Boas Histórias são Eternas

Especial para a RIvista. Saiba como adquirir edições através do e-mail: redacaorivista@gmail.com ToyStoryBanner Existe uma verdade inegável na arte: o que é bom é apreciado, mas o que é excepcional é eterno. As pessoas não estavam preparadas para Toy Story quando ele foi lançado em 1994. Não estavam porque a maioria foi ver um filme de animação com modelos tridimensionais, diferentes da animação clássica desenhada, e se depararam com um filme em que o 3D nada mais era que um detalhe. Toy Story não é simplesmente uma animação utilizando uma técnica moderna, mas realmente um fantástico filme com personagens cativantes e uma história muito bem contada. Não há frames desnecessários ou falas que servem somente pra enfeitar, tudo possui sua função para permitir que a narrativa ganhe fluidez e divirta e encante o espectador. “Um filme sobre amigos”, pelas palavras de John Lasseter, um dos diretores da produção, na época chefe da Pixar e hoje principal diretor de animação da Disney. Até Toy Story, os filmes de animação americanos tinham caído em uma mesmice levada pelo “padrão Disney de animação”: personagens fofinhos, incorruptíveis em sua estrutura psicológica linear, canções que embalavam os momentos chaves dos filmes, e uma narrativa previsível que encantava em sua plasticidade e beleza, mas se tornava muitas vezes vazia depois que se saía do cinema. Dessa época, poucos ficaram na lembrança do público, sendo O Rei Leão o principal – diga-se de passagem, completamente inspirado nas clássicas (e eternas) tragédias de Shakespeare e em Kimba, de Osamu Tezuka, o pai do mangá moderno e um mestre em desenvolver personagens interessantes. Logo em seu começo, o filme dos brinquedos da Pixar mostra que veio derrubar “paradigmas” ao introduzir de um jeito humanamente atraente cada um dos personagens. Para quem não lembra, a história começa com os brinquedos velhos preocupados em qual brinquedo novo seu dono, Andy, ganharia, futuramente os substituindo por causa disso. Woody, o cowboy “líder” da turma, tenta ser racional e, em um discurso motivador, mostra aos companheiros que nada vai acontecer, pois Andy ama todos eles. No entanto, Woody tem toda sua dramaticidade reduzida quando um dos colegas diz que ele só fala isso porque não tem o que se preocupar, pois é o preferido do garoto. Quando o novo brinquedo surge, para a supresa de todos, o único que é realmente deixado de lado é Woody, superado por um charmoso e heroico brinquedo espacial, o astronauta Buzz Lightyear. Assim, em menos de 40 minutos, medo do abandono, frustração, desespero e inveja são os temas mostrados, todos terríveis sentimentos humanos, mas interpretados com magia e sagacidade por brinquedos em um filme para todas as idades. Aí está o grande pulo do gato de Toy Story e a razão por ter elevado os padrões da animação: trazer personagens humanos em histórias fantásticas, mas críveis, em um enredo que permeia temas que vão muito além da simplicidade infantil, mas conseguem atingir até o mais experiente adulto, emocionando o público com a maestria dos grandes contadores de história, como o já citado bardo inglês, sem ter de usar de elementos apelativos, violentos ou piadas de duplo sentido. Mais do que técnica, Toy Story tem o coração dos imortais clássicos. Daqueles que são pedras fundamentais na história da Arte. Apesar deste artigo, o verdadeiro segredo de Toy Story talvez esteja numa das frases iniciais de Woody, a qual reproduzo aqui: “O importante é estarmos disponíveis para o Andy quando ele precisar de nós. É pra isso que a gente existe, não?”. Troque Andy para “público” e a metáfora fará todo sentido: é para ele que as boas histórias do cinema existem, não?

5 motivos para você ler Mayara & Annabelle

Mayara e Annabelle do autor cearense Talles Rodrigues.

