O PODER DE UMA PERSONAGEM FEMININA (ou mil questões ainda sem respostas)

O PARADOXO NARRATIVO

Gosto não somente de contar e ler histórias, gosto de saber o que as pessoas que leem, produzem, analisam histórias querem saber sobre estas, quais ideias elas têm, enfim… o que são histórias na vida das pessoas. Recentemente assisti um interessante vídeo do educador Colin Stokes intitulado Como Filmes Ensinam Masculinidade (How Movies teaches Manhood) e dentre as muitas coisas sensatas que ele falou, uma em especial me chamou a atenção: “ensinar aos nossos filhos a se identificarem com essas heroínas [mulheres, de uma forma geral] e dizerem: ‘Eu quero estar no time delas“. O vídeo inteiro vocês podem ver aqui: Como Filmes Ensinam Masculinidade

Um dos conceitos mais básicos da produção de narrativas é a identificação. Os personagens devem ser humanos porque nós só nos identificamos com humanos, ou seja, os personagens devem carregar nossas qualidades, defeitos, sonhos, desejos, fúrias, lamentos, enfim, eles devem ser “nós enquanto humanos”. Sendo assim, qualquer ser (mulheres, homens, bichos, coisas etc) ‘humanizado’ tem um potencial enorme de se tornar o personagem marcante de uma história e, por sua vez, inspirar seus leitores/expectadores/jogadores/consumidores, ensinando-os com exemplos positivos a como encarar a vida ou simplesmente fazendo com que se reconheçam frente a desafios comuns a seus mundos culturais, tendo vitória nisso ou não. No entanto, o número de personagens femininos inspiradores é terrivelmente limitado – pra não dizer quase nulo (e acredito que não é necessário nenhuma pesquisa de grandes universidades para comprovar a veracidade disso). Elas, mulheres, costumam ser a acompanhante, o back up, a tutora, o instrumento, o fetiche, enfim, “a coisa ao lado”, o degrau ou prêmio para o crescimento/amadurecimento/vitória de um personagem principal masculino (muitas vezes, homem, caucasiano, heterossexual, mas não entrarei nesse assunto agora; uma batalha por vez). Quando possui algum protagonismo, não raro elas são masculinizadas e fetichizadas, tornando-se algum tipo de ideário feminino PARA homens e, assim, deixam novamente de ser exemplos, pessoas reais com quem você se identifica, e passam a ser “coisas”, seres tão incomuns e fantásticos (e inferiores) que nem homens nem mulheres se veem naqueles personagens.

Objetivo. Segurança. Certeza. Qual sua desculpa pra não querer ser Mérida?

DESCONSTRUINDO A REALIDADE

Tomando o rumo e os exemplos de Colins na palestra, trago algumas experiências pessoais: a primeira vez que assisti Star Wars: Uma Nova Esperança foi impactante pra mim, como deve ter sido pra vários moleques nos anos de 1970 e 1980 (e ainda é), e a personagem que logo de cara gostei foi a princesa Leia. Ela era a líder dos rebeldes e ela encarava a figura de Darth Vader enquanto todo mundo se borrava de medo dele (até eu). Naquele momento, a postura da Leia me fez querer segui-la, me fez querer ser parte de um grupo no qual a líder era ela. Luke, mesmo em sua evolução final, nunca foi tão forte pra mim quanto a figura inicial de Leia. Imaginem então a decepção que foi quando, durante os outros filmes, ela se tornou “o prêmio” do chato (ao menos pra mim) Han Solo? Decepção pior ainda (anos depois, com uma mente mais madura) quando, na chance de ela ter alguma importância não passiva na trama, eu a vi sendo transformada em um fetiche a la Red Sonja? E isso piora: descobrir que Darth Vader, o cara que matou mundos e mundos que ela tentava salvar, que bateu na porta do planeta dela com uma tropa e uma Estrela da Morte e a aprisionou, é seu pai e… qual foi o impacto disso pra ela? Como essa nova realidade foi explorada no interior da personagem? Alguém lembra da reação ou semblante de Leia ao saber disso? Enfim, uma história de meninos pra meninos sobre seus pais (masculino mesmo, não a “coletivização” do termo).

