Review Apneico: Tempestade Cerebral

Na época do KIMOTA! Podcast, um dia surgiu a ideia de se fazer resenhas sobre zines. A razão era simplesmente divulgar a produção nacional, seja de quadrinhos on-line ou impressos. Fizemos duas resenhas “no ar”, antes de nossos tópicos do dia e de maneira bem rápida. Ao pensarmos na reformulação do site, alguém propôs a ideia de por o review escrito no corpo dos posts, assim as pessoas poderiam ler e reler a resenha quando quisessem ao invés de passar um tempão tentando encontrar onde porventura ela estaria no arquivo de áudio além de se decepcionar um pouco por ser muito rápida.

Enfim, eu fiz a primeira resenha escrita, que coincidiu, por sua vez, com o quadrinho feito pelos alunos do Daniel Brandão, fanzine que contempla o fim do curso da cada turma. A resposta ao texto foi muito positiva e me incentivou a fazer outras, mas fui sanado primeiro pelo fim do podcast e atualmente pela aparente escassez de material atual em minhas mãos (possivelmente estava indo aos lugares errados).

Aqui retorno a resenhas e, novamente, tenho um material fruto do Curso de Quadrinhos do Daniel. Material esse que já me trouxe grande felcidade pela quantidade de páginas (60), recheadas de narrativas gráficas e desenhos. Virtuosismo não é raro e tanto há promissores desenhistas, quanto argumentistas criativos, dando seus passos iniciais que não parecem ser tão “novatos” assim.

Diferente da coletânea anterior dos alunos de DB, nesta parece haver uma maior quantidade de pessoas diretamente ligadas ao mercado de quadrinhos, tendo em vista que os temas distanciam-se da postura de “contra-cultura” que parecia existir no último número. O título, Tempestade Cerebral, e a capa têm essa aparência. Explosões, personagens de faroeste, lutadores de espadas enormes, gladiadores, cientistas de ficção científica e mesmo uma mulher nua em um cavalo (mantendo a devida “censura”) já adiantam o conteúdo do Zine, na detalhista capa de Vicente L. Reis.

Como dito antes, Tempestade Cerebral é um quadrinho virtuoso, simplesmente porque os que o fizeram, levando em conta que são todos novatos, tiveram grande apreço por seus trabalhos. Não falarei sobre todos, mas procurarei pontuar qualidades e dificuldades que verifiquei. Logo de início devo dizer que a capa é por deveras atraente, lembrando os primeiros trabalhos da revista Heavy Metal em seus caos ordenado. Infelizmente a impressão em preto e branco, formato tão comum ao estilo fanzine, acabou por dificultar a qualidade da apresentação, confudindo o nome dos autores com o desenho central e mesmo fazendo com que os personagens no carro parecessem um amontoado pouco claro se vista um pouco de longe. As artes internas, no entanto, aproveitaram o PB para valorizar suas obras com sombras bem posicionadas. Alguns pecaram por usaram tons de cinza e suas narrativas sofreram com a impressão.
Todos acertam por escolherem histórias curtas e precisas, sem muitos floreios ou conflitos. Mesmo algumas que podem ser consideradas o primeiro passo de uma possível série são organizadas, possuem começo meio e fim e não confudem ou enganam. Elas estão ali com suas funções, designs e narrativas fáceis de se entender e absorver. Para alguns pode parecer simplismo, mas analisando que os autores são iniciantes contadores de histórias gráficas, as escolhas de seus roteiros e saídas para estes é de uma sabedoria e bom senso que falta a muitos no mundo dos quadrinhos.

Entre os artistas temos um misto de desenhos mais simples, lembrando o cartum, óbvias influências dos comics americanos e alguma coisa mais underground. Nesta edição as influências do mangá são mais discretas e podem ser vistas principalmente em alguns desenhos de tokusatsus (é assim que se escreve mesmo?). Todos com certo cuidado e apreço. No entanto, três desenhistas se destacam, Ivo Soares (por Jon Dizeo em Fúria), Vicente L. Reis (capista e por A Vingança do Bastardo) e Bessa Jr. (por Round 1 Fight e Bosco).

Ivo é um grande narrador gráfico. Suas “câmeras”, escolhas de perspectivas e enquadramentos revelam um autor de quadrinhos iniciante com uma bagagem acima da normal. Sua história quase sem falas é de uma qualidade única. Possui ritmo, velocidade e dinâmica. Algo em seus desenhos deve ser melhorado, coisa que vem com a prática, mas eles já possuem uma identidade, obrigação de qualquer desenhista que deseja uma carreira sólida e reconhecida. Realmente um achado dentro do curso de Daniel.

