ENTREVISTA COM PAULO CORRÊA, CRIADOR DO QUADRINHO MIRAGE WATER CHAOS

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Criar um projeto e apresentá-lo ao Financiamento Coletivo tem sido uma alternativa cada vez mais comum (e viável) para os produtores de quadrinhos independentes. Nessa onda, Paulo Corrêa, de Belo Horizonte, juntou-se aos amigos Welberson Lopes e Eduardo Pansica (e logo depois a outros grandes artistas: Geraldo Borges, José Luís, Alzir Alves e Luís Carlos Sousa) para juntos darem corpo a Mirage Water Chaos, obra em quadrinhos sobre um mundo distópico onde água vale mais que ouro, e que procura seu financiamento através do Catarse.

Paulo cedeu um pouco de seu tempo para levar um papo com o Cultura de Quadrinhos. Confiram!

CQ. Fale-nos sobre a história de MIRAGE WATER CHAOS.

PC. Mirage Water Chaos é uma ficção pós-apocalíptica que descreve uma sociedade distópica conhecida como a Era Water Chaos. Essa era surge após um conflito devastador conhecido como a “grande Mirage”, dando lugar a uma era de selvageria e escassez de recursos. Nesse universo, a água é a nova moeda de troca: aqueles que a possuírem, ditarão as regras e serão os senhores desse mundo caótico.

CQ. De onde surgiu a ideia de MIRAGE WATER CHAOS?

Eu concebi a ideia original para o que viria a ser a Mirage no longínquo ano de 1996. Em 2001, mostrei alguns rascunhos de textos e desenhos para um grupo de colegas que fazia o curso de roteiro comigo, no extinto Emcomum Estúdio Livre (com “m” mesmo).

Welberson Lopes (um dos estudantes que viria a se tornar meu grande amigo e parceiro) logo se interessou pelo projeto e começou a me ajudar na concepção dos textos, estruturação da trama e criação dos concept arts dos personagens.

Dessa forma, juntos, passamos os 12 anos seguintes nos aperfeiçoando e tentando viabilizar o projeto através de leis de incentivo e editoras, mas não obtivemos sucesso.

CQ. Por que contar essa história agora e como ela se comunica com a História da humanidade? Além disso, qual a abordagem ecológica presente na obra?

PC. Por que agora? Bom, passei os últimos 17 anos tentando fazer essa história chegar às mãos dos leitores. A cada dia que passa, ficamos mais próximos do futuro descrito através do Universo Water Chaos. Isso torna nossa publicação cada vez mais urgente!
A história e o pós-apocalíptico estão ligados desde sempre! Meu primeiro contato com o gênero foi no início dos anos 1990, quando assisti os filmes da série MAD MAX pela primeira vez e logo me apaixonei pelo universo punk de wasteland (terra devastada). Num rápido passeio pela sinopse de Mad Max 2: The Road Warrior, a referência e homenagem que fiz ficam explícitas:

“A disputa pelo petróleo acabou gerando uma guerra entre as potências mundiais de proporções catastróficas. As cidades entraram em colapso. O planeta se torna uma terra deserta e sem lei. Os remanescentes, desordeiros motorizados viajam sem controle em uma terra árida, buscando o mais escasso bem, a gasolina. Quem a possui tem o controle dessa terra devastada…”

Mas, dos anos de 1970 – década das duas crises do petróleo, inspiração para a franquia – pra cá, muita coisa mudou! Embora ainda sejamos muito dependentes dos combustíveis fósseis, já existem muitos combustíveis alternativos, como o etanol, capazes de fazer frente ao ouro negro. Agora, a história recente nos dá outros foreshadowing (antecipação) do que virá a ser a Terceira Guerra Mundial. Em nossa opinião, o manejo do ouro azul será sua principal causa. Por isso, nossa trama se desenvolve a partir da busca incessante por uma solução para a escassez de água. Em torno desta história giram várias subtramas que exploram a natureza humana e as diferentes interpretações de cada personagem diante de conflitos ideológicos.