Ciro Hamen

mayaraeanna

1. História de mulheres escrita/desenhada por homens sem parecer forçado – O gibi foi aprovado na Comic Con Experience por uma mulher que, como disse o roteirista, Pablo Casado, nesta entrevista pro Garotas Geeks, achou massa uma história de mulheres escrita por homens sem parecer forçado. Ela tinha razão. Veja só: as personagens mulheres conversam sobre assuntos que não são “homens”.

2. Grandes personagens – Mayara e Annabelle são puro girl power. Personagens com carisma são fundamentais para uma boa história e isso as protagonistas têm de sobra.

3. Meio Scott Pilgrim – Há algumas semelhanças com a história em quadrinhos de Scott Pilgrim. Personagens usando magias loucas enquanto vivem uma vida com “problemas normais” na cidade. Além do próprio desenho ser parecido. Para quem é fã de Scott Pilgrim, Mayara & Annabelle pode ser um prato cheio (só precisam criar uma banda chamada Sonic & Knuckles).

4. Fortaleza…

Ver o post original 81 mais palavras

[Des]Enquadradas – Juliana Rabelo’s Post – English Version

Promocional [Des]enquadras
Original text for Juliana Rabelo – English version for Cultura de Quadrinhos crew.

On November 21st and 22nd it happened in Fortaleza, Ceará, the convention [Des]enquadradas: Repensando e Recriando a Atuação Feminina no Mercado de Ilustração e Quadrinhos no Brasil (something like [OUT]OfBox: Rethinking and recreating the female action in Brazilian Comics and Ilustration Market). The convention was organized by Amanda Alboíno, Débora Cristina and Rute Aquino at the Porto Iracema das Artes School of Art.

I am immensely happy because I was invited as an artist and an art teacher. This post is to thank the invitation and to think about the convention results: all the very good stuff I saw and lived in these 2 days.

Rute Aquino, one of the directors.

Rute Aquino, one of the directors. – Photo from Porto Iracema das Artes fanpage.

On first day we had a panel about the Female Graphic Art. Journalist Mariamma Fonseca (from Lady’s Comics site), brazilian former Franco-Belgian comic artist Ana Luiza Koehler and artist-mangá-teacher Blenda Furtado were in the panel. They talked about the importance (and relevance) of a female representation in art. From the discussion with the public, many beautiful sentences and lessons droped out as the necessity of a dialogue between art and women feelings, and the right that women have to be protagonists in many places and many ways.

First panel. From left to right: Mariamma Fonseca, Ana Koehler and Blenda Furtado.

First panel. From left to right: Mariamma Fonseca, Ana Koehler and Blenda Furtado. – Photo from Porto Iracema das Artes fanpage.

The convention offered 12 free hands-on workshops, all with girls-teachers, and which had girls and boys participations. They talked about comic narrative, watercolor and pencils techniques, drawing styles, street art and much more. All of the workshops were very cool and promoted gender equality and women representation. So great!

During the convention it had an area called Feira do Mar, a place where indie publications and arts were sold. In the same place, there were 2 autograph moments: one with the brazilian indie comic star Sirlanney, presenting her book “Magra de Ruim“, and the second one with the Eisner-nominated colorist Cris Peter, and the book “O Uso das Cores“.

My workshop. My students.

My workshop. My students.

The other panels were unbelievable great. They presented strategies for internet publication (in Brazil, print a work is very expensive and agreements with publishers sometimes are not good enough, so the internet is a very good way, but it is very hard to get readers and keep on them), and talked about the insecurities of a girl has when she publishes anything and the criticism which comes from other man and even women. That was a really great moment because all the girls on the panel, as indie artist Lovelove6, the artists Nathália Forte and Natália Matos, the designer Cecília Andrade and street artist Negahamburguer, and the other artists who went to the convention (include myself) shared their ideias in a very nice way. Some of us had jast met in these two days, but we understand each other so closely that it was like we already knew each other. That was magic! And that’s a real sisterhood, and “girl-artisthood” and is awesome.

So, that’s my impression. You can understand more about the [Des]enquadradas convention in the links I put in this text. I hope next year we have more and it’ll be so much better!

