QUADRINHOS E MÍDIAS DO FUTURO

Lembro de ter lido em algum lugar ou de Quadrinhos e Arte Sequencial ou de Narrativas Gráficas, ambos de Will Eisner, algum comentário curto sobre a aplicação de quadrinhos em computadores, na verdade só um vislumbre do que o futuro poderia reservar do que realmente uma dica de como fazer quadrinhos digitais.
Enfim a Internet veio, vários quadrinistas independentes (profissionais ou não) se apropriaram da rede mundial e disseminaram seus próprios trabalhos utilizando-se de visualizadores de imagem. Depois, nasceu o Flash e até a Marvel divulgou seus quadrinhos usando o aplicativo (para quem não lembra ou não sabe, a primeira versão do mundo Ultimate, basicamente só o Homem-Aranha, era completamente digital em um aplicativo Flash que passava as páginas e ampliava o quadrinho e os balões cada vez que se clicasse neles, até a versão nacional do site da editora tinha esse sistema).
Por fim, as semi-divindades da Rede Mundial criaram um programinha bem simples, o CDisplay, que permite que se leia, em toda a tela, metade de uma página de uma HQ, sem toda a interatividade e intensidade do Flash, na verdade não passa de um arquivo compactado com todas as páginas numeradas que permite esse tipo de visualização (com ele os famigerados scans traduzidos e editados por fãs, e mesmo por alguns autores, tomaram toda a Rede para a alegria de milhares de nerds e leitores ocasionais que não queriam pagar rios de dinheiro por obras que eles não tinham certeza que realmente valiam a pena ter em casa, mas isso é uma outra história…).
O nascimento do iPad reacendeu a conversa sobre quadrinhos dentro de mídias digitais e como estas poderiam ajudar ou mesmo dar um novo rumo aos gibis, adicione isso a uma considerável queda da presença dos quadrinhos cronológicos em bancas inversamente proporcional a sua presença em livrarias com capas duras e milhares de extras com o selo “feito para fã economicamente bem favorecido” e uma pressão do mercado para a adaptação dessas obras nos aplicativos dessas tecnologias… Bem, o resultado é facilmente visto nos aplicativos Marvel e DC para iPads, bem como em suas estratégias de venda onde alguns quadrinhos (como na futura saga Marvel Fear Itself e como a DC já vem fazendo há algum tempo) serão vendidos exclusivamente para o aparelho da Apple ou aplicativos de visualização eletrônica como o Marvel Chrome.
Todas essas ferramentas são incríveis por várias razões, mas principalmente porque facilitam a busca por novos leitores e ajudam a divulgar novos, criativos e desconhecidos produtores, além de resolver (pelo menos a curto prazo) o problema da escassez do leitor convencional. No entanto, sinto que, de alguma forma, todas essas “incríveis ferramentas”, como há pouco fiz questão de frisar, são totalmente falhas.
Sempre me senti incomodado com esse tipo de quadrinho e não entendia bem porquê. Não importava todas as facilidades ou mesmo qualidade daquelas HQs, de alguma maneira elas pareciam mais uma “gambiarra” do que realmente quadrinhos feitos para esses formatos. Percebi então que todo mundo fazia (e ainda faz) quadrinhos não para a internet, mas para mídia impressa, criando HQs que se usam da estrutura básica da “página”, não da “tela” que é a real página do computador. Por conta disso, splash pages e double splash pages morriam porque nunca se via por inteiro numa resolução eletrônica a arte dessas páginas e todo o senso periférico da visão humana que permitia o vislumbre de artes como Sin City ou Terra X em papel era ridicularizado por conta do zoom utilizado para se ler os balões. E isso só pra citar uma das dificuldades que provam como uma adaptação é necessária.
Como eu não tinha solução para isso nem via ninguém tendo nenhuma, fui “suportando” o formato equivocado que quadrinistas disponibilizavam em seus blogs ou sites especializados. Até que certo dia uma adaptação em formato para CDisplay de uma obra de Mark Millar e Steve Mcniven, “Old Man Logan Widescreen”, apareceu no meu PC.
Tudo pareceu mudar à partir daí.
Não há nenhuma informação de quem fez a adaptação e não sei se ainda está disponível na rede, mas ela mostra uma grande possibilidade de se fazer quadrinhos na internet. Imagino que seja um trabalho de fãs, então vou considerar que um “grupo” qualquer é o responsável por isso.
