SUPERMAN (O FILME): O TEMPO & MOVIMENTO, E O TRÁGICO

Por Al Duarte – revista eletrônica Zinext (gentilmente cedido a Cultura de Quadrinhos)

Cristopher Reeve em Superman - O Filme

Cristopher Reeve em Superman – O Filme

Uma porção de chatos e sem poesia na vista comentam a clássica cena de Superman “mudando como um deus o curso da história, por causa da mulher“; girando o planeta em sentido inverso e “interferindo na História Humana” como soava Jor-El. Impertinentes cientificistas caluniaram a cena do filme, tagarelando que fazer a Terra girar ao contrário, primeiro, provocaria um cataclismo de proporções absurdas, pois tudo que há na Terra se esfacelaria com a inércia. Depois, girar a Terra ao contrário apenas seria um movimento de rotação ao contrário, não tem a ver com o tempo histórico. Assim a cena fica esvaziada de seus signos.

Como dizem os manuais de fazer quadrinhos, no entanto, o sensação de Tempo vem da sequenciação dos quadros, e, de fato, toda a noção que temos de Tempo é derivada do Movimento. O Tempo em nosso senso comum é subordinado ao Movimento; é sucessão de movimentos. Conhecemos as horas nos relógios pelos ponteiros que giram; o dia se passa com o movimento dos astros. A História é uma sucessão de anos e séculos. Onde quer que vejamos o Tempo, aí há muito mais e apenas sucessão de Movimento. Os rudimentos básicos de nossa organização mental e social do Tempo e da História: Passado, Presente, Futuro, sempre linearmente, não passam de noções extraídas do movimento no espaço, de nossos hábitos. É a linguagem do deslocamento pelo espaço servindo para compreender o Tempo.

Daí Jor-El, em sua sabedoria elevada de kriptoniano está corretíssimo em seu alerta: “É proibido interferir na História…!” Sim, pois Superman está querendo reverter o movimento, as causalidades encadeadas dos fatos, logo, a ordem da sucessão dos movimentos – a História, a seta do tempo: passado-presente-futuro. O pensamento de Superman está correto se observarmos os signos da cena, não tendo-a como representação de fatos científicos (como convém à arte!): retorna o o movimento, retorna o tempo Cronos. Aí é todo o auge do filme exibindo a potência do Superman, ele, como todos os heróis, é aquele que quer repor o mundo nos eixos, reverter os movimentos aberrantes do mundo, causadores dos acidentes. Aqui é um terremoto desmoronando a Terra, muito significativo isso. Superman é o herói elevado a deus, e acima dos heróis, pode reverter as causalidades, os movimentos aberrantes do mundo para recolocá-los nos eixos. Essa cena “demonstra”o Superman.

Mas eu me permito uma leitura singular da cena: a Terra desmoronava e se abria efetuando estrondosos acidentes. Superman ao ver sua amada morta, num ato de desmedida (hybris) trágica, tomado de fúria amorosa, acelera e intensifica os movimentos aberrantes da Terra – como para libertar o Tempo do Movimento!… Não é um ato exatamente bondoso de salvação, do tipo moral que apenas salva a donzela. É um ato cruel, disparo desgraçado e bendito de herói trágico, rompendo as regras, desobedecendo o pai, estraçalhando as causalidades, fazendo o mundo circular em fluxos intensos, e misturar o passado e o presente e o futuro. O Superman nessa leitura não é o “escoteiro azul”, é Prometeu, é Ajax, é Dionísio acelerando o Apocalipse. Mas… que estranho! Retornando, ele encontra o mundo em paz; Lois está viva, a Terra sarada de seus desmoronamentos. Por quê? É que para os trágicos e intensos há sempre uma salvação pela Repetição, o Eterno Retorno do Diferente. Há uma restituição miraculosa do Mesmo-e-no-entanto-Outro! Para os heróis trágicos há sempre uma redenção final que emerge da perdição absoluta! Comédia aflorando da tragédia, uma devolução de cem vezes mais. Pois a Terra que retorna, milagrosamente, retorna diferente.