Not so focused photo. Clockwork direction: Ana Koehler, Rute Aquino, Mariama Fonseca, Nathália Forte, Cecília Andrade, Amanda Alboíno, Débora Cristina, Nathália Matos, Gabi Lovelove6, Cris Peter, Sirlanney, and Negahamburguer in the center.

Not so focused photo. Clockwork direction: Ana Koehler, Rute Aquino, Mariama Fonseca, Nathália Forte, Cecília Andrade, Amanda Alboíno, Débora Cristina, Nathália Matos, Gabi Lovelove6, Cris Peter, Sirlanney, and Negahamburguer in the center.

75 ANOS DO HOMEM-MORCEGO: Batman a série animada

Featured Image -- 621

Matéria de nosso editor, Luís Carlos Sousa, para o Quadrinhos em Questão. Confiram!

Quadrinhos em Questão

É com uma enorme honra que a equipe do Quadrinhos em Questão apresenta esse texto sobre os 75 anos do Homem-Morcego, escrito pelo nosso querido amigo Luis Sousa, editor do site Cultura de Quadrinhos e professor de quadrinhos no Estúdio Daniel Brandão. Tenham uma excelente leitura!

Levar heróis uniformizados para a televisão sempre foi uma saída lógica e rentável desde o surgimento do Superman em 1938. Muito além dos fãs de quadrinhos, a TV alcança um público mais amplo e misto, consequentemente alavancando a venda de subprodutos relacionados ao personagem. No entanto, repetir o sucesso de uma HQ em um formato televisivo não é assim tão simples, seja ele animado ou com atores. Batman sofreu, durante muito tempo, com o excesso de infantilização e certa pantomima em sua interpretação para as telas caseiras, criando clássicos seriados, mas que nem de longe representavam todo seu aspecto sombrio ou…

Ver o post original 895 mais palavras

NOVIDADES NA CASA

Depois de um período de testes e muito “fazer, refazer, organizar e corrigir”, a semana que vai do dia 17 a 23 de março será uma grande semana para o Cultura de Quadrinhos. Primeiro porque estrearemos uma série nova, anunciada desde nosso início, Monga – personagem de Cristiano Lopes que foi originalmente lançado no premiado fanzine Manicomics e que agora ganha cores pelo grande profissional Dijjo Lima, colorista de vários trabalhos internacionais e hoje contratado do Ed Benes Estúdio -, segundo porque parcerias há muito trabalhadas serão consolidadas.

Monga, por Cristiano Lopes e Dijjo Lima

Monga, por Cristiano Lopes e Dijjo Lima

Importante lembrar que Monga aparece em um bom momento, já que NovaHope terminou seu primeiro capítulo e se prepara para entrar no segundo a partir de 3 de abril, permitindo que os leitores comecem a apreciar o bom bárbaro – que sempre terá histórias curtas e completas e publicações quinzenais – enquanto NovaHope não retorna. Assim, continuamos com Demonaldo e Somos bichos, nossas tiras regulares e Monga durante toda a semana. Além disso, até o final do ano estrearemos séries novas. Conheçam o que vocês ainda verão esse ano em Cultura de Quadrinhos:

1. Lola – de Nathália Garcia e Luís Carlos Sousa

Criada por Nathália Garcia e com roteiros de Luís Carlos Sousa, Lola é uma menina às voltas com um dos mais importantes e confusos momentos da adolescência: a escolha da carreira. Começando com sua prova no Enem e escolha do curso superior – equivocado ou não? – indo até a descoberta dos romances mais significativos e daquilo que realmente ela quer fazer da vida, acompanharemos Lola em alguns momentos engraçados e outros tantos emocionantes, descobrindo na jornada dela onde está a nossa própria, sempre com a fineza e qualidade do traço de Nathália Garcia. As tiras serão semanais e já estão sendo produzidas, com data de lançamento ainda este ano.

