar –, uma espécie de Quixote nascido em Cajazeiras. Na mesma cidade paraibana viveu um tio-avô da autora, que nos anos 1930 inventou um controle remoto, e inspirou o personagem. Leitor ardente das teorias de Einstein, Roselano recebe de seu amigo poeta a notícia de que uma comissão de cientistas ingleses está a caminho de Sobral, ao norte do Ceará, com a finalidade de comprovar a teoria da relatividade geral, durante um eclipse total do Sol que ocorrerá em 29 de maio de 1919.

Em comissão particular, na companhia de seu amigo poeta e do papagaio Galileu, Roselano embarca numa viagem que provoca em si uma verdadeira revolução, com a descoberta de outros mundos, novos modos de amar, de se relacionar com os seres humanos, com os próprios sonhos, e consigo mesmo, e a revelação do lado universal da vida que se consome num moto-contínuo. As observações da comissão inglesa, composta pelos cientistas Andrew Crommelin e Charles Davidson, comprovaram a teoria de Einstein que declarou, posteriormente: “A pergunta que minha mente formulou foi respondida pelo ensolarado céu do Brasil”. A teoria da relatividade geral ocasionou uma das maiores revoluções da história humana.

A autora
Voltada para a imaginação e linguagem, dotada de um brasilianismo intenso, Ana Miranda realiza um trabalho de redescoberta do nosso tesouro literário, que a leva a dialogar com autores e obras da literatura nacional. Fundada em séria e vasta pesquisa, recria épocas e situações que se referem à história literária brasileira, mas, primordialmente, dá vida a linguagens perdidas no tempo. Sua obra, de mais de vinte livros, tem sido matéria de estudos na área acadêmica, recebendo teses e monografias geralmente ligadas a questões de literatura & história, barroco brasileiro, romantismo, ou pós-modernidade.

Recebeu prêmios, como Jabutis e da Academia Brasileira de Letras, e a Sereia de Ouro; teve sua obra traduzida em cerca de vinte países, e conquistou expressivo número de leitores no Brasil. Ana Miranda consagrou-se igualmente pela inclusão de Boca do Inferno no cânon dos cem maiores romances em língua portuguesa do século 20, elaborado por estudiosos da literatura, brasileiros e portugueses (O Globo, 5/set/98). Seus principais romances são: Boca do Inferno (1989); A última quimera (1995); Desmundo (1996); Amrik (1998); Dias & Dias (2002); e Yuxin (2009), editados pela Companhia das Letras. Nasceu em 1951 no Ceará, onde vive atualmente, após cinquenta anos entre Rio, Brasília e São Paulo. O peso da luz faz parte de uma série de Novelas cearenses que a autora planeja publicar.

Trecho do livro
“Leve o papagaio”, ela disse. “Ele precisa tomar sol”. Levei acorrentado o Galileu, que andava um pouco esquecido por mim. Eu caminhava, desatento, entregue a devaneios, quando vi que um grupo de senhores se aproximava. Um trio vinha à frente, e meus olhos distinguiram num instante, como um relampejo, aquele homem coberto por um chapéu claro, terno bege amarrotado, bigode escuro, olhos que cintilavam mesmo à sombra do chapéu, andando com as mãos para trás, ladeado por dois senhores que lhe falavam, mostrando as árvores nos flancos da alameda. Era Einstein. Era ele mesmo, em pessoa, não havia nenhuma dúvida, e eu conseguia escutar os batimentos de meu coração.

