RELATOS HISTÓRICOS DE QUADRINHOS

Amigo e apoio do Fórum de Quadrinhos do Ceará e um dos articulistas deste blog, Eduardo da Silva é também um grande pesquisador sobre a história das Histórias em Quadrinhos. Em seus estudos ele encontrou uma matéria editada anos atrás por uma revista com a entrevista de três das mais importantes figuras dos quadrinhos nacionais, Storni, Yantok e Loureiro, responsáveis pela revista Tico-Tico.

Confiram a matéria a seguir:


TRÊS CARICATURISTAS DA VELHA GUARDA
STORNI-YANTOK-LOUREIRO
OS PIONEIROS DAS HISTÓRIAS INFANTIS RECORDAM OS BONS TEMPOS E CONTAM ANEDOTAS DE SUA VIDA. ENTREVISTA COLETIVA CONCEDIDA A “REVISTA DA SEMANA” PELOS TRÊS MOSQUETEIROS DA CARICATURA INFANTIL.

Desde os tempos saudosos dos irmãos Grimm e de Anderson, que a literatura infantil vem constituindo uma séria preocupação dos homens cultos. Os contos para crianças têm sido, há muito tempo, difundidos através de edições sucessivas de livrinhos e folhetos, por todas as escolas e por todos os lares. Antes do aparecimento das coleções editoriais especializadas já existia, entretanto, uma modalidade de difusão de histórias infantis, através das “contadeiras”, que percorriam as fazendas e os banguês, levando à criançada a alegria dos romances orais que tinham, contados por sua boca, um encanto todo próprio. Em torno à chama de lampeão, a garotada antiga ia aprendendo, através das histórias de “siá” Maria, todo um folk-lore engraçado e terrífico, cujas figuras lendárias acompanhariam por tôda a vida a sua imaginação. Quando faltava a visita da “contadeira” à casa paterna, os meninos se deleitavam com as histórias de Carlos Magno e dos Doze Pares, que os mais velhos liam em voz alta.

Um dia, vindo da Inglaterra, chegou até nós o primeiro magazine infantil, apresentando histórias ilustradas em cores. Não apareciam ali os personagens de Grimm. Rolando não era aproveitado nos quadros das historietas. As figuras eram novas, contemporâneas, usavam roupas iguais às dos homens da época, falavam em linguagem compreensiva e usual. Ademais, a revista aproveitava sempre em suas histórias as aventuras de um herói juvenil, mostrando-o como paradigma para lições de moral à criançada daquele tempo.

À idéia fez sucesso em todas as latitudes e os povos de idioma diferente aproveitaram-na sem reservas. A França teve os seus periódicos infantis em grande quantidade. Depois foi a vez da Suíça. O Brasil não ficou atrás. “Após as tentativas frustradas, apareceu um semanário: O Tico-Tico”, que fez as delicias de muitas gerações. A revista era uma adaptação dos magazines estrangeiros do gênero, mas primava justamente pelo caráter nacional de suas idéias e de seus personagens, do tema e dos ambientes das historietas em quadrinhos.

A imprensa periódica dedicada às crianças brasileiras nos apresenta, ao contrário, uma mudança brusca, do primeiro número de “O Tico-Tico” às atuais edições das coletâneas de histórias americanas traduzidas para o nosso idioma, que os jornais especializados nos mostram em tricromia.

Os garotos contemporâneos afeitos à leituras exclusivas dessas fôlhas já não aprendem os problemas brasileiros, já não sabem quem foi Fernão Dias. Nenhum dêles conhece um herói nacional; a sua admiração é toda dedicada aos heróis fantásticos das histórias irreais dos semanários americanizados. Standardizaram-se assim as inteligências jovens da nação, que pensam agora de acôrdo com os croquis traçados pelos sindicatos novaiorquinos de copyright e as agências de publicidade de Chicago. Queremos aqui lembrar o perigo que algumas vêzes representam para a formação intelectual das novas gerações.

Histórias estandardizadas espalhadas pelo Brasil.