Lola, por Nathália Garcia e Luís Carlos Sousa

Lola, por Nathália Garcia e Luís Carlos Sousa

2. Amigos, amigos… – de Luís Carlos Sousa e Ronaldo Mendes

Beto e Carlos são dois amigos do tempo de faculdade que há muito não se falavam. Depois de uma separação difícil de sua esposa, Beto procura pela ajuda do antigo colega e o que deveria ser alguns dias de abrigo acaba se tornando a renovação de uma verdadeira amizade e o começo de uma rotina regada a desastres amorosos, tentativas frustradas de emprego, desgraças culinárias e noites de ressaca. A tira já existe há pelo menos 2 anos, mas só agora toma forma com a adição do fenomenal Ronaldo Mendes nos desenhos. Assim como Lola, será uma tira semanal e dessa vez com previsão de lançamento em junho.

Estudos de Ronaldo Mendes para Carlos e Beto.

Estudos de Ronaldo Mendes para Carlos e Beto.

Por enquanto essas são as novidades que irão aparecer no site, mas acompanhe também nossos artistas, pois uma série de trabalhos deles logo estará despontando na internet e em livrarias, como o aguardado álbum Quem Matou João Ninguém do nosso autor e editor Zé Wellignton.

Fiquem de olho para mais novidades logo logo.

A TRILOGIA VALENTE

Valente por Opção: Vitor Cafaggi

Valente por Opção: Vitor Cafaggi

Recentemente acabei de ler o último (talvez não realmente o último) volume da trilogia Valente, do autor mineiro Vitor Cafaggi. Revendo mental e fisicamente os outros volumes fui tomado pela catártica pergunta: o que foi tudo isso? Valente – para aqueles presos em cápsulas durante os últimos 10 anos – é um garoto (cão) que vive sua hormonal fase da adolescência se apaixonando a cada belo sorriso ou toque inesperado de mãos. Valente Para Sempre, Valente Para Todas e Valente Por Opção é o retrato em quadrinhos de qualquer cara em seu último ano de colégio e primeiro de faculdade. Mais que isso, é um retrato de suas decepções amorosas e da confusa cabeça dos meninos, às voltas com seu gostar e o que fazer, precisando ser “treinados” e “doutrinados” o tempo todo na magnífica arte dos relacionamentos – não raro por ícones do cinema que na vida real não são lá grandes exemplos -, mesmo que seus corações sejam puros e verdadeiros.

Essa sinceridade com que Cafaggi trata seu personagem – na riqueza simples de quem já viveu e aprendeu com a maioria das situações da narrativa – faz a identificação com Valente ser imediata e a transposição da vida do leitor para a do cãozinho adolescente (e vice-versa) é perfeita, completamente sincrônica com a nostalgia revelada em cada página amarelada dos livrinhos. Jogando um olhar mais acurado sob essa sinceridade, há aí uma chance única de conhecer a alma masculina em seu momento mais confuso, mais caótico – o de envolver-se com uma garota. A apreensão em entender os olhares e gestos, o medo do contato visual, o nervosismo durante a troca das primeiras palavras, as ações que deveriam significar uma coisa, mas acabam significando outra, a confusão nas escolhas do primeiro encontro, o “onde por as mãos” ou “afinal, o que fazer com elas”. Tudo isso revela um tipo de “desastramento” dos garotos com seus sentimentos, em como lidar com eles: se revelá-los ou não, como fazer isso, quando fazer isso e principalmente como lidar com erros de julgamento e decisões… é incrível como os homens sofrem com essas dúvidas, e Vitor consegue fazer dessa desastrosa (por que não dizer trágica até?) etapa uma charmosa e delicada comédia onde cada movimento de calda quer dizer mais do que parece.

Esse certamente é um dos grandes trunfos de Vitor: não temer desnudar seus sentimentos, falhas e dúvidas para Valente e, com isso, para seus leitores, transcendendo seu personagem para uma realidade muito mais ampla, bem mais global, revelando detalhes engraçados e desastrosos de caras apaixonados, suas opiniões absurdas e atitudes mais ainda. Talvez nisso esteja a real lição de Vitor e seu Valente: não ter medo, encarar os sentimentos, desnudar-se. Afinal, uma vida (ou uma carreira que inclui alguns prêmios HQ Mix e duas Graphic MSP, uma lançada e outra anunciada) não pode ser feita escondendo-se o tempo todo, né?