A responsabilidade ecológica é um tema em destaque na obra, que questiona o posicionamento das civilizações atuais e como deveriam repensar a política de gestão de seus recursos hídricos, objetivando assim, minimizar os impactos da sociedade contemporânea, cada vez mais ávida por recursos naturais.

CQ. Como se deu a escolha e administração da equipe? Fale-nos um pouco sobre cada um dos envolvidos.

No final de 2012, eu percebi que se não desse o “pontapé” inicial, investindo meu próprio dinheiro no projeto, a Mirage Water Chaos se resumiria a apenas uma boa ideia, nada mais. Foi então que saí à procura de artistas capazes de trabalhar em alto padrão (nosso objetivo). Para minha surpresa, eis que surge Eduardo Pansica na parada. Sensibilizado com nossa inciativa, ele aceitou ilustrar a publicação, mesmo por um valor abaixo do que o mercado paga a talentos como ele (e aos outros membros da equipe).

Mas havia um porém: o prazo! Com um título mensal da DC em mãos, ficava difícil ilustrar tudo o que precisávamos. Aí resolvemos procurar o desenhista Geraldo Borges para ajudá-lo, que acabou enfrentando o mesmo problema. A salvação veio com a entrada do gigante José Luís, que embora seja tão requisitado pelo mercado internacional quanto os outros dois titãs, nos cedeu uma janela em seu precioso tempo para terminar de ilustrar nosso portfólio. Ainda contamos com Alzir Alves, um verdadeiro mago com uma Cintiq nas mãos (mesa digitalizadora), e Luís Carlos Sousa, nosso balonista. O responsável por dar voz ao magnífico trabalho de todos.

CQ. Apesar do crowdfunding ser uma realidade contumaz atualmente, a possibilidade de não arrecadação ainda é uma grande dúvida nos projetos que se utilizam desse serviço, e ponto de desistência de muitos artistas. Sendo assim, por que vocês escolheram essa forma de financiamento?

PC. O financiamento coletivo representa a evolução do sistema de produção artística no país. Há pouco mais de 20 anos, com o surgimento das Leis de Incentivo à Cultura, a cena independente passou a se valer desse mecanismo e publicar muita coisa bacana assim. Mas havia um grande problema: a captação de recursos! Mesmo com o projeto aprovado pelo MinC (ou outras instâncias), o proponente era “obrigado” a buscar empresas que acreditassem em seu trabalho para que ele fosse financiado. Porém, muitas empresas estavam de olho apenas no retorno comercial que seu apoio geraria. Por isso, muitos projetos maravilhosos acabaram engavetados por falta de patrocínio (inclusive o nosso).

Com a chegada do crowdfunding ao Brasil, a cena independente encontrou uma válvula de escape, que se materializa através de sites como o Catarse (melhor nome, impossível) e outros do gênero. Para quem não conhece o sistema de financiamento coletivo, o conceito é muito simples: você compra antes de ficar pronto, com esse dinheiro nós produzimos, e você recebe em casa exatamente o que comprou. Caso o projeto não alcance a meta estipulada, todos que contribuíram recebem o dinheiro de volta. Simplesmente revolucionário!

CQ. Outra decisão da equipe foi incluir o quadrinho em plataformas digitais e torná-lo bilíngue. Muitos dos projetos de quadrinhos no Brasil não apresentam essa proposta, por que vocês acreditam que MWC se adequa ao perfil bilíngue?

PC. Os digitais são a evolução natural dos livros e HQs. Em um futuro próximo, sairá impresso só o que for realmente muito bom. Hoje, através da comiXology e outras lojas virtuais, grandes editoras como a Marvel e a DC Comics publicam suas HQs mundialmente, dispensando outros tipos de intermediadores, como distribuidoras e revendedores locais. Eu não tenho dados sobre isso, mas acredito que nem tudo que sai digital tem sua versão impressa (achismo meu). Mas uma coisa é certa, nem tudo que sai nos Estados Unidos chega a Terra Brasilis. Contudo, o digital rompe essa barreira!