Na America do Norte, um garoto que lê as aventuras do “Super-Homem” encontra um antídoto para essa ficção venenosa na biografia de Lincoln para crianças ou nas histórias de Washington e de Benjamin Franklin. Mas no Brasil, não fôra as edições relativamente pequenas das histórias de Narizinho e Emília, nada mais teríamos de aproveitável hoje, além de poucas coisas que nos apresentam, raramente historias próprias e sim histórias importadas.

Através de uma conversa com os pioneiros das histórias em quadrinhos – Loureiro, Yantok e Storni – todos êles, relembrando a épocas em que faziam a delícias dos garotos de todo o Brasil, repetirão em côro a frase de seus antigos leitores: “eram bons tempos, aqueles”…
CONVERSA COM O PAI DE BENJAMIN
O primeiro a ser procurado pela nossa reportagem foi o desenhista Loureiro, antigo autor histórias de “Chiquinho, Benjamin e Jagunço”, que apareciam sempre na última capa externa de o “O Tico-Tico.
Foi com saudade que o nosso entrevistado se lembrou das mais interessantes passagens daqueles tempos distantes. O grande sucesso de suas histórias infantis começou justamente em 1918, quando terminava na Europa o drama sangrento da Grande Guerra.

Quisemos, de início, saber a opinião do artista sôbre a atual imprensa infantil do país. Ele responde:
– Há atualmente apenas a realidade das histórias americanas, importadas através de grandes organizações comerciais, que mais não visam que o lucro direto. E essas histórias, muitas vezes, têm um fundo nocivo, ao contrário do que deveriam realmente ter. Quando as histórias da ùltima página de “O Tico-Tico” estavam sob minha responsabilidade, procurava, tanto quanto possível, dar-lhes um cunho instrutivo e educativo, encaixando-lhes, discretamente, alguns conceitos de moral. E, a julgar pelas cartas de leitores que me chegavam às mãos, o meu intento logrou êxito.


– Veja por exemplo – continua Luiz Gomes Loureiro – a história de Chiquinho em 1918.
E o desenhista mostra-se uma capa de “O Tico-Tico”, onde aparecem os seus heróis aprendendo com o “Papai” alguma coisa em tôrno dos “almofadinhas”, arcaísmo que, em boa linguagem da gíria atual, se traduz por “granfo” ou “bacano”. Na história, o autor revela aos meninos do Brasil a ação nefasta da ociosidade dos rapazes da cidade, em contraste com a miséria do Jeca Tatú.

A historieta era uma boa lição de verdadeira brasilidade, escrita em estilo e linguagem acessíveis, graciosa e amena, assimilável por qualquer criança, sem o pêso da linguagem usada pelo autores de hoje.

No último quadro apareciam os três famosos bonecos, “Chiquinho, Benjamin e Jagunço”, impressionados com a situação nacional. A imagem dos personagens nos traz aos lábios uma pergunta:  Os seus bonecos eram originais, ou simples adaptação de revistas estrangeiras? O desenhista explica:
– Chiquinho e Jagunço eram decalcados de um magazine inglês. O primeiro era a cópia do personagem “Maister Brown”, o segundo era o seu cachorro, ambas criações de Bud Fischer Senior. As histórias, porém, eram todas baseadas em argumentos brasileiros. E eu procurava dar-lhes sempre um cunho moral e patriótico. Para que elas se tornassem mais brasileiras, resolvi encaixar-lhes outro personagem típico.

CAPÍTULO INÉDITO NAS AVENTURAS DE CHIQUINHO: DE COMO BENJAMIN “SENTOU PRAÇA”
Loureiro continua a contar a história de suas histórias:


– O personagem a que me refiro foi o terrível Benjamin, o negrinho que tinha sempre os planos mais demolidores para as molecagens da turma. O trio fazia das suas. A princípio Chiquinho sempre se portava como uma espécie de Sancho Pança, temeroso de que as idéias de Benjamin dessem na clássica surra de escova que o “papai” coroava as suas aventuras. Mas tanto insistia Benjamin em seus planos “terroristas”, que Chiquinho perdia o bom senso e, acompanhados por Jagunço, êles faziam o diabo.

