DICAS DE ROTEIRO DE ROBERT McKEE

Em 2011, Robert McKee, professor de alguns dos mais premiados roteiristas de Hollywood, esteve no Brasil em uma palestra sobre roteiro e técnicas de escrita. Na ocasião, a revista ÉPOCA fez uma entrevista com o mestre – que foi publicada na edição de abril da revista – e listou alguns de seus ensinamentos, os quais transcrevi a seguir. Leiam e pensem a respeito.

LIÇÃO MAIOR DE TODAS: O CINEMA [ao meu ver, qualquer obra] DEVE ENSINAR ALGUMA COISA

MANDAMENTOS

1. RESPEITARÁS TUA AUDIÊNCIA jamais subestime a inteligência de seus espectadores. Supere suas expectativas e apresente algo a mais;

2. PESQUISARÁS estude o tema a ser abordado parar tornar o filme atraente para leigos e especialistas;

3. DRAMATIZARÁS TUA APRESENTAÇÃO torne atraente, dinâmica e bem amarrada a história que pretende contar;

4. CRIARÁS CAMADAS DE SIGNIFICADOS SOB TEU TEXTO a superficialidade não é perdoada por espectador algum, seja o comum, seja o mais treinado;

5. CRIARÁS PERSONAGENS COMPLEXOS, NÃO HISTÓRIAS COMPLICADAS ninguém entende histórias difíceis ou se identifica com personagens simplórios;

6. NÃO USARÁS FALSO MISTÉRIO NEM SURPRESAS BARATAS truques como acordar de um sonho para resolver o problema do filme estão fora de cogitação;

7. NÃO USARÁS DEUS EX-MACHINA PARA TEUS ENCERRAMENTOS se a solução vem de alguém que não estava na história, o espectador se sente ludibriado;

8. NÃO FACILITARÁS A VIDA DE TEU PROTAGONISTA se não houver transformação, não há porque contar a história;

9. LEVARÁS TUA HISTÓRIA ÀS PROFUNDEZAS E EXTENSÕES DA EXPERIÊNCIA HUMANA apresente ao público o que ele espera e ainda assim o surpreenda.

10. NÃO DORMIRÁS COM NINGUÉM QUE TENHA MAIS PROBLEMAS QUE TU licença poética. Você é quem tece as tramas.

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O ETERNO E A ETERNIDADE

Dia 10 de março, Moebius morreu. Ele foi um dos maiores artistas que existiu. Em uma semana, isso já tinha virado notícia velha. Agora então, nem sei. Antes dele, ainda esse ano, outros tantos também partiram. Artistas de importância ímpar, pioneiros e geniais dentro de suas searas. Mas a verdade é que muitos não vão mais lembrá-los.

Talvez nem devam. Mesmo que essa seja uma afirmação ridícula por parecer generalizada demais.

A verdade é que o mundo pede por renovação de suas artes. Quando o assunto é quadrinhos, que possuem uma “fase de vida” muito curta, estritamente ligada às mudanças sociais, aí sim a coisa se torna evidente: mestres do passado são superados pelo mercado “narrativo” ditado pela tecnologia e novas formas de entretenimento. Boas fórmulas são repetidas exaustivamente em tão pouco tempo que é impossível não se desejar uma mudança.

No entanto, que mudança seria essa?

Houve uma época que os quadrinhos não passavam de desenhos lado a lado em piadinhas forçadas. Will Eisner, Winsor McCay e vários outros trouxeram iluminação, narrativa, design de página, histórias e personagens mais complexos e elementos que elevaram essa mídia a um ponto em que ela pode realmente ser reconhecida como ARTE. Anos depois, quando essas mesmas fórmulas precisavam de renovação, Frank Miller, Neil Gaiman, Allan Moore e outros malucos deram um novo salto, consolidando temas adultos e amadurecendo as HQs. Desde então nada foi como antes. Ou melhor, nada mais é de outro jeito…

Na verdade e na mentira, no bem e no mal, [Will Eisner, Moebius, Al Rio, John Buscema etc.] representam uma época [ou, no caso, várias]… que agora se encerra! Novos heróis surgirão, mas não serão melhores homens!

Willy ‘Poe’ Richards – Mágico Vento 100

Essa é uma grande verdade. A Era dos Quadrinhos chegou ao fim. Os tablets e eletrônicos de portabilidade trazem uma nova possibilidade de narração de histórias, mas, infelizmente não têm trazido novas histórias. E os autores regurgitam fórmulas antigas, repetindo-as como referências com fonte 2 tamanhos menor e recuo de 3 centímetros, o que serve como base para um argumento, mas não sustenta ou imortaliza uma história.

Sei que pareço negativo com todas as minhas afirmativas. Mas venho aqui com a função mínima de arauto carregando o aviso de uma verdade que está excessivamente óbvia em nossas caras: os mestres estão partindo. É preciso aceitar isso. É triste e desolador e é ainda pior saber que seu legado pode vir a ser esquecido. E a coisa parece ainda pior porque não existe ninguém para substituí-los, para, enfim, guiar as gerações que cada vez se afastam mais deles.

Falta quem inspire os novos. Simplesmente porque somente nos murmuramos sobre a perda daqueles que nos inspiraram ao invés de aprendermos com eles e darmos o passo seguinte.

Afinal, que autores estamos nos tornando? E pra que leitores? Acho que são questões pertinentes e que tem de começar a ser respondidas por nós mesmos.