Com o objetivo de atingir o público internacional e nos valendo do caráter cosmopolita das publicações digitais, foi que resolvemos criar um app bilíngue. Não há fronteiras para o digital, logo, nada mais natural do que utilizarmos a língua franca não oficial em nossa HQ. Queremos que o maior número de leitores tenha acesso à nossa revista. Para isso, precisamos quebrar a barreira linguística imposta pela língua portuguesa.

Caos!

Contribua com o projeto AQUI.

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ENTREVISTA COM RONALDO BARRETO, DIRETOR DO FILME “BRANDÃO”

No último sábado, dia 7 de dezembro, como parte das atividades do Festival ManiFesta!, no lounge do Centro Cultura Dragão do Mar (Fortaleza-CE), foi exibido o documentário BRANDÃO, média metragem dirigida pelo egresso editor do site Quadrinhos em Questão, Ronaldo Barreto, que conta parte da história dos quadrinhos cearenses utilizando o artista Daniel Brandão como linha narrativa.

O diretor do filme concedeu uma entrevista ao Cultura de Quadrinhos, a qual você confere a seguir:

CQ. O filme possui um direcionamento histórico muito forte, sustentando-se na figura de Daniel Brandão como o centro da sua narrativa documental. Por que Daniel Brandão foi sua escolha?

RB. Conheci o Daniel Brandão, em seu estúdio, no ano de 2007. Com o passar dos anos, e à medida em que fui aprendendo mais sobre a história dos quadrinhos cearenses, percebi que ele havia participado de alguns momentos importantes da cena local nos últimos vinte anos: a Oficina de Quadrinhos da Universidade Federal do Ceará, na época em que era publicada a PIUM; a criação da revista do Capitão Rapadura, o primeiro super-herói cearense e que havia ficado na gaveta, após ser criado pelo cartunista Mino, por mais de duas décadas e o surgimento do fanzine Manicomics, vencedor de três HQ MIX na categoria Melhor Fanzine. Soma-se a isso, também, o fato dele ter estudado na Joe Kubert School, uma das escolas formadoras de quadrinistas mais conceituadas do mundo, no momento em que ocorreu o atentado de 11 de setembro de 2001. Por conta de tudo isso, notei que a sua trajetória era um ótimo fio condutor para se fazer um registro sobre um determinado período da história da nona arte cearense.

CQ. Há algo bem interessante do meio para o fim do filme que é deixar um pouco de lado a arte de fazer quadrinhos ou mesmo o artista Brandão e concentrar-se na construção de “um artista”, elevando o tema a uma simbologia mais universal. Desde o começo foi o que você esperava fazer ou essa visão do filme foi mudando conforme a produção foi caminhando? Como, em si, se deu esse direcionamento e porque tomá-lo?

RB. Com certeza foi mudando conforme a produção foi caminhando. Apesar do filme ter a trajetória de um quadrinista como foco, percebi que havia algo a mais: a história de um rapaz que superou um conflito e foi em busca do seu sonho. Todos nós, dia após dia, somos submetidos a fazer escolhas e algumas delas nos obrigam a adiar ou até mesmo abrir mão de algum sonho que pretendemos realizar. Creio que esse detalhe, que é bastante passível de identificação, tenha proporcionado esse caráter universal.

CQ. Qual a relevância de um documentário como esse pras HQs cearenses nesse momento de lançamentos conjuntos – como a edição comemorativa dos 40 anos do Capitão Rapadura – e a presença de cearenses em eventos grandes de quadrinhos, como o FIQ?