Entrevista com a autora
A novela O peso da luz, Einstein no Ceará foi escrita para homenagear seu tio-avô, que era inventor?
Sim, claro, é uma história fascinante que corre na minha família, mamãe sempre a repete. Esse tio, que se chamava Inácio Nóbrega, e morava em Cajazeiras da Paraíba, inventou nos anos 1930 um controle remoto, e cedeu os desenhos e cálculos a um viajante alemão, que prometeu patentear o invento em seu país. Mas desapareceu com os esquemas, e meu tio Inácio nunca mais teve notícias. Foi uma consternação para ele e para a família. É uma homenagem aos inventores em todas as áreas, às utopias e quimeras. Mas também é uma homenagem ao Ceará, pois aborda um tema cearense, que é a comprovação da teoria da relatividade geral, de Einstein, ocorrida durante um eclipse em Sobral, em 1919. Para lá foi enviada uma comissão científica com a missão única de comprovar a teoria do cientista nascido na Alemanha. Interessante é que foi na época da Primeira Grande Guerra, e britânicos e alemães eram inimigos. Além da grande conquista científica, que revolucionou o mundo em tantos aspectos, a comprovação foi uma espécie de vitória do espírito de cooperação contra o espírito bélico.

É seu primeiro livro que se passa em sua terra natal, o Ceará?
De certa forma, sim. O Ceará sempre esteve presente em mim, assim como a Paraíba e todo o Nordeste, em alguns de meus modos de ser e ver o mundo. Em Dias & Dias eu pisei pela primeira vez o solo cearense, quando personagens passam por Fortaleza. Eu sentia uma falha no conhecimento de minhas origens, pois saí de Fortaleza aos quatro ou cinco anos de idade. Voltei a morar no Ceará, e a me imbuir de seus elementos culturais, históricos, tenho conhecido muitos aspectos dessa terra, e isso me inspira livros com temas locais.

O fato de a comprovação se passar no Ceará tem alguma relevância para a teoria?

Tem relevância para o Ceará e para o Brasil, por extensão. Tudo o que acontece em nosso país passa a fazer parte de sua história, e tudo deixa consequências que devem ser examinadas, lembranças que devem ser preservadas. O fato traz à luz, por exemplo, aspectos importantes de nossa história científica, como o conflito entre ciência utilitária e ciência pura, ou a dificuldade, falta de tradição, de apoio à pesquisa científica. Pelos relatórios dos cientistas das comissões inglesa e brasileira, podemos verificar nitidamente as nossas dificuldades. E se não tratarmos de nossos temas, se não os conhecermos e examinarmos, e criarmos nossas próprias referências, estaremos sempre como repetidores colonizados de conhecimentos externos, li, dia desses, essa frase no jornal.

Por que a senhora escolheu um poeta para acompanhar o cientista inventor, narrador do livro?
Para tecer laços entre a ciência e a poesia, ambas têm exatidão, ambas se compõem de imaginação e exigem ousadia. Também para criar um parâmetro de comportamento entre duas figuras quase marginalizadas na sociedade, o poeta e o inventor, tidos como quixotescos, por abordarem reinos do conhecimento humano que são essencialmente subjetivos, e saírem em busca do desconhecido. A alma humana e o moto-perpétuo. Einstein achava que a imaginação é mais importante do que o conhecimento. É por essa vereda…

Einstein esteve realmente no Ceará?

Esteve, como símbolo. Na verdade toda arte é simbólica, e a presença dele no Ceará significa a chegada de um novo tempo, e a ânsia de estabelecer contato com o mundo, até mesmo com o tão misterioso universo, com as origens da vida, com os significados da existência, porque a física abstrata tenta vasculhar o mistério, assim como a poesia. Num mundo em que se acreditava em verdades e certezas, houve um momento em que a “realidade” tomou um aspecto relativo. Houve um como que desmanche cultural, uma fragmentação atômica. O livro aborda a questão do sentimento de provincianismo, e o exílio pessoal e cultural. Também, as possibilidades de renovação, um sentimento que inquieta a humanidade, porque encerra o tema da vida & morte.