Nessa altura perguntamos ao artista: Benjamin foi apenas uma ficção, ou uma personagem inspirada em pessoa real?

– A figura do moleque não foi apenas inspirada numa pessoa viva. Foi, antes, decalcada de um pretinho, empregado em minha casa. A Inglaterra me dera o Chiquinho, na figura de Maister Brown. O Brasil me ofereceu Benjamin na pessoa de meu menino de recados. E isso foi motivo de muitos fatos pitorescos. Senão vejamos: um dia Benjamin, isto é, o meu empregado, se aproxima de mim e declara que está disposto a deixar o serviço. Inquirido sôbre a causa da decisão, o moleque declara que estava ficando nervoso com a sua popularidade. Não podia ir à quitanda, à leiteria, à farmácia sem que os garotos da rua lhe gritassem: “Olha o Benjamin do Tico-Tico, Pessoal!”.


– Para não perder a minha fonte de inspiração, fui obrigado a convencer o negrinho de que o que se lhe afigurava um transtôrno, era coisa cobiçada por muita gente ilustre. E o moleque aquiesceu, convencido já de sua glória.

– E Benjamin ainda existe?- Indagamos.
– Até hoje não sei. Na última vez em que me encontrei com ele, estava de boa saúde e envergava com orgulho uma farda da polícia militar. Mas como isto se passou há bastante tempo, não sei onde ele se encontra agora.
AS PÁGINAS DE ARMAR E AS CRIANÇAS GRANDES
Além de criador de Chiquinho, Loureiro foi também introdutor de uma novidade nas revistas infantis do Brasil: as páginas de armar. Essas consistiam em figuras coloridas, feitas especialmente para serem montadas em cartolina, formando máquinas, figuras humanas, conjuntos arquitetônicos, etc. Também a respeito das páginas de armar, Loureiro tem muitas coisas a dizer. É ele quem fala:

– Lembro-me de um fato, ocorrido do aparecimento da locomotiva “Chiquinho”, uma das primeiras páginas dêsse gênero por mim desenhadas. Logo após a publicação das figuras que serviriam de base à construção da máquina, entrou na redação um senhor de idade perguntando por mim. Apresentei-me, e o visitante foi logo dizendo que vinha reclamar contra a locomotiva. “Aquilo não era coisa para menino”, dizia êle. E continuou: “Eu mesmo, apesar de engenheiro, custei a montar a bicha”. O meu interllocutor só se deu por satisfeito quando lhe fiz ver que as páginas eram feitas justamente para que os meninos aprendessem a armá-las com o auxílio das explicações paternas.

E idéia continuava a fazer sucesso. Bondes de oito rodas, casas coloniais, tudo era oferecido aos leitores de “O Tico-Tico” que para possuírem êsses brinquedos desenvolviam a sua habilidade manual num trabalho paciente e instrutivo. Essas páginas constituíram aliás um dos maiores fatores de êxito da revista. Acontece que as crianças que se dedicavam à sua montagem muitas vêzes tinham títulos de doutor e cabelos brancos. Todos queriam ter a glória de armar com perfeição um bonde elétrico ou um presepe de cartolina.


YANTOK, CACHIMBOWN E CIA  
Passemos a falar de Yantok, outro dos pioneiros das histórias infantis no Brasil. Até hoje o criador de Cachimbown ainda se dedica com entusiasmo aos seus velhos personagens. Pipoca, Cachimbown, Gaspar, o inventor-maluco, ainda aparecem periodicamente nas páginas das revistas e dos jornais.
Queremos aqui, entretanto, mostra ao público, através das próprias palavras de Max Yantok, um pouco da sua vida de judeu errante da arte, vivida em muitas terras e no meio de muitas gentes. Quando lhe pedimos que  nos contasse a sua história, o caricaturista começou pelo princípio:

– Nasci há muito tempo no Rio Grande do Sul. Sou filho de pai italiano, neto de iugoslavo e de índio. Com seis anos de idade dei por mim em Nápoles, onde me criei. Ali vivi muito tempo e muito estudei. Consegui arranjar um título de agrimensor, outro de contador. Também me titulei em pintura e em violino. Agarrado à minha rabeca, deixei a Itália como primeiro violino de uma orquestra, que ia “fazer a  América” na Alemanha. Mas quem fez a América foi somente o “caixa”. Fez também a miséria da orquestra, fugindo com a receita de várias récitas, deixando os músicos a ver navios nas ruas de Munich.


Fui obrigado, então, a mudar de vida. Parti para Paris, onde tudo devia ser mais fácil. Lancei-me à caricatura, que era o que podia dar mais dinheiro. Ilustrei contos e “charges”, colaborei em “L`Ilustration” . Vendi muitas produções a cinco francos. Peregrinei depois por toda a Europa.

Um dia resolvi voltar ao Brasil, minha terra natal. Vinha fazer jornalismo. Eu já havia fundado e dirigido em Nápoles o jornal satírico “Monsenhor Perrelli”, que fez sucesso na época. Até 1921 tive notícias de que o jornal ainda vivia. Mas veio o fascismo e nunca mais soube nada dêle. Foi animado pelo sucesso de meu primeiro jornal que resolvi tentar aqui a caricatura e a “charge”. Havia conhecido Matania na Europa, e o seu sucesso me animava.

Desembarquei no Rio e comecei a caricaturar os maiores da época. Era no tempo da campanha do Hermes. As anedotas andavam de boca em boca. Foi então que lancei um vocábulo novo, que acompanhou durante muito tempo o nome do candidato. Esse têrmo, “urucubaca”, deriva-se de duas palavras tupi-guarani, língua que eu havia aprendendo em minha infância: “urubú” e “acabaca” que traduzidas ao pé da letra, significam “cheiro de urubú”. O vocábulo era utilizado como sinônimo de “peso”, “macaca”, “pitimba”, palavras que não se usavam ainda naqueles dias.

Passemos, porém, à parte que interessa à reportagem. Em 1908 comecei a colaborar em “O Tico-Tico”, criando a turma do Cachimbown e, mais tarde, lançando o Barão  da Rapapé, Parachoque, Pandareco e vira-lata. Até hoje os meus bonecos ainda aparecem para gerações novas, com a mesma disposição de espírito e sofrendo a mesma “urucubaca” que sempre fez com que tudo o que pensavam realizar saísse ao contrário.

Durante todo êsse tempo os meus heróis sofrem os mesmos males, têm os mesmos problemas insolúveis. O cachimbo de Cachimbown ainda é o mesmo cachimbo barato de 1908, e pipoca não conseguiu até hoje fazer uma operação plástica no nariz. No entanto, eu procuro torna sempre humorístico as situações críticas em que os meus bonecos se metem, tôdas as vêzes que pretendem realizar algo. O “Inventor Maluco”, Rapapé, todos eles sofrem no fim de cada história o pêso de suas próprias maluquices e a eficiência de seus inventos arrojados.

Deve frizar que os meus bonecos feitos para meninos não tinham atitudes políticas, ao contrário das caricaturas que fazia para jornais. E penso que, até agora, têm, tanto Rapapé quanto Cachimbown e Pipoca, cumprindo fielmente o destino que eu tracei para êles em 1908: Divertir a garotada.