Vicente L. Reis, por sua vez, possui um seguro pé no estilo dos comics, com personagens icônicos e sobre-humanos e sombras trabalhadas. Seus desenhos aproveitaram com segurança a impressão PB. Sua arte me faz lembrar desenhistas dos anos 90, em suas qualidades, a quadrinização também, mas isso já não é mais uma vantagem na minha opinião, pelo menos em termos de enredo. Sua composição de página é boa e a narrativa também, apesar de merecer um cuidado nas viradas de página e na clareza do argumento. Mesmo conselho de Ivo cabe a ele: prática constante e mais referências, tanto em termos de quadrinhos quanto em outras mídias, vai ajudá-lo a seguir com mais segurança numa carreira profissional.

Talvez o grande achado, sem desmerecer qualquer um dos autores da HQ, mas reconhecendo que não importa que ambiente genial seja, sempre há um que se destaca, é Bessa Jr. Um nome que não deve ser esquecido por ninguém. Seus traços cartuns mostram certeza e maturidade profissional. Devo confessar que senti uma certa “preguiça” em seu desenho, mas longe de ser uma desvantagem, o que acaba por dignificar ainda mais sua arte (afinal, se com uma aparente “preguiça” ele fez isso tudo…). Seus desenhos são expressivos e divertidos, me lembra as fases de Looney Tooneys e Tom & Jerry em que o produtor era Chuck Jones, um dos grande mestres de “gags” em animações. Bessa é um daqueles artistas que alegram a gente por simplesmente existirem, mas que alegrariam ainda mais se publicassem regularmente outros trabalhos. Então, meu caro, pense na ideia de criar um blog e divulgar seu trabalho ou mesmo entrar me algum grupo de quadrinhos e produzir algo impresso. Se desejar, cedo espaço para você e para qualquer um que tenha interesse, aqui no Z&A para colocar seus quadrinhos.

Enfim, não me alongarei com os outros, não por não merecerem, mas pra não ter de deixar este texto maior do que já está, mas merecem destaque, então segue o nome da galera:
Diogo Loureiro
Will Silva – wilton_ks@hotmail.com
Cássio T. C. Andrade
Calebe “Kapan” Pereira – kapan_agerbond@hotmail.com
João de Victor de Sousa – sadlerplaga@hotmail.com
Vicente Luiz Reis Alexandrino – vicenteluizreis@hotmail.com
Bessa Jr. – bessajr@hotmail.com
Ivo Soares
Completo o post de hoje com um comunicado: Desde “não sei quando” tem acontecido na Gibiteca de Fortaleza o Fórum de Quadrinhos, onde autores e entusiasta das narrativas gráficas se reúnem para pensar em estratégias de divulgar e produzir HQs em nosso lindo Estado. Então, meninos e meninas, 14h ou 16h, todo sábado, apareçam na Gibiteca de Fortaleza e levem seus quadrinhos para lá.
Até semana que vem, galera!
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Anuário de Quadrinhos UGRA

Hoje vou fazer um post diferente. Por sinal, minhas mais sinceras desculpas a alguns leitores deste blog porque havia prometido uma resenha de fanzine. Estou com um na mão e uma resenha engatilhada, mas não irei publicá-la agora por conta de um e-mail que chegou ao grupo Mercúrio e espero dividir com todos.

A UGRA Press é uma iniciativa que tem como objetivo principal “divulgar trabalhos, tomar conhecimento de outras publicações e estabelecer contatos” e está realizando o I Anuário de Fanzines, Zines e Publicações Alternativas, para isso, logicamente, eles precisam de muito material! Então, FANZINEIROS DE TODO O BRASIL, UNAM-SE, SEUS PARVOS! Aproveitem a UGRA e divulguem seus materiais, pelamordeDeus!
Vejam como participar pelo site da UGRA e vejam o vídeo dos caras sobre seu anuário!
Próxima semana tem mais!

Entrevista com Geraldo Borges, do Ceará para o EUA


Olá, caros leitores!