Explicando…
Primeiro eles fazem uma coisa que não sei se alguém já sacou antes (se sim, fico me perguntando porque não divulgou), os caras decompõem a página, destruindo sua existência “natural”, sequência, enfim, tudo. No seu lugar há a “tela”, real página de um PC, como um todo e o primeiro resultado disso é que cada quadro é ampliado à tela inteira ou deixado em um tamanho e posições tais que este possa dar lugar a outros quadros (esses quadros adicionais muitas vezes não passam de 3 ou 4 visualizados ao mesmo tempo). Isso valoriza em muito a arte de um único quadro, o que, por sua vez, exige mais do desenhista, mas o resultado é fenomenal para a narrativa.
A virada de página ou a página ao lado também desapareceram, se quiser nem mesmo o quadrinho seguinte existe. O que existe em seu lugar é o “teclar”. Todo tipo de tensão ou comédia ou decisão ou resolução ou clímax pode ser magistralmente feito com a ação da próxima visualização. Assim cada “quadro” tem um peso bem maior para a história, já que os olhos do leitor não vão se atentar para uma “página”, mas para uma única “tela” a qual se liga às outras pelo simples fato de que elas ainda não estão ali.
Esse mudar de quadro também pode não seguir a linearidade, dando a autores a chance de colocar um quadro na parte superior da tela que vem após um outro quadro que está abaixo, fazendo com que a narrativa se torne dinâmica, onde cada “teclada” funcione para o storytelling de maneira bem mais ampla, objetiva e sem perder o tom artístico de tudo. Imagino que autores extremamente detalhistas como Alan Moore iriam adorar isso, pois faz com que o roteirista pense sempre de maneira completamente cinematográfica e complexa como ele quer narrar a história.
Outra grande opção neste estilo de HQ digital é a possibilidade de ajustar o fundo base do arquivo de forma que ele também possa ajudar na história, por exemplo, em um conto medieval o fundo pode muito bem ser em formato de pergaminho, ou em uma história cujo narrador está lendo um livro, pode-se fazer com que o fundo seja esse livro em cima de uma mesa ou algo assim. Com criatividade as possibilidades se tornam infinitas.
Lógico que tudo possui um lado negativo e o problema deste sistema é que ele gera arquivos demais, mesmo que eles sejam compactados, no final uma história que impressa tenha cerca de 20 páginas (em scan, umas 20 imagens) neste formato ela pode ter até quatro vezes este número! Claro que há formas de burlar isso e ao meu ver esse é um problema bobo, já que a forma de leitura vale o esforço. O trabalho para fazê-lo, tanto para o roteirista quanto para o desenhista também é deveras complicado, mas, convenhamos, se você tem uma chance única de mudar tudo, por que se ater sempre ao mesmo? “O novo sempre vem”, cantava Elis Regina e ela não estava errada. Acho que vale à pena se cansar um pouco mais para produzir um trabalho único e de qualidade.
Para melhor exemplificar vou deixar um link com o primeiro capítulo de “Old Man Logan Widescreen” disponível durante 10 dias (mais do que isso os deuses pagãos da internet podem querer ajustar as contas comigo…). Ele está em formato .cbr (visualizável somente com CDisplay), em inglês e sua melhor visualização é em “Fit Width” que pode ser ajustado no menu de configurações do programa (tecla “C”) ou através da guia que aparece quando se clica com o botão direito do mouse. Aos interessados vejam algumas das pequenas possiblidades do sistema e me digam: não dá pra fazer coisas incríveis com isso?
olha o link: Old Man Logan
Para que eu não seja entendido mal, não quero com esse comentário dizer que todos os quadrinhos adotem o sistema digital proposto aqui e derrubem a mídia impressa. Não há nada como sua coleção de “Vingadores” ou “Batman” ou “Preacher” muito bem organizada na sua escrivaninha ou estante ao lado de uma miniatura feita pelo Adam Hughes. Mas, principalmente para os novos autores que precisam de alguma notoriedade em suas produções ou que vivem basicamente daquilo que fazem e divulgam pela net, se forem fazer, façam diferente, nada de mais do mesmo. O passado nos ensinou bastante, mas é hora de darmos o passo seguinte em termos de histórias, diálogos, cenários, universos e narrativas e se uns caras legais resolvem propor isso, por que comer sempre baião de dois se vez ou outra você pode comer uma macarronada?
Se vocês não entenderam bem minhas exlicação, vale à pena ler esse pequeno quadrinho que diz tudo o que eu disse, mas através de quadrinhos. Atenção! Textos em inglês!
Por enquanto é só, galera. Até a próxima!