STORNI FALA POUCO E DESENHA MUITO       
Agora Storni, falou pouco. Deu-nos um papel escrito a lápis, onde marcava os principais fatos de sua vida e de suas caricaturas. Aliás como quase todos os artistas, Storni deixa em seus bonecos um pouco de sua própria pessoa. Para prová-lo, nada melhor que os dois extremos de sua vida artística, representados pelas auto-caricaturas que ele nos ofereceu. Falemos da vida e da obra de Storni. É ele próprio que nô-las conta:

Cheguei ao Rio em março de 1907. Vinha o chamada de Luiz Bartolomeu. Para trabalhar em “O Tico-Tico” e “O Malho”. De santa Maria eu já havia enviando os meus bonecos que, publicados, alcançaram sucesso. Quando desembarquei na “côrte”, encontrei-me num trapiche de madeira. Envergava com orgulho um terno de xadrez marron e um colarinho da mesma côr. Um carregador me perguntou se eu pertencia a algum circo de cavalinhos, e se queria que ale carregasse a mala. Guardo até hoje bem vivas estas memórias das recordações de minha chegada triunfal à Cidade Maravilhosa, podendo me lembrar até, com nitidez, que na mala eu trazia outro terno e uma camisa. O resto do espaço era ocupado pelos meus castelos e pelas ideais de moço, que viajavam comigo. No outro dia eu era acolhido com a maior indiferença pelo proprietário de “O Malho”, que me apresentou ao velho Reis (Cabuhy Pitanga) e a Renato de Castro, diretor de “O Tico-Tico”. Comecei a fazer caricatura política em “O Malho” e a decalcar histórias estrangeiras para a revista infantil.

Um dia revoltei-me contra a monotonia das historietas estrangeiras e resolvi criar alguma coisa bem brasileira, para os leitores mirins. Foi então que me vieram à cabeça as figuras de Zé Macaco, Faustino, Serrote e Baratinha. Explorei com essa família, composta de mulher, marido, filho e cachorro, temas de interêsse local. O êxito foi estrondoso. Eis porque, sem uma interrupção, vem a família Zé Macaco, há 37 anos, aparecendo periodicamente às crianças do Brasil. E, como obra nacionalizante, penso que as aventuras desse pessoal têm alcançado o fim que eu visava.

Além disso, pretendo incutir nos espíritos infantis, através do grotesco e do ridículo, a verdadeira concepção da modéstia, da serenidade e de tôdas essas virtudes, que cada dia se tornam mais esquecidas dos homens. Zé Macaco, por exemplo, é o tipo do vaidoso, do “granfíno” que compra um automóvel sem saber onde irá buscar dinheiro para o carvão. E Faustino lhe segue nas ações. Mas nos fim das histórias a sua mania de granfinismo é sempre castigada e eles acabam caindo em ridículo.

Assim falou Storni a seu respeito e a respeito de suas figurinhas e com as suas declarações encerramos a nossa entrevista com os três mosqueteiros da caricatura infantil, os pioneiros das histórias em quadrinhos brasileiras. Em verdade, muito valiosas se tornam hoje as palavras desses três lideres da literatura e do desenho infantil, que divertiram e até hoje divertem os garotos do Brasil com a graça de suas historietas e as atitudes de seus personagens.

Apesar da concorrência das pinturas estrangeiras, que contam para sua divulgação com dezenas de “of set” espalhadas por muitas cidades, alguns dos personagens de Storni e Yantok ainda vivem e têm um número avultado de “fans” espalhado por todo o território da nação. É interessante notar como esses bonecos, apesar da idade, ainda conservam os mesmos traços fisionômicos dos seus primeiros dias. Cachimbown, no qual, como já dissemos, aparece muita coisa de Max Yantok, é um sujeito já velho e, apesar de perseguido por todos os azares, continua vivo e com saúde, e dá ainda hoje, todas as semanas, o seu passeio hebdomadário pelo país, divertindo as novas gerações. Apareceram outras figuras, as técnicas de paginação transformaram completamente a feição dos magazines juvenis. Mas Zé Macaco e Faustino ainda são os mesmos e têm sempre algo de novo para os seus leitores de calças curtas. Quanto a Loureiro o caso mudou de figura. Para as histórias infantis ele está hoje aposentado. Mas o seu nome ainda vive nos anais da imprensa brasileira, como um dos pioneiros de uma nobre causa. E a sua maior glória consiste justamente em ter sido o introduzir das páginas de armar em nossa terra. Talvez ainda hoje, quase vinte anos depois do aparecimento da locomotiva “Chiquinho”, alguém ainda guarde esse brinquedo de papelão, como uma lembrança amiga daqueles tempos saudosos, quando ainda não existiam o “Super-Homem” e “Brucutú”. Aos meninos de hoje, agarrados ao mistério do “Falcão da Caverna” e de “Zé Mulambo”, seriam de muito proveito, estamos certos, as leituras sadias das histórias dos três mosqueteiros da caricatura infantil, que falavam, pela imagem e pela legenda, apenas daquilo que podia trazer alguns benefícios para a educação de seus leitores.