RB. Foi uma feliz coincidência o filme ter ficado pronto no mesmo período do lançamento do álbum Capitão Rapadura 40 anos e da presença marcante de autores cearenses no FIQ. Acredito que o filme possa, daqui a alguns anos, se tornar um registro importante sobre uma pequena parte da história dos quadrinhos cearenses e que é pouco abordada. Espero que seja apenas o pontapé inicial para que surjam mais produções audiovisuais a respeito de uma parte da nossa cultura que não é devidamente valorizada.

CQ. Falando sobre detalhes técnicos, o filme é bem curto, 35-37 minutos. Houve muitos cortes? Qual foi o critério para manter em cena aquilo que vimos?

RB. Sobre o tempo de duração do filme, isso é relativo. Para o grande público, 35 minutos pode ser considerado pouco. Mas, para as pessoas que estão inseridas no audiovisual, esse tempo pode ser considerado muito. Alguns colegas, por exemplo, me disseram que fui ousado, logo no meu primeiro filme, ter feito um média metragem. Você precisa, de fato, ter material que sustente uma produção de 35 minutos, pois você corre o risco de ter um filme que “enrole” demais o espectador até chegar ao que realmente interessa. Esse foi o critério usado na montagem para se chegar ao resultado que você pode conferir: ir logo ao que interessa.

5. Quanto tempo levou para a produção?

RB. A produção durou, ao todo, 1 ano e 3 meses. Filmamos entre outubro e novembro do ano passado. Ocorreram alguns problemas de ordem técnica, mas o que realmente deu trabalho foi a pesquisa. Durante a montagem, percebi que o material que eu havia coletado durante a pré-produção era insuficiente. Portanto, adiei até obter o que considerei necessário para continuar a pós-produção. A ajuda de artistas como Mino (que me forneceu verdadeiras relíquias), Mike Deodato, Roger Kruz, Vitor Batista, Lene Chaves, Fernando Lima e Sérgio Cariello (desenhista brasileiro que foi professor do Daniel Brandão na época da Joe Kubert School), por exemplo, foi fundamental. Simplesmente, não haveria filme sem o apoio deles e de tantos outros.

CQ. A estética do filme lembra a de outro documentário: Profissão Cartunista, sobre Will Eisner. Essa referência foi premeditada? Por que a escolha dessa amostragem?

Inicialmente, eu não tinha a intenção de usar a estética que foi empregada no filme. Confesso que fiquei com receio de ser considerado clichê e, até mesmo, de ser apontado como infantil (um documentário sobre um quadrinista e usar, de cara, a linguagem dos quadrinhos e vários desenhos como referência, no mínimo, achariam que essa opção seria pura falta de originalidade). Contudo, eu apertei o botão do f…-se e fiz o que realmente tava afim, tornando a narrativa mais dinâmica e prendendo a atenção do espectador do início ao fim.

Espere mais novidades para vermos onde o filme será exibido.

Imagem promocional da película.

CAPITÃO RAPADURA 40 ANOS – OU COMO AS COISAS PODEM MUDAR A GENTE.

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Eu pensei muito antes de escrever esse texto. Mesmo agora, quando as letras (em sua mordaz brevidade) surgem na tela, eu ainda tenho dúvidas se ele deveria ser escrito. Eu me privei de muitos comentários sobre a obra Capitão Rapadura 40 anos, a qual, com muito zelo e às vezes temperança e um pouco de desistência, dediquei quase dois anos da minha vida (e argumentação) pra ver acontecer, porque sempre acreditei que não fosse minha (na verdade, ainda acho isso), afinal, o personagem foi criado pelo Mino e minha história é uma das mais curtas, somente 4 páginas, e salta mais aos olhos o trabalho do impressionante Cristiano Lopes que o meu texto. No entanto, olhando agora o trabalho terminado, a edição concluída, a beleza de como está, é impossível eu não me furtar a algumas palavras.

Antes de tudo é preciso que eu agradeça a todos os autores que participaram, e eles não são poucos. São 25 artistas cearenses, todos com alguns anos de experiência na área e que poderiam, educadamente ou não, negar terem participado do projeto. Simplesmente porque tomaria seu tempo, muitas vezes tão curto, e porque do primeiro momento até um pouco antes dos três últimos meses do projeto, não havia perspectiva nenhuma de que o álbum seria editado, por isso, recebi muitos “nãos” antes de receber os “sims”.