Até hoje a forma como tratam Leia em SW ainda não me faz um fã completo e sincero da série. Pergunto: qual o problema ou necessidade de manter personagens tão “atuantes” e complexos quanto Luke ou Han ou Chew ou os amalucados Droides R2D2 e C3PO (que várias vezes têm mais função e falas que Leia) e perder a oportunidade de explorar uma história rica como a de uma princesa criada por outra família que quando se viu tendo de liderar um grupo de rebeldes contra um ditador fascista não pensou duas vezes? Por que Leia não pode ter sido, desde o início, uma figura que instruía e guiava Luke, no mínimo? Por que ela não poderia ter sido uma líder muito mais atuante que uma princesinha presa? Por que ela não poderia, quem sabe, ser a real mestre Jedi ali? É uma ideia tão subversiva assim só porque ela é… bem, mulher? Pensemos.

Beatrix Kido, uma personagem feminina forte ou uma figura feminina que foi revestida de símbolos masculinos pra se tornar uma protagonista mais aceitável ao "público"?

Beatrix Kido, uma personagem feminina forte ou uma figura feminina que foi revestida de símbolos masculinos pra se tornar uma protagonista mais aceitável ao “público”?

MAS… QUEM FAZ AS HISTÓRIAS?

Ainda falando do TED e seguindo o raciocínio da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie (no vídeo que vc pode ver acima, mas veja depois, sei que você passou por ele e pensou ‘como é longo’…) eu penso muito naqueles que escrevem as histórias. Bem, quem escreve histórias é quem primeiro consumiu histórias que, por sua vez, foi feita por… homens (ao menos em sua grande maioria). Assim, são homens (héteros, brancos, dominantes etc etc etc) que colocam na cabeça de crianças (sim, as histórias influenciam muito mais nossas crianças que as milhares de horas semanais nas escolas) que meninos são protagonistas de jornadas épicas e meninas são troféus sensuais a serem recebidos – e sim, esse pensamento é ridiculamente simplista assim… e real. São ELES que vivem as jornadas, são ELES os escolhidos, são ELES os líderes, são ELES os que começam frágeis e no final se tornam fortes (saindo da seara da ficção, pensemos em âmbito social: seguindo essa lógica, atores e escritores recebem os melhores papéis, as melhores ideias, as melhores falas, os maiores cachês e se ficam nus ou seminus não são taxados por isso; a atriz Olivia Wilde tem uma entrevista interessante conversando sobre o assunto, mas, novamente, deixemos pra outro momento) e ELAS são… o resto. Às vezes menos que isso. Por que há tanto medo em manter mulheres como protagonistas? Por que um homem (nesse caso, uma criança) não pode se ver numa protagonista feminina? Isso é tão errado assim? Tão irracional? E colocar mulheres pra escreverem suas próprias histórias? Do jeito delas, da forma delas, com a cara delas… por que não? Isso seria tão absurdo assim? Iria tão contrário à realidade de nos vermos como humanos se nos vermos no lugar de mulheres? Se for, acho que temos um problema aí, porque estamos considerando que as mulheres, essa parte tão preciosa da humanidade, não são humanas, porque a existência e história delas são incapazes de criar identificação com quem quer que seja, e a isso me refiro a outras mulheres também. Parece tão paradoxal, pra não dizer absurda, tal ideia.