Aqui ficam as palavras dêsses três veteranos, como uma revista passada a um antigo álbum de fotografias familiares, um registro de saudade que oferecemos ao sentimentalismo de nossos irmãos mais velhos. E aos leitores maiores de trinta e menores de cinqüenta… Mas não esqueçamos: Ruy Barbosa declarava, sinceramente, ser um admirador – não se dizia “fan” – de Chiquinho, Zé Macaco e Cachimbown…
  
Dados da Publicação
Nome da Revista: Revista da Semana  Número: 13  ANO: XLVI
Data: 31 de março de 1945.   Local da Publicação: Rio de Janeiro
Transcrição: Eduardo da Silva Pereira  Paginas: 19 á 25

Dados, Notas e Correções por Quiof Thrul
O nome do personagem é Buster Brown e foi criado por Richard Felton Outcault (mesmo criador do Yellow Kid), Bud Fisher foi criador da tira Mutt & Jeff. Curiosidade, na Holanda, aconteceu o mesmo que no Brasil, lá o Buster Brown se tornou “Sjors van de Rebellenclub”, e teve publicações até 1999.

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DECIDINDO POR QUADRINHOS: MERCADO INTERNACIONAL

“Calma aí, galera! Tem emprego pra todo mundo… eu acho…”



Uma das mais populares opções para quem decide por quadrinhos como forma de vida é o mercado internacional. Grandes editoras como Marvel, DC, Dark Horse, Image, entre outras sempre estão à procura de pessoal para completar seus inúmeros títulos mensais. Esse mercado, além de claramente interessante pelo seu status, possui promessas grandiosas para aqueles que querem uma renda além da normal. A verdade é que sim, fazer parte do quadro de uma editora – mesmo que como um artista que “complementa” o time de um título vez ou outra – é uma adição magnífica ao seu currículo (adicione: “desenhou BATMAN” a sua lista de experiência pra você ver), e a parte da grana não é tão falsa assim, apesar de incrivelmente superestimada. As editoras americanas talvez sejam as que melhor pagam páginas de quadrinhos. No entanto, é preciso ver que há muito mais por aí.

Na última FIQ, editores e artistas europeus e orientais foram bem patentes em dizer que procuravam profissionais de outros lugares do mundo e para que mostrassem seus lugares de origem, seus costumes, ambientes e histórias, desmistificando a ideia de que pra trabalhar lá fora você tenha de “dançar a música deles”. Isso é muito bom para artistas que procuram editoras que lhes propiciem mais liberdade de trabalho e que deem créditos às suas próprias ideias. Fora isso, no Brasil, a Maurício de Sousa Produções costumeiramente procura por novos desenhistas e roteiristas e algumas iniciativas, como as da Quadrix, abrem espaço para novidades.
Enfim, mas o foco aqui é mercado internacional e nesse quesito – apesar das enormes exceções – algumas regras devem ser seguidas para aqueles que têm essa pretensão. A seguir eu defino cada uma:
PARA DESENHISTAS, ARTE-FINALISTAS E COLORISTAS
Estude sempre. Sem estudo seu trabalho
nunca chegará onde você deseja.