Mais uma entrevista para vocês. Dessa vez o artista é um ilustre cara que já trabalhou para grandes editoras americanas e recentemente terminou um trabalho para a DC Comics. Tem uma arte detalhista e bem cuidada, prova de responsabilidade e respeito aos fãs. Tive o prazer de ter esse cara como primeiro divulgador deste humilde blog e constante visitante, por esse e vários outros motivos, o link de seu blog estará sempre aqui. Cearense, desenhista, uma cara super chapa e pai de três mocinhas, para os que já conhecem e para aqueles que ainda não, Geraldo Borges no Z&A, galera.
1. Olá, Geraldo, é muito bom tê-lo aqui pelo Z&A. Seja bem-vindo. Como primeira pergunta vou ser bem clichê e gostaria de saber qual foi seu primeiro contato com quadrinhos? Alguém levou um até você ou sozinho olhou pra uma obra numa banca e disse: “deixa eu ver aqui…”? E quando isso foi determinante quanto ao rumos que tomou até chegar onde você está?
Não lembro ao certo qual foi o primeiro quadrinho com o qual entrei em contato. Provavelmente, Mônica, Disney, Trapalhões, Dartagnan (uma adaptação de um desenho animado)… mas recordo que o ato de colecionar veio na época de Crise e Secret Wars, logo depois com o Novo Universo Marvel. Nesse ponto virei realmente um fã de colecionar HQs.
2. Qual sua melhor lembrança como leitor de quadrinhos? E como artista profissional na área? Que gêneros você mais gosta de ler/assistir/colecionar?
Uma coisa que sinto falta hoje é de não ter mais quadrinhos nas bancas comuns; quando era criança sempre saía de casa na expectativa se a minha HQ predileta havia chegado na banca, de imaginar como a edição continuaria a história anterior, essa é uma boa lembrança. Como profissional, uma grande lembrança foi quando recebi o convite pra desenhar uma edição da Mulher Maravilha da DC Comics; estava de férias com a minha esposa e filhas em Natal quando veio essa notícia… Além das férias extremamente divertidas, receber essa notícia deu mais alegria a elas. Sobre os gêneros, fantasia e ficção (incluindo os super-heróis) são os meus gêneros prediletos nas HQs.
3. Há pouco você terminou uma minissérie pra DC Comics, Rise of Arsenal, e nela você desenhou muitos personagens clássicos da editora, como Batman (com uma incrível cena de luta), Arqueiro Verde, antes você já tinha feito trabalhos com Mulher Maravilha e chegou a desenhar Galactus em uma HQ do Nova. Como foi desenhar esses mitos? O que a “criança” Geraldo sentiu ao ter esses trabalhos em mãos?
Na verdade, esse é o barato de trabalhar com quadrinhos: é a realização de um sonho de criança, pois sempre desenhei e contei histórias; fazer isso como profissão é algo extremamente prazeroso e mais ainda quando o trabalho envolve personagens que fizeram parte da sua vida e autores que lia como fã de quadrinhos e que agora me vejo como colega de trabalho (como foi o caso do arte-finalista Scott Hanna, que trabalhou comigo em R.E.B.E.L.S.).
4. Alguns artistas, depois de um tempo no mainstream, costumam ter ojeriza em voltar a trabalhar com as grandes editoras alegando, entre tantas coisas, desrespeito destas com seus trabalhos. Como brasileiro e cearense, imagino que tenha sido difícil para você chegar até Marvel e DC. Fala um pouco de como é essa relação para você, eles realmente se mostram meio “frios”, preconceituosos ou “mal-educados”? Tem algum trabalho que você tenha desistido ou negado a fazer por conta de algum desrespeito por parte dos contratantes?
Não tenho nada a reclamar do relacionamento que tive com as editoras de um modo geral. Principalmente nas grandes editoras, tive um bom retorno dos editores e artistas envolvidos, uns mais, outros menos. Na DC minha experiência foi mais intensa no relacionamento com os profissionais, entrando em contato direto com o escritor, finalistas e editores. E as grandes editoras normalmente nos pagam com regularidade, ponto que as editoras menores sempre têm dificuldade de honrar – mas nunca levei nenhum calote :^) – E fazer parte de uma agência como a Impacto, que tem experiência nesse mercado, facilitou ainda mais essa relação com as editoras.
5. Há um tempo você integrou o quadro de profissionais que criaram o Curso Prático de Histórias em Quadrinhos online da UNIFOR e, atualmente, muitos autores e desenhistas, como Adam Hughes, dão “aulas online”, descrevendo e ensinando a prática em vídeos curtos para YouTube, em “blogs-apostilas” e outras mídias digitais. Como é produzir trabalhos assim e o que você acha desse movimento? Você acha que tem os resultados esperados?