Confira a entrevista exclusiva na edição 9 da REVISTA ZINEXT!

O PODER DE UMA PERSONAGEM FEMININA (ou mil questões ainda sem respostas)

O PARADOXO NARRATIVO

Gosto não somente de contar e ler histórias, gosto de saber o que as pessoas que leem, produzem, analisam histórias querem saber sobre estas, quais ideias elas têm, enfim… o que são histórias na vida das pessoas. Recentemente assisti um interessante vídeo do educador Colin Stokes intitulado Como Filmes Ensinam Masculinidade (How Movies teaches Manhood) e dentre as muitas coisas sensatas que ele falou, uma em especial me chamou a atenção: “ensinar aos nossos filhos a se identificarem com essas heroínas [mulheres, de uma forma geral] e dizerem: ‘Eu quero estar no time delas“. O vídeo inteiro vocês podem ver aqui: Como Filmes Ensinam Masculinidade

Um dos conceitos mais básicos da produção de narrativas é a identificação. Os personagens devem ser humanos porque nós só nos identificamos com humanos, ou seja, os personagens devem carregar nossas qualidades, defeitos, sonhos, desejos, fúrias, lamentos, enfim, eles devem ser “nós enquanto humanos”. Sendo assim, qualquer ser (mulheres, homens, bichos, coisas etc) ‘humanizado’ tem um potencial enorme de se tornar o personagem marcante de uma história e, por sua vez, inspirar seus leitores/expectadores/jogadores/consumidores, ensinando-os com exemplos positivos a como encarar a vida ou simplesmente fazendo com que se reconheçam frente a desafios comuns a seus mundos culturais, tendo vitória nisso ou não. No entanto, o número de personagens femininos inspiradores é terrivelmente limitado – pra não dizer quase nulo (e acredito que não é necessário nenhuma pesquisa de grandes universidades para comprovar a veracidade disso). Elas, mulheres, costumam ser a acompanhante, o back up, a tutora, o instrumento, o fetiche, enfim, “a coisa ao lado”, o degrau ou prêmio para o crescimento/amadurecimento/vitória de um personagem principal masculino (muitas vezes, homem, caucasiano, heterossexual, mas não entrarei nesse assunto agora; uma batalha por vez). Quando possui algum protagonismo, não raro elas são masculinizadas e fetichizadas, tornando-se algum tipo de ideário feminino PARA homens e, assim, deixam novamente de ser exemplos, pessoas reais com quem você se identifica, e passam a ser “coisas”, seres tão incomuns e fantásticos (e inferiores) que nem homens nem mulheres se veem naqueles personagens.

Objetivo. Segurança. Certeza. Qual sua desculpa pra não querer ser Mérida?

DESCONSTRUINDO A REALIDADE

Tomando o rumo e os exemplos de Colins na palestra, trago algumas experiências pessoais: a primeira vez que assisti Star Wars: Uma Nova Esperança foi impactante pra mim, como deve ter sido pra vários moleques nos anos de 1970 e 1980 (e ainda é), e a personagem que logo de cara gostei foi a princesa Leia. Ela era a líder dos rebeldes e ela encarava a figura de Darth Vader enquanto todo mundo se borrava de medo dele (até eu). Naquele momento, a postura da Leia me fez querer segui-la, me fez querer ser parte de um grupo no qual a líder era ela. Luke, mesmo em sua evolução final, nunca foi tão forte pra mim quanto a figura inicial de Leia. Imaginem então a decepção que foi quando, durante os outros filmes, ela se tornou “o prêmio” do chato (ao menos pra mim) Han Solo? Decepção pior ainda (anos depois, com uma mente mais madura) quando, na chance de ela ter alguma importância não passiva na trama, eu a vi sendo transformada em um fetiche a la Red Sonja? E isso piora: descobrir que Darth Vader, o cara que matou mundos e mundos que ela tentava salvar, que bateu na porta do planeta dela com uma tropa e uma Estrela da Morte e a aprisionou, é seu pai e… qual foi o impacto disso pra ela? Como essa nova realidade foi explorada no interior da personagem? Alguém lembra da reação ou semblante de Leia ao saber disso? Enfim, uma história de meninos pra meninos sobre seus pais (masculino mesmo, não a “coletivização” do termo).