Antes de tudo, há regras de ouro em qualquer uma dessas artes: estude sempre, desenhe todo dia, nunca pare de aprimorar. A indústria de quadrinhos é muito exigente e segue numa progressão: 1º saiba o básico, 2º melhore esse conceito, 3º diferencie-o e 4º estilize caso se sinta em necessidade de fazê-lo. Muitos desenhistas nem chegam a quarta etapa, mas com certeza os mais conhecidos foram até a terceira e os mais disputados e adorados extrapolam o último. Isso é necessário: fazer mais, querer mais, ser mais. Independente de estar numa forma de arte que se adora, ainda é uma empresa, uma indústria, e ela vai ser exigente. Se tem esse objetivo, você não será só um artista dela, mas um funcionário e só os melhores ficam no quadro da parece, né?

Uma vez treinado e estudado o bastante (lembre que um desenhista de quadrinhos não somente desenha, mas ele entende de narrativa, design, desenvolvimento, história, virada de página etc. etc etc.) é hora de seguir na trilha. Se não é americano e nem mora na mesma cidade que as editoras (e mesmo pra quem mora) a melhor saída é procurar uma empresa que agencie seu trabalho. Antes de fazer parte dela você vai fazer muitos (e quando digo “muitos” é muitos mesmo) testes para que vejam suas habilidades de desenho e como contador de histórias. Os agenciadores são muito bacanas porque eles veem onde determinado trabalho pode melhorar e dão toques (o que pode fazer com que os seus “muitos” desenhos se tornem “mais”) até que você esteja em um nível aceitável para que eles possam te passar para um trabalho pago – o que pode vir de todos os lugares, desde trabalhos de pessoas físicas com muita grana pra gastar até editoras grandes. E nisso você vai progredindo até alcançar seu objetivo (que pode ser algo como um Romita Jr. que só desenha, mas do jeito dele, até um George Pérez, que faz o que quer onde quer).

PARA ESCRITORES

Muitos falam da dificuldade de se entrar no mercado internacional como roteirista de quadrinhos. Ela é real. A própria Marvel já disse que prefere escritores de seu país ou que falem língua inglesa – o que na verdade é que eles querem dizer: “que estejam inseridos na cultura do tio Sam ou de seus associados” – e uma rápida passada pelos créditos que cada edição comprovam isso. No entanto, dificuldade não é sinônimo de impossibilidades ou mesmo desistência. No máximo, devem ser consideradas como degraus para o eterno aprimoramento. Bom, mas não é isso que o leitor quer saber.

Antes de tudo, é preciso saber alguma outra língua que não português – pense em que mercado você procura: Europeu? Francês é uma boa pedida. Oriental? Seria legal ter conhecimento de japonês e coreano. Americano/inglês/indiano? Um bom conhecimento em inglês e/ou espanhol seria uma mão na roda. Outra coisa importante é ter sempre um desenhista amigo – ou saber desenhar – que converta seus roteiros escritos em peças mais acessíveis à leitura de um editor ou avaliador. Acredite, muitos editores não se dão ao trabalho de pegar um arquivo completamente em texto que não tenha, no mínimo, uma sinopse logo no começo, então o que você puder fazer pra despertar o interesse para seu texto é mais que válido. Também lembre que a atividade de escrita, por mais difícil que possa ser, ainda é mais rápida que a do desenho, então entre um roteiro e outro escreva contos, faça matérias, artigos, reviews, blogs, entre outras formas de texto, elas também te ajudam a evoluir e a ser reconhecido. Depois disso, os caminhos não são muito diferentes do que os para desenhistas: procure agências que sirvam para roteiristas ou mesmo editoras que procuram esses tipos de profissionais.

… MAS NUNCA ESQUEÇA DE PRODUZIR SEMPRE

Lembre: “Tentar não existe.
É fazer ou não fazer”.

Apesar de todas as dicas – quase uma cartilha – a verdade é que você pode ser “encontrado” sem necessariamente seguir essa trilha, mas, para tal, mantenha sempre sua produção constante: faça zines, produza blogs, apresente seu trabalho para outros artistas e aprenda com eles, vá a convenções e troque ideias e experiências. Quem sabe você não consegue encontrar um atalho para seu sonho…

PRÓXIMA MATÉRIA: PUBLICANDO INDEPENDENTE!