Acho que todo esse movimento tem o intuito de disseminar o conhecimento e isso é algo muito positivo. Quem trabalha com quadrinhos há um bom tempo sabe o quanto era difícil encontrar bibliografia ou cursos sobre o assunto e hoje esse panorama mudou, com um auxílio enorme da internet, que nos conectou ao mundo e possibilitou um aumento na troca de experiências. No meu caso específico com o curso de quadrinhos da UNIFOR, foi muito gratificante poder utilizar todas as ferramentas virtuais que a educação a distância oferece, além da oportunidade de conhecer grandes artistas (uma grande parte já profissionais na área de ilustração e design) e tê-los como alunos. Isso foi fantástico! Em breve reuniremos todas as HQs produzidas no curso e faremos o lançamento dessa coletânea.
6. Fora isso, você tem experiência com aulas através de cursos que já ministrou com Daniel Brandão e JJ Marreiro. Como é dar aulas de desenho e narrativa gráfica (dessa vez ao vivo haha)? Que histórias você viveu que mostram que esse trabalho foi gratificante (ou não)?
Além dos cursos com o JJ e o Daniel, também fui professor de desenho e quadrinhos do Centro Cultural Cláudio Santoro, em Manaus-AM, e sou atualmente professor de Animação e Infografia do Curso de Graduação de Audiovisual e Novas Mídias da UNIFOR. Por mais que a internet hoje encurte distâncias, nada substitui o contato direto, de você estar presente, adaptar uma mesma aula de acordo com as pessoas que lá estão, e poder trocar experiências da forma mais intensa possível, com esse contato vida-a-vida. Muitos dos meus alunos hoje trabalham com quadrinhos, são grandes profissionais; mas mesmo os que não seguiram na área, sempre percebi que o curso ajudou em algum aspecto, e isso realmente é gratificante.
7. Falando um pouco sobre a prática de se produzir quadrinhos. O que é mais difícil no desenvolvimento de uma página: narrativa, enquadramentos, ajuste do roteiro ao desenho? Houve algum trabalho que você demorou mais que o esperado para resolver por ter se deparado com problemas desse tipo? Conta o caso pra gente e como você o “solucionou”.
Na verdade, o grande desafio é escolher a melhor maneira e a mais interessante de contar uma história, pois existem infinitas formas de fazê-lo; e dentro das HQs existem vários aspectos a serem levados em consideração nessa hora: as expressões faciais e gestuais, os enquadramentos, as cenas de impacto (que tem que ser bem dosadas de acordo com o ritmo e o clima da história), as viradas de páginas (algo que só os quadrinhos possuem), a relação espaço x ritmo/tempo… Não lembro de ter um trabalho que tenha demorado mais por conta de dificuldades, mas no trabalho que fiz para o R.E.B.E.L.S., o grande desafio era entender toda a história do grupo até então pra poder desenhar essa única edição; pra isso, li todas as 11 primeiras edições que o editor me enviou e tive que aprender a desenhar cerca de 30 personagens que nunca havia desenhado na vida, com o grande cuidado com a continuidade, tentando não errar seus uniformes e características. Sobre isso, tem um fato curioso: um dos personagens, Starro, tinha várias referências que o editor havia enviado e todas, mas TODAS elas apresentavam o Starro sempre com uniformes diferentes, me deixando na dúvida sobre qual versão escolher. A minha opção foi fazer um mix de todas as diferentes versões que eu tinha e fazer uma versão própria 🙂 Em JL: the Rise of Arsenal, a grande dificuldade foi desenhar a morte da filha de Roy Harper, uma cena muito forte que foi realmente complicada devido a grande carga emocional.
8. Seu estilo tem um tom clássico, remetendo a quadrinhos de Byrne, Romita Sr, entre tantos daquela época, mesmo assim com um traço bem mais forte e realista, cinematograficamente moderno. Você se usa de referências como filmes, fotos, pessoas de sua casa, amigos ou você prefere ir atrás de suas referências dentro da área? Que materiais você gosta de utilizar nos seus desenhos (lápis, lapiseira, papel, borracha, etc)?
Uso os dois tipos de referência (fotos feitas mim – com a ajuda da minha família – ou de internet e filmes ou ilustrações). Quando necessário, também faço montagens a exemplo do Mike Deodato (não com a mesma maestria, diga-se de passagem) e em cima das montagens (que imprimo depois), faço meu esboço prévio pra depois passar a limpo na mesa de luz pro papel final. Hoje estou usando muito um software 3D chamado Sketchup (que os artistas da Marvel usam com bastante frequência) pra ajudar a compor os cenários das minhas páginas e fazer as montagens de layout.