Até hoje a forma como tratam Leia em SW ainda não me faz um fã completo e sincero da série. Pergunto: qual o problema ou necessidade de manter personagens tão “atuantes” e complexos quanto Luke ou Han ou Chew ou os amalucados Droides R2D2 e C3PO (que várias vezes têm mais função e falas que Leia) e perder a oportunidade de explorar uma história rica como a de uma princesa criada por outra família que quando se viu tendo de liderar um grupo de rebeldes contra um ditador fascista não pensou duas vezes? Por que Leia não pode ter sido, desde o início, uma figura que instruía e guiava Luke, no mínimo? Por que ela não poderia ter sido uma líder muito mais atuante que uma princesinha presa? Por que ela não poderia, quem sabe, ser a real mestre Jedi ali? É uma ideia tão subversiva assim só porque ela é… bem, mulher? Pensemos.

Beatrix Kido, uma personagem feminina forte ou uma figura feminina que foi revestida de símbolos masculinos pra se tornar uma protagonista mais aceitável ao "público"?

Beatrix Kido, uma personagem feminina forte ou uma figura feminina que foi revestida de símbolos masculinos pra se tornar uma protagonista mais aceitável ao “público”?

MAS… QUEM FAZ AS HISTÓRIAS?

Ainda falando do TED e seguindo o raciocínio da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie (no vídeo que vc pode ver acima, mas veja depois, sei que você passou por ele e pensou ‘como é longo’…) eu penso muito naqueles que escrevem as histórias. Bem, quem escreve histórias é quem primeiro consumiu histórias que, por sua vez, foi feita por… homens (ao menos em sua grande maioria). Assim, são homens (héteros, brancos, dominantes etc etc etc) que colocam na cabeça de crianças (sim, as histórias influenciam muito mais nossas crianças que as milhares de horas semanais nas escolas) que meninos são protagonistas de jornadas épicas e meninas são troféus sensuais a serem recebidos – e sim, esse pensamento é ridiculamente simplista assim… e real. São ELES que vivem as jornadas, são ELES os escolhidos, são ELES os líderes, são ELES os que começam frágeis e no final se tornam fortes (saindo da seara da ficção, pensemos em âmbito social: seguindo essa lógica, atores e escritores recebem os melhores papéis, as melhores ideias, as melhores falas, os maiores cachês e se ficam nus ou seminus não são taxados por isso; a atriz Olivia Wilde tem uma entrevista interessante conversando sobre o assunto, mas, novamente, deixemos pra outro momento) e ELAS são… o resto. Às vezes menos que isso. Por que há tanto medo em manter mulheres como protagonistas? Por que um homem (nesse caso, uma criança) não pode se ver numa protagonista feminina? Isso é tão errado assim? Tão irracional? E colocar mulheres pra escreverem suas próprias histórias? Do jeito delas, da forma delas, com a cara delas… por que não? Isso seria tão absurdo assim? Iria tão contrário à realidade de nos vermos como humanos se nos vermos no lugar de mulheres? Se for, acho que temos um problema aí, porque estamos considerando que as mulheres, essa parte tão preciosa da humanidade, não são humanas, porque a existência e história delas são incapazes de criar identificação com quem quer que seja, e a isso me refiro a outras mulheres também. Parece tão paradoxal, pra não dizer absurda, tal ideia.