Isso me lembra um grupo de RPG que jogo. Havia uma jogadorA que durante uma de nossas longas aventuras foi a líder de nosso grupo. Confiávamos cegamente nela porque era a mais sensata do grupo, fato incontestável. O próprio mestre tinha mais confiança em nós porque ela era quem ditava as regras. A segurança de sua personalidade na época era tão forte, que mesmo fora de mesa, nós ainda a víamos como líder, como alguém a quem poderíamos recorrer. No entanto, seu personagem era… homem. Retirando a possibilidade de que ela via interpretar um homem como um desafio, será que a personagem dela teria tido a mesma sorte conosco se fosse mulher? E nós, homens jogadores, arriscaríamos jogar com personagens femininas? Nos colocaríamos no lugar delas? E que tipo de figuras femininas seríamos, ou seja, estaríamos prontos para ficar no lugar delas e SER elas? E se ela decidisse interpretar uma personagem feminina, nós a seguiríamos tão seguramente também?

COLOCANDO AS COISAS NOS SEUS DEVIDOS LUGARES (OU NÃO)

Longe de mim, com esse texto, começar uma cruzada feminista ou machista, não por outra razão, mas porque, no final das contas eu acabaria me contradizendo. Afinal, eu sou homem (branco, hétero, de classe dominante – ao menos em parte) e, como gosto de metaforizar pra dizer que nunca poderei entender como as mulheres sentem ou pensam ou desejam: “não menstruo, nem sinto cólicas”. Fora isso, eu escrevo histórias sobre homens, porque, afinal, essas são as histórias dentro de mim. Meu amadurecimento como escritor tem me levado a tornar essas histórias mais universais, até mesmo me ajudado a contar histórias de mulheres, mas ainda me pego relendo coisas que fiz e dizendo: “hummmm… ‘macho’ demais”. Resumindo, não vou levantar uma bandeira porque posso falhar naturalmente nisso, mas gosto de manter o pensamento de Colins: por que não contar uma história sobre uma mulher a qual eu quero seguir? Que lidere um time o qual eu queira fazer parte? Que seja ainda uma inspiração e que crie em mim o desejo de ser como ela, ter as qualidades que ela tem e ainda assim ela ser uma MULHER, não um homem travestido em fetiche para outros homens? Enfim, eu tenho muito a aprender, mas acho que há aí um ponto interessante de aprendizado pra qualquer um que ainda se veja como um estudante de narrativa (o que, na minha opinião, é qualquer autor, experiente ou não). Até lá, que tal deixarmos as mulheres contarem suas histórias? Que tal abandonarmos a triste máscara da ignorância e nos envolvermos com ELAS e as histórias DELAS e fazermos nossas crianças também se envolverem com isso e também quererem se ver como essas mulheres? Quem sabe assim a questão do respeito pelas mulheres  tão obrigatória e necessária, mas tão pouco lembrada – não precise nunca mais ser ensinada, pois estará já dentro de nós (homens) e de nossos filhos, e netos, e bisnetos…

BÔNUS TRACK

Aos que se perguntam onde encontrar boas fontes pra tentar desenvolver essa visão, eu vou tentar apelar aos clássicos (mesmo que esses ainda sejam muito machistas, então adaptações são necessárias): nas lendas gregas, Atenas (esqueçam a visão Cavaleiros do Zodíaco, por favor) é a deusa da guerra juntamente com seu irmão, Ares, mas este se curvava a ela – também deusa da razão, um dos grandes ideários gregos, em contraposição à selvageria e ao caos – e ter a bênção do senhor da guerra poderia garantir prontidão pra batalha, mas a bênção da divindade feminina era segurança de vitória. Fora isso, Atenas, independente de seu nascimento ou mesmo de sua função, é uma deusa pacifista que recorre às armas quando necessário, mas prefere vencer uma contenda da maneira mais funcional e eficiente possível. Ela é, por si só, uma líder. É uma divindade que, num mundo pagão, eu seguiria, principalmente porque me identifico no etos dela. Acredito piamente que muitos homens se identificariam com ela, na verdade, muitas pessoas. Então, fazendo as devidas adaptações, por que não?

O que você prefere: razão ou destruição? Já parou pra entender as razões da sua resposta pra essa pergunta?