9. Falando de quadrinhos atuais. O que você tem achado do mercado em termos de histórias e publicidade (megassagas que reescrevem tudo o tempo todo, anéis de plástico, capas rasgadas, heróis se tornando vilões)? Você acha que há um movimento para tornar os heróis excessivamente reais a ponto de descaracterizarem seus significados básicos ou isso é balela de leitores mais xiitas e os quadrinhos estão seguindo uma evolução natural de seus estilos?
Na verdade, Watchmen e Cavaleiro das Trevas definiram o rumo que os quadrinhos tomaram hoje, deixando de lado o maniqueísmo e fazendo pairar um lado sombrio nas sempre coloridas aventuras de super-heróis. O problema é que só existe um Alan Moore (que praticamente abandonou os quadrinhos) e um Frank Miller (quer dizer, não existe mais “aquele” Frank Miller). Essa relação quadrinhos-cinema tão estreita (que é ótima, afinal valorizou a nona arte como nunca antes visto) provoca um efeito colateral em algumas HQs: a busca por “conceitos” que possam ser convertidos em filmes e merchandising; isso faz com que se esqueçam muitas vezes do objetivo principal de uma HQ, que é contar boas histórias. Mas ainda bem, existem artistas que ainda mantém isso como foco principal, pra nosso deleite como fãs de bons quadrinhos.
10. Uma pergunta que sempre faço: o que você está lendo/assistindo/colecionando atualmente em termos de quadrinhos, livros, revistas, vídeos, séries? E o que você acha indispensável de ler para qualquer pessoa que deseja trabalhar com quadrinhos?
Atualmente estou lendo o O Livro do Cemitério, do Neil Gaiman, um livro sobre roteiro do Syd Field e um outro sobre animação, e relendo aos poucos um livro chamado Da Fera a Loira, da Marina Warner – psicanálise sobre contos de fada. De quadrinhos, li recentemente a série Predadores, desenhada pelo Enrico Marini (recomendo) e acompanho alguns títulos Marvel/DC. De séries de TV, as únicas que acompanho mesmo são Big Bang Theory e CSI (minha esposa é fã, assisto sempre com ela). Quem deseja trabalhar com quadrinhos deve sem dúvida, dentre outras coisas, conhecer a obra do mestre Will Eisner, não só os seus quadrinhos, mas como também os livros didáticos que ele deixou, além de vários diálogos com outros grandes artistas (Shop Talk). Hoje existe uma bibliografia muito rica pra quem quer se aprofundar na arte sequencial, além da internet em si.
11. Geraldo, a derradeira pergunta: quais seus próximos projetos? E dá uma palavrinha para a galera que tá começando a desenhar e quer alcançar o mercado americano como você.
Agora que conclui a minissérie do Arsenal, estou aguardando meu próximo trabalho – que não sei ao certo qual é – dos EUA. Tenho algumas colaborações pendentes com artistas nacionais que preciso concluir e finalmente um projeto de um álbum que vou produzir em parceria com um roteirista pro mercado nacional a princípio. Espero que ele fique pronto esse ano ainda ou no máximo ano que vem. Além disso, no segundo semestre de 2010, devo lançar pela UNIFOR mais uma turma do Curso de Histórias em Quadrinhos Online. Pra quem está começando, a palavra é determinação! Nunca desistir se realmente tem a certeza do que quer fazer. Estudar bastante, praticar bastante e, caso queira ouvir algum conselho de um profissional da área, escute-o com bastante atenção (mesmo que a priori você não concorde com o comentário dele). E principalmente ter paciência, pois nunca começamos nos comics desenhando o Superman, nem trabalhando numa editora conhecida como Marvel/DC. Até chegar lá, há uma estrada importante a ser percorrida e que vai lhe fazer chegar e ficar onde você quer.
Cara, novamente, muitíssimo obrigado mesmo por conceder essa entrevista. Eu e alguns amigos admiramos muito seu trabalho, colocando-o entre os mais importantes artistas que estão aqui. Sei de seu começo com o Capitão Rapadura. Cheguei a ter uma revista com desenhos seus dessa época, inclusive emulei sua arte, mas que se perdeu em meio às várias mudanças que tive na vida. É realmente um prazer tê-lo como um conhecido eletrônico e devo dizer que me admiro por sua simpatia e humildade, muitas vezes incomum para autores, mas relativamente normal para desenhistas e artistas cearenses. Desculpe qualquer falta que por ventura sem querer cometi como fã empolgado. Espero ver mais do seu trabalho e conhecê-lo melhor com o tempo, mas, por enquanto, me sinto feliz por seu tempo concedido a este blogger.
Eu que agradeço mesmo sua paciência por esperar minhas respostas, por acompanhar meu trabalho e espero poder estarmos juntos mais uma vez em breve!! Um abraço!!
Querem mais do Geraldo? Visitem seu blog em nossa barra de links e vejam seu perfil como artista Impacto!