Por um instante cheguei a não acreditar – mesmo com toda a empolgação de vários autores que me pediram guias de personagem, material de pesquisa, dicas e opiniões – até receber os primeiros layouts. Mesmo naquele momento eu duvidava um pouco,  com aquela sensação de: “será que tem mais além daqui?”. Teve: páginas. Pessoas que fizeram o trabalho em aquarela, mantiveram o preto em branco, usaram técnicas de computador, retículas, montaram equipes… Foi tanta coisa e tudo tão lindo que meu desejo em ver aquilo pronto logo se exasperou. Revi contatos, procurei pessoas, fiz ligações, analisei editais. Apesar do belo trabalho em mãos, ainda havia dúvidas e dúvidas costumam ser respondidas com negativas.

Nesse ínterim, recebi o trabalho de outros autores e, pela primeira vez, vivi o teste de negar artes ou mandar voltar trabalhos. É um momento bem delicado do editor fazer isso, mas é preciso. Quem cuida do projeto sabe o rumo que ele está tomando, por isso é preciso evitar “ruídos” ou trabalhos que não se adequam ao escopo final pretendido. Alguns receberam com profissionalismo, outros nem tanto, mas o pior é quando a informação passa por terceiros e a correção chega como uma negativa e bons trabalhos são deixados de lado porque uma comunicação clara não foi mantida. Isso é uma grande pena mesmo.

Enfim, entrando 2013 – o ano em que a edição deveria ser lançada – novo fôlego foi erguido, influenciado pela boa recepção do público à apresentação da obra no dia do quadrinho nacional, mas depois veio fevereiro e as coisas parecem ter sido deixadas de lado e o desejo amornou de novo. Projetos pessoais tomaram a cena e o Capitão Rapadura sofreu nova derrota, compreensível em certos pontos, mas não menos frustrante.

A partir desse ponto eu estava desesperançado. Os artistas, não quero nem pensar. Tenho certeza que pra eles a coisa toda soava como um deja vu: mais um projeto que não dava certo, mais tempo perdido, mais uma aposta vencida. Comecei a sentir pena de mim mesmo por ter acreditado tanto e, pessoalmente, sentia minha credibilidade abalada. Minha esposa me olhava e dizia: “vai dar certo. Tenha fé” e tudo o que eu pensava era “a fé me trouxe aqui, nesse deserto. E aí? De que adiantou?”, mas guardei o pensamento comigo, na bobagem machista de guardar os problemas pra si e não dividir.

Então, da fonte mais inesperada, da pessoa que eu menos imaginava, veio um convite (ou devo dizer um ultimato?). Ronaldo Barreto estava envolvido com outras coisas, preocupado com tantas coisas que quando ele me ligou afirmando que tinha marcado uma reunião pra mim no Armazém da Cultura eu não acreditei. A lição de humildade dele foi maior ainda porque eu sabia que Ronaldo tinha projetos próprios e eu sei sua qualidade como escritor pra pegar uma oportunidade dessas e fazer um bom trabalho e ganhar uma grana legal pra si mesmo, sem se preocupar com qualquer um. Mas não foi o que ele fez. Ele preferiu lembrar de todos que se empenharam pra fazer essa edição especial e ao invés de pegar a oportunidade pra si, decidiu agarrá-la pra outros. Sem pedir nada, sem exigir nada, sem querer nada. Não há palavras pra agradecer isso. Não há atitudes que se façam pelo outro que paguem isso, porque é um gesto sem preço. O que pude fazer foi convidá-lo a participar com uma introdução e linha do tempo e, novamente, ele mostrou extrema felicidade e humildade ao aceitar o convite como se ele fosse bem menor e mais simples que aquilo tudo. Acho que ele nem desconfia, mas ali ele foi meu herói.