Isso me lembra um grupo de RPG que jogo. Havia uma jogadorA que durante uma de nossas longas aventuras foi a líder de nosso grupo. Confiávamos cegamente nela porque era a mais sensata do grupo, fato incontestável. O próprio mestre tinha mais confiança em nós porque ela era quem ditava as regras. A segurança de sua personalidade na época era tão forte, que mesmo fora de mesa, nós ainda a víamos como líder, como alguém a quem poderíamos recorrer. No entanto, seu personagem era… homem. Retirando a possibilidade de que ela via interpretar um homem como um desafio, será que a personagem dela teria tido a mesma sorte conosco se fosse mulher? E nós, homens jogadores, arriscaríamos jogar com personagens femininas? Nos colocaríamos no lugar delas? E que tipo de figuras femininas seríamos, ou seja, estaríamos prontos para ficar no lugar delas e SER elas? E se ela decidisse interpretar uma personagem feminina, nós a seguiríamos tão seguramente também?

COLOCANDO AS COISAS NOS SEUS DEVIDOS LUGARES (OU NÃO)

Longe de mim, com esse texto, começar uma cruzada feminista ou machista, não por outra razão, mas porque, no final das contas eu acabaria me contradizendo. Afinal, eu sou homem (branco, hétero, de classe dominante – ao menos em parte) e, como gosto de metaforizar pra dizer que nunca poderei entender como as mulheres sentem ou pensam ou desejam: “não menstruo, nem sinto cólicas”. Fora isso, eu escrevo histórias sobre homens, porque, afinal, essas são as histórias dentro de mim. Meu amadurecimento como escritor tem me levado a tornar essas histórias mais universais, até mesmo me ajudado a contar histórias de mulheres, mas ainda me pego relendo coisas que fiz e dizendo: “hummmm… ‘macho’ demais”. Resumindo, não vou levantar uma bandeira porque posso falhar naturalmente nisso, mas gosto de manter o pensamento de Colins: por que não contar uma história sobre uma mulher a qual eu quero seguir? Que lidere um time o qual eu queira fazer parte? Que seja ainda uma inspiração e que crie em mim o desejo de ser como ela, ter as qualidades que ela tem e ainda assim ela ser uma MULHER, não um homem travestido em fetiche para outros homens? Enfim, eu tenho muito a aprender, mas acho que há aí um ponto interessante de aprendizado pra qualquer um que ainda se veja como um estudante de narrativa (o que, na minha opinião, é qualquer autor, experiente ou não). Até lá, que tal deixarmos as mulheres contarem suas histórias? Que tal abandonarmos a triste máscara da ignorância e nos envolvermos com ELAS e as histórias DELAS e fazermos nossas crianças também se envolverem com isso e também quererem se ver como essas mulheres? Quem sabe assim a questão do respeito pelas mulheres  tão obrigatória e necessária, mas tão pouco lembrada – não precise nunca mais ser ensinada, pois estará já dentro de nós (homens) e de nossos filhos, e netos, e bisnetos…

BÔNUS TRACK

Aos que se perguntam onde encontrar boas fontes pra tentar desenvolver essa visão, eu vou tentar apelar aos clássicos (mesmo que esses ainda sejam muito machistas, então adaptações são necessárias): nas lendas gregas, Atenas (esqueçam a visão Cavaleiros do Zodíaco, por favor) é a deusa da guerra juntamente com seu irmão, Ares, mas este se curvava a ela – também deusa da razão, um dos grandes ideários gregos, em contraposição à selvageria e ao caos – e ter a bênção do senhor da guerra poderia garantir prontidão pra batalha, mas a bênção da divindade feminina era segurança de vitória. Fora isso, Atenas, independente de seu nascimento ou mesmo de sua função, é uma deusa pacifista que recorre às armas quando necessário, mas prefere vencer uma contenda da maneira mais funcional e eficiente possível. Ela é, por si só, uma líder. É uma divindade que, num mundo pagão, eu seguiria, principalmente porque me identifico no etos dela. Acredito piamente que muitos homens se identificariam com ela, na verdade, muitas pessoas. Então, fazendo as devidas adaptações, por que não?

O que você prefere: razão ou destruição? Já parou pra entender as razões da sua resposta pra essa pergunta?