Toy Story 3 [Spoilers]

Ok, vou confessar uma safadeza pra vocês. Estou sem ideias para escrever. Aquele tal de bloqueio criativo, sabem? Mas longe de mim fazer com que isso atrapalhe o andamento deste blog (já basta a rotina do meu trabalho, meu computador quebrado e minha internet irregular). Por isso, peguei uma matéria que escrevi há um tempo, mas por alguma razão resolvi não colocar. Sei que na altura do campeonato ela já está bem atrasada, mas acho que nem todas as pessoas seguem os mesmos tempos que a indústria do entretenimento, então vejam aí meu review de Toy Story 3. Mas antes, uns recados pra vocês.

Recado 1: Vejam o header novo. Um desenho gentilmente cedido por Geraldo Borges, desenhista cearense que já fez trabalhos pra Marvel e DC. Espero ter mais caras nacionais não só nos títulos mais em entrevistas e em outros posts. Mandem seus desenhos para roteirozeapneia@yahoo.com.br que eu publico aqui e os melhores viram o header do mês. Preparem alguns de Natal, estou sem ideias…

Recado 2: Fanzineiros do Brasil, mandem seus materiais para o e-mail: roteirozeapneia@yahoo.com.br. Gostaria muito de por uns reviews e críticas aqui, mas falta material recente (e que eu não esteja envolvido) em minhas mãos. Eu ia lançar uma resenha de um Fanzine bem legal, mas descobri que a revista era de 2008, então deixei pra lá. Mandem materiais novos que eu adoraria divulgar aqui.

Recado 3: Vejam que acrescentei dois links na lateral: o que leva ao blog de Warren Ellis, para mim um dos mais criativos escritores de ficção científica da atualidade (lembram dele na minissérie “Extremis” do Homem de Ferro?), e de Emma Ríos, que atualmente está desenhando Homem-Aranha nos EUA e é uma artista de traço muito bom e que recebeu minha admiração por desenhar um quadrinho sobre Amadis de Gaula, possivelmente a primeira novela de cavalaria da história. Então acompanhem essa galera que eles são muito bons.

Recado 4: Vi Príncipe da Persia também. Muito Legal. F$%@*$# os frescos!
Toy Story 3
Há obras que são imortais por marcarem a criação de uma nova tecnologia para um meio de comunicação, como foi Tron, Parque dos Dinossauros, Avatar. Há obras que são imortais porque estão acima de muitas obras dentro de seu gênero, como E o Vento Levou…, Psicose, Star Wars – O Império Contra-Ataca. Toy Story se engloba nas duas características. Magnificamente. O filme é uma verdadeira joia do cinema moderno, não somente do de animação. O chato é que dificilmente uma sequencia de um filme desses funciona. Talvez só 2% de continuações de obras incríveis são realmente boas. Toy Story 2 está nesses 2%. O filme logicamente não possui toda a enorme e grandiosa novidade do primeiro, mas diverte e encanta com uma narrativa atraente e tocante. Em nada perde em relação ao primeiro. A iclusão de novos personagens e o aprofundamento dos antigos foi na medida.
Mas a coisa pareceu parar ali. Mesmo com tantos filmes bons no currículo da Pixar, o fim da série não parecia tão atraente. Até as chamadas para o filme davam a entender que seria uma sequência meio “boba” apelando para um conjunto de piadas que só tiram alguns risinhos. Ledo engano. O terceiro da série é a consumação de uma verdade inquestionável já repetida aqui mesmo neste blog inúmeras vezes: a Pixar não sabe errar. Nem quando ela tem a chance para isso.