O Armazém da Cultura nos recebeu, viu o material e acreditou em seu potencial. Empregaram todos seus recursos e talentos pra injetar uma qualidade até então impensada por mim e apresentar em pouco tempo uma obra que seria um marco dos quadrinhos cearenses. Foi momento então de mostrar o resultado disso tudo ao Mino, criador do personagem. Um medo inicial, uma dúvida, uma incerteza… no final, lágrimas nos olhos do pai do Rapadura me emocionaram, mas também me aliviaram. Tínhamos acertado. O trabalho de todos não foi em vão. Sorria pr’aquilo tudo com uma coragem vitoriosa, uma alegria contagiante. Mas ainda não era o momento de comemorar, ainda havia o grande teste de público. Sempre o mais assustador.

A obra viajou então para o Festival Internacional de Quadrinhos – FIQ – em Belo Horizonte, mas não recebeu o tratamento esperado pelo público, apesar de agraciada pelos autores presentes. Voltando a terras cearenses, foi lançada na Universidade de Fortaleza, num auditório com pouquíssimas pessoas, a maioria amigos e familiares. Meus medos voltaram, minhas incertezas aumentaram e o Mino somente dizia: “é só o começo”, mas meu coração desacelerava.

Aí veio o dia 30 de novembro de 2013. Auditório da Livraria Cultura em Fortaleza. Casa cheia. Gente sentando no chão. Idosos, jovens, crianças. Eu nunca imaginei em anos que poderia ver algo assim. Dividi o espaço do lançamento com Liz, de Liz e Daniel Brandão, e Brincadeiras de Sol e Mar, do escritor Flávio Paiva. No palanque, esses artistas, Mino e eu. Nervoso como nunca estive antes. Foi tudo mágico. Mino ainda leu uma carta feita pelo Capitão Rapadura. Com louvor, escondi uma lágrima que queria escorrer pelo meu olho. E por mais estranho que fosse, na minha cabeça só tinha uma coisa: “as crianças vão adorar isso aqui”. Coisa de professor, eu acho.

Mesa de autógrafos. Revi amigos, familiares, conheci pessoas novas. Todos estavam felizes. Eu estava cansado. Falando de maneira bem pessoal, fiquei contente ao ver meus avós, que saíram de suas longínquas casas para me ver, me prestigiar. Foi um presente isso. Também revi meu pai. Há um tempo que não nos falamos tanto, mas eu sempre quis que ele visse o que eu fazia. Aquém de qualquer diferença que existe entre nós, ele estava lá e isso significou bastante pra mim. Ele foi o único que recebeu um autógrafo não nas folhas iniciais, mas na minha história. A sempre contagiante alegria de minha mãe encheu o espaço que nos separava. Não dava pra ficar triste com aquilo. Mas, no final das contas, o que mais me comoveu foi o toque no meu braço de minha esposa. Ela  fez um sinal com os olhos, falou ao meu ouvido. Era tudo o que eu precisava. Quando se escolhe uma nova vida, teme-se o que pode vir do outro, as negativas, as exigências, os sacrifícios, os extremos. Ela me mostrou que uma vida se faz juntos e que temer sozinho paralisa, mas temer com outro nos move. Eu sei que os passos que dei não seriam tão seguros se não fossem as certezas dela de que iríamos conseguir. Iríamos, porque uma vida não se faz sozinho, seja em casa, no trabalho ou com os amigos. Por isso que agradeço os elogios dados a mim ao fazer essa edição, mas eles não são somente meus, mas de todos, inclusive daqueles cujos nomes não estão nos livros: nossos professores, amigos e familiares.

Capitão Rapadura 40 anos não é uma obra de um só, mas de várias pessoas, parceiros, amigos, famílias e, por isso, de um estado inteiro, uma nação inteira, porque Rapadura nada mais é que todos nós.

Obrigado, pessoal.

Parafraseado Mino: “é só o começo”.

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