O narrador do livro dá de presente a Einstein um papagaio. É sabido que Einstein teve em sua casa um papagaio. Qual o significado do papagaio?
O papagaio é um elemento da vida de Einstein, que cuidou de uma dessas aves. O biógrafo Walter Isaacson diz que ele recebeu o papagaio de presente de um centro médico, em 1954, deixaram a ave na porta da sua casa. Einstein andava doente, já no fim da vida, e o presente deve ter sido terapêutico. Talvez ele falasse que gostava de papagaios, talvez já tivesse tido um. Os jornais brasileiros mencionam que durante a visita ao Rio um cidadão lhe entregou um papagaio, e Einstein teria levado essa ave para sua casa. Se for verdade, é fascinante a coincidência, pois deve ter algum significado que pode ser examinado. Soube que o papagaio mais inteligente do mundo, que vivia num zoo nos Estados Unidos, se chamava Einstein. De toda forma, é uma ave bem popular, domesticável, humanizada a tal ponto que chega a repetir os sons, como se falasse, e há uma força afetiva entre essa ave e a pessoa que dela cuida. Levar do Brasil um papagaio pode ser levar um símbolo da nossa natureza e cultura. A inserção do Novo Mundo no Velho Mundo, poderia ser… A invasão da cultura popular, do folclore, na erudita… A natureza que existe na cultura… O idílio da floresta primitiva… Abordagens assim. Para Roselano o papagaio era uma ligação afetiva com Einstein, o personagem lhe ensinava apenas frases em alemão.

A sua admiração por Einstein é patente no livro. Que características desse cientista a entusiasmam?
Tudo nele é entusiasmante, sua personalidade ao mesmo tempo meiga e insolente, seu senso de humor, sua simplicidade e despojamento de bens materiais, e o que ele disse de si mesmo, numa carta a um filho: “a capacidade de se elevar acima da mera existência, sacrificando sua própria pessoa ao longo dos anos em prol de um objetivo impessoal”. E a inteligência brilhante dele, que se expressava em ideias científicas, mas também nas frases que ele despejava com espontaneidade.

O conflito de Einstein, em relação à criação da bomba atômica, não está no livro. Por quê?
Porque se passou depois da ação do livro, que se resume ao período de 1919 a 1925. No entanto, apesar de o narrador ser um apreciador irrestrito do trabalho de Einstein, a polêmica sobre sua vida e obra se encontra nas páginas da novela, dentro das perspectivas da época e local, o Brasil. Apesar de uma pureza apaixonada na visão do narrador, Einstein aparece com suas contradições.

Por que a senhora chama o livro de novela, e não romance?
A novela é um romance abreviado, com trama contida numa só linha de narração, poucos personagens, nada daquela voz polifônica, daquele longo devaneio, fugas, daquelas tramas paralelas, que caracterizam o romance. O peso da luz se encaixa bem melhor nas definições de novela.

A linguagem de O peso da luz é bem mais simples do que a de seus romances. A que se deve isso?

Deve-se à época em que se passa a trama, século 20, não estou recriando nenhuma dicção antiga, e as dicções antigas hoje nos parecem complicadas, quanto mais antigas, mais desconhecidas, dando a sensação de estranheza. Também o fato de ser novela leva à simplificação da estrutura ou vice-versa. E o fato de o narrador ser um homem das ciências exatas. As falas do poeta são bem mais rebuscadas, no livro, inspiradas em Augusto dos Anjos, era o tempo do cientificismo poético, ou da poesia cientificista.

A senhora diz que O peso da luz é a primeira das Novelas Cearenses que pretende escrever. Poderia dizer quais são as outras?
Prefiro guardar segredo. O Ceará tem uma riqueza quase virgem, no campo da literatura histórica, e há temas fabulosos. Sinto que tenho condições de fazer um trabalho nesse sentido, animada por uma espécie de amor natural.

Serviço:
Lançamento em Sobral
Dia 16 de Outubro de 2013
Hora: 19h
Local: Casa da Cultura de Sobral – Avenida Dom José, 881 – Centro – Sobral/CE. (88) 3611-2712

Lançamento em Fortaleza
Data: 18 de outubro de 2013.
Hora: 19 horas
Local: Livraria Cultura – Av. Dom Luís, 1010, Ljs. 8,9 e 10. Fone: (85) 4008.0800
Editora: Armazém da Cultura
Preço de capa: R$ 40,00
ISBN: 978-85-63171- 72 – 6
Fone: (85) 3224.9780