Toy Story 3 é uma pérola tão, quiçá mais, brilhante que qualquer outro episódio da trilogia. Não há erros, ou cenas desperdiçadas, ou falas vazias, ou momentos cansativos. Toy Story 3 é uma obra completa que fecha a mais importante série animada para o cinema desde que o primeiro TS foi feito. Mais que isso, a trilogia marcou uma geração de maneira completa (desde crianças que agora estão bem mais crescidas, até adultos que já não são mais tão jovens) sem tratá-los como imbecis descerebrados ou intelectualoides convencidos. A história desde o primeiro até aqui é tão única como um parente que você reconhece os passos, ou convidativa quanto um abraço de pessoa amada, ou doce como o melhor momento de suas férias. Toy Story 3 não esperou seus espectadores crescerem, pelo contrário, convenceu-se que eles amadureceram.
Não vou aqui explicar o enredo. Não há necessidade de fazer tanto. Woody é o cowboy, Buzz o astronauta. Eles são brinquedos de Andy. Isso é tudo. Um contexto de díspares criando um conto de fadas moderno, cheio de mensagens engrandecedoras, verdadeiras e tocantes.
Enfim, o terceiro filme começa com uma grande homenagem aos filmes anteriores e antes que se imagine que é uma mera encheção de linguiça, ele respeita os que nunca assistiram à obra (existe realmente gente assim?) ao mesmo tempo que diverte os ansiosos fãs. Assim, todos sabem quem está ali, Senhor e Senhora Cabeça de Batata, Rex, Porquinho, Jessie, Bala no Alvo, Slinky, os três ETs e Barbie. Alguns fazem falta e o mero espectador se pergunta “onde está Turbo, Tela Mágica, Microfone, Wheezy?“, mas o espírito do filme é realmente esse: a falta que fazem os que já não estão mais ali e a alegria por alguns poucos ainda ficarem. Isso sem ser abusivo, obscuro, duro. São as certezas de uma vida que vai, com pessoas que ficam pelo caminho e às vezes não voltam, mas fazem falta. É uma mensagem tão humanamente real que podemos associá-la a praticamente toda nossa vida: a saída de seu bairro de infância, o fim das aulas do colégio ou da faculdade, a demissão de um emprego que você ficou anos. Enfim, mudanças.
O filme é uma parábola para essas e outras mudanças e de como elas inevitavelmente levam ao fim. Mesmo com o começo divertido com os brinquedos chegando na creche, ou com Ken e seu “metrossexualismo plástico”, ou com a hilária e emocionante coragem de Senhor Cabeça de Batata (um tubérculo acima de qualquer suspeita e um herói nato) o tempo todo a dificuldade das mudanças e como elas são impactantes mesmo quando aceitas ou traumatizantes quando soam como abandono surge na certeza de que aquele fim definitivo é inexoravelmente inevitável e está bem próximo.
Logicamente, nem tudo é dor e mesmo todas essas verdades, por mais crueis que sejam, ainda podem nos trazer alegrais. Há sempre uma saída. Com essa frase é inevitável não encher os olhos d’água quando os brinquedos dão as mãos, fieis àquela amizade, quando sua destruição parece tão certa quanto a verdade de que tudo é consumido pelo fogo. Impossível não ir à lágrimas quando Andy, em uma prova concreta de amadurecimento e humildade, dá todos seus brinquedos, inclusive o eterno amigo cowboy a uma menina que partilha de sua imaginação. É um fim definitivo, recheado de mensagens de amizade, fidelidade, velhice e mesmo amor fraterno.
Não há como assistir TS3 e não se sentir emocionado, triste e feliz por tudo aquilo. Por aquele fim tão respeitoso aos fãs da série e tão engrandecedor ao cinema. Mais que uma animação, a Pixar criou uma ilha de preciosismo que coloca suas obras acima de qualquer coisa que está sendo feita em tela grande atualmente. Desenvolvendo enredos maduros que servem a todas as idades ao mesmo tempo que se tornam imortais pelo simples fato de existirem.
Bem, acho que fui longe demais… realmente me empolguei aqui… mas não há mentiras em minhas palavras. E, se você duvida, é porque ainda não assistiu da maneira certa os filmes da Pixar. Aproveite, alugue os dois Toy Story e quando acabar corra pro cinema e assista a conclusão dessa que é a mais bela história de amizade já feita.
Até a próxima, galera.