A IMPORTÂNCIA DOS ARMISTÍCIOS

Sábado passado (19/01/2013) foi comemorado o Dia do Quadrinho Nacional em Sobral, o qual tive a honra de participar a pedido do amigo Zé Wellington. Sábado agora (26/01) será o de Fortaleza e no sábado seguinte (02/02) o de Limoeiro.

Logo que cheguei fui recebido por Lederly, Zé, André Pinheiro e Fernando Lima, horas depois, José Luís fechava a trupe, caras que admiro e respeito. Comemoramos o reencontro, mas, em algum momento – desconfio que a coisa veio de Lederly -, comentamos que poucos nos encontramos pra beber e conversar bobagens fora do ambiente de eventos e quadrinhos. Apesar de ter, com justiça, o tom de cobrança, sei que Lederly falou mais por diversão que desaforo, mas a situação é de se parar pra pensar.

Durante muito tempo em Fortaleza, o cenário das histórias em quadrinhos era algo como um bairro “barra-pesada” em algum filme dos anos de 1980: várias gangues com suas áreas de dominância e que, por algum motivo – na maioria das vezes, somente egocentrismo ou preconceito, imaturidade, entre outras razões idiotas, além de algumas sim relevantes -, não poderiam de maneira nenhuma bater um papo, trocar experiências ou pensar em trabalhos juntos e, quando por ventura se encontravam, travavam alguma discussão ridícula onde denegriam/elevavam autores e obras diferentes, esperando difamar/insultar os colegas/inimigos da “gangue” rival. Isso foi muito ruim para os quadrinhos porque distanciou os artistas a tal ponto que muitas vezes uns não sabiam o que os outros faziam e, como toda separação, não aprendiam/ensinavam com e aos colegas de profissão. Baque maior sofreu o “movimento quadrinhos” que estava tão diluído que não fazia nenhum sentido existir, nem mesmo gerar um evento ou um cenário formador. Depois de alguns anos o que aconteceu é que a guerra de gangues acabou por formar uma série de desconhecidos pra si mesmos e, com tristeza e pesar, para o público.

Anos depois, a coisa mudou de figura. Sim, ainda há gangues (eu mesmo tenho as minhas), mas as pessoas se comunicam melhor, dividem mais, interagem melhor mesmo tendo opiniões diferentes. Acredito que essa situação mudou por conta de encontros como esse do Dia do Quadrinho Nacional que, mais que uma data com um evento comemorativo, se tornou nosso “armistício”, aquele momento onde artistas e leitores se conhecem, se reencontram, trocam experiências e até fazem pactos de parcerias, deixando de lado algumas rixas em respeito a algo maior.

No “vácuo” desses sentimentos de trégua, uma galera mais nova têm conhecido seus ídolos e aprendido com seus erros, seja em técnicas e trabalhos, seja em relações humanas e, diferente do passado “gangueiro”, fica um futuro promissor, pautado em amizade, respeito e coleguismo.

Avengers Armistício

Uma pausa pra um lanche e um bom papo às vezes é tudo o que precisamos pra aceitar as diferenças.

Descrevo aqui um dos melhores resultados dos DQN e, pra mim, a face do novo quadrinho cearense. Lederly, Zé Wellignton, Fernando Lima, André Pinheiro, José Luís e eu somos de diferentes origens e gerações dos quadrinhos, gostamos e produzimos coisas diferentes, mas nos damos bem, conversamos juntos, trocamos experiências sobre trabalho, ouvimos uns aos outros e nos respeitamos acima de tudo. Pessoalmente falando, Fernando me ensinou uma série de coisas sobre impressão e escolha das gráficas corretas. Zé e eu nos vemos como artistas de idades e, por isso, referências e pensamentos muuuito próximos, uma honra ter dividido uma edição com ele. Eu diagramei e escolhi as artes do artbook do José Luís e fiquei muito feliz com o resultado final e com a resposta positiva del. Ainda não tenho nenhum trabalho com Lederly, fora o projeto CR40, e sempre tive dúvida se algum dia poderíamos dividir pranchetas, tendo em vista que o onírico de seu trabalho parece distante de minha produção comum, surpresa minha ao saber que ele já tinha algo em mente. Sim, somos de “gangues” diferentes, é verdade, mas, ainda assim, gangueiros de uma mesma paixão, por isso, acima de tudo, irmãos.

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