REVIEW 4×4

Poucos devem saber, mas Fernando Lima é uma das figuras mais importantes do quadrinho cearense. Foi um dos primeiros professores da Oficina de Quadrinhos da UFC, presenciou/participou de um dos períodos mais ativos da produção de quadrinhos do estado (Manicomics-Panorama Nona Arte), tendo sido o mestre de alguns dos artistas de celebrada carreira desse período e após ele. Hoje é coordenador do Fórum de Quadrinhos do Ceará – grupo cuja data de formação é considerada, por este que vos escreve, como marco temporal da “retomada” do quadrinho cabeça-chata -, editor do site Armagem.com e um dos produtores mais ativos que tenta – se possível com ajuda, se não do seu jeito mesmo – sempre publicar seus trabalhos e o de amigos e parceiros, utilizando-se, inclusive, de ferramentas modernas (há muito ele abandonou o uso do papel para seus desenhos, fato não seguido por muitos artistas jovens, e sempre está atualizado sobre ferramentas digitais de produção de HQs). Atualmente também é conhecido com o criador do Fantasma Escarlate e parceiro de JJ Marreiro no projeto HERÓI Z.

O fato de ele encabeçar a edição de um trabalho seria, por si só, algo que merecia ser visto. No entanto,  a tal publicação – chamada genialmente de 4×4 – é de extrema importância histórica porque resgata artistas que estavam há algum tempo longe de atividade e que são mestres e referência para praticamente todos os que vieram após eles. Acredito, por sinal, que todas as histórias são inéditas e isso dá um vigor único à jurássica obra. São eles, além do próprio Fernando, Geraldo Jesuíno – o dragão dourado dos quadrinhos cearenses -, Silas Rodrigues e Walber Feijó.

Enfim, indo ao quadrinho em si, sua grandeza é rodeada de simplicidade. Com o espaço limitado de 4 páginas, um universo de possibilidades se torna além do ilimitado – uma maneira poética de dizer que as histórias possuem o descompromisso de seguirem a mesma estrutura, com ideias, temas e mensagens bem diferentes de si. Cada um dos artistas fixou-se em trazer contos que tivessem sua mensagem compreendida da maneira mais objetiva possível, tratando seus roteiros (e arte) com cuidado, tentando estabelecer uma identidade única de si mesmos.

A primeira história, “Instinto Materno”, do próprio Fernando, é uma visita do autor ao seu traço cartum e envolve temas de fantasia, terror e sci fi com um final bem forte e surpreendente. Nada infantil por sinal. Tão marcante e segura quanto um bom filme. Vale a pena ler e reler.

Geraldo Jesuíno, idealizador e criador da Oficina de Quadrinhos da UFC, é o segundo na sequência do quadrinho e mostra porque a alcunha de “grande dragão dourado” não é exagerada. Apesar da escolha clássica pela página gradeada, ele se usa de recursos narrativos que dão um tom de artes plásticas e levam a história a um ponto sensorial, bem além mesmo do básico “texto e imagem”. Arrisco dizer que, depois de tantos anos, Jesuíno ainda nos faz sentir na escola.

Silas, por sua vez, traz uma história marcadamente bem humorada – que, por sinal, fez um bom contraponto com as duas anteriores, tendo em vista os temas “pesados” delas e ainda serviu como uma ponte perfeita para o derradeiro conto; novo ponto positivo pra edição – utilizando-se de um dos pontos mais preciosos numa HQ: a passagem de tempo. Não há como dizer mais sem correr o risco de entregar a piada. Tem de ler pra conferir.

Por fim e não menos importante, Walber Feijó que, além de ter entregue uma grande história – também seguindo uma lógica próxima a de Silas – destaca-se sua esmerada arte, tão simplesmente bem feita como uma boa arte de quadrinhos deve ser. Há um “quê” de qualidade com alguma influência europeia de fazer inveja a muito filhote de Marvel/DC por aí. De se encher os olhos.

Faz alguns meses que a obra foi lançada e parece ter passada despercebida pelos “radares” de alguns leitores, inclusive os mais assíduos – e nisso me incluo, tendo em vista que essa resenha deveria ter saído durante seu lançamento, alguma coisa entre março e julho – e pouco bafafá teve. No entanto, isso é preciso frisar, é uma obra de grande importância e extrema qualidade, um tratado de respeito aos bons quadrinhos e a manutenção do legado dos magníficos narradores. Fernando chegou a comentar que gostaria de fazer mais dessas e eu apoio a iniciativa, principalmente porque apoio ter uma coleção de boas histórias… em 